Entrevista

05/07/2017


Fala pessoal! Chegamos a nossa sétima pessoa entrevistada e a última desse primeiro semestre de 2017. Para fechar todas essas grandes entrevistas, trazemos o relato da Shana Boff, engenheira sênior que trabalha na Noruega na maior petrolífera do país, a Statoil, que tem campos até mesmo no Brasil. Nessa entrevista ela vai nos contar um pouco da escolha do curso, das suas experiências, das automacats e ainda vai nos contar uma história um tanto quanto engraçado com realimentados.

  • Por que escolheu automação?

    Na verdade eu comecei na engenharia elétrica na UFSC, fiz um ano de curso, depois eu mudei para a automação. Mas eu tive bastante influência da minha irmã que já fazia automação.

  • Quantas meninas tinham na sua turma?

    Na 08.1 tinham duas, com a minha entrada depois por transferência eu acabei sendo a terceira.

  • Como se sentia sendo a maioria da turma homem? Cantar automação é “pintudão” te incomodava?

    Para mim não incomodava, mas eu sei que pra muitas outras meninas incomodava bastante. É bem desafiador ter a maioria da turma homem. Quando você está na faculdade, todo mundo se torna bastante amigo, mesmo sendo poucas meninas e bastante meninos. A gente entra no ritmo de comportamento masculino muito rapidamente. Nunca me atrapalhou o fato de ter mais homens do que mulheres. Por um lado era até bom, porque como nós éramos tão poucas a gente se uniu bastante, mesmo de diferentes fases, a gente sempre organizava o Automacats. Uma passava a informação para a outra, empolgava a outra. Então, acho que se fosse um curso só de mulheres nós não seríamos tão unidas como as Automacats eram.

  • Como era seu dia a dia no curso?

    Eu nunca fui a melhor da turma, então, eu sempre tive que estudar muito mais que a média para conseguir acompanhar. Para mim foi bastante difícil, toda a graduação foi puxada e foi com muito esforço para eu conseguir me formar. Principalmente em matérias que envolviam programação, que não era meu forte.

  • Você lembra como e quando surgiu o Automacats?

    Surgiu antes de eu entrar. Surgiu por volta de 2005, quando veio uma turma com seis meninas de uma só vez. Isso fortaleceu as poucas meninas que tinham no curso e elas criaram o grupo. Quando eu entrei, por volta de 2008, a gente fez camiseta das Automacats. Fazíamos encontros semestralmente. O grupo foi crescendo, espero que ainda esteja acontecendo.

  • O que você fez de atividade extra-acadêmica?

    Eu fiz parte do grupo de aeromodelismo da mecânica, o Céu Azul, por um ano e meio mais ou menos, o que me ajudou bastante para o mercado de trabalho. Ajuda bastante quando você escreve no seu currículo que você tem experiência com atividades em grupo. Ainda mais se você for fazer entrevistas que envolvem dinâmica de grupo. Nas entrevistas que eu passei, eles sempre comentavam que viam no meu currículo que eu já tinha experiência em trabalho em grupo. Eu acho que em qualquer grupo, você se envolve o quanto você quiser. Eu acabei indo mais para a área administrativa e, obviamente, aprendendo diversas coisas sobre aeromodelismo, materiais e mecânica. Eu acho super válido participar desses grupos acadêmicos.

    Eu também trabalhei no LabMetro com programação e no final do curso eu juntei o Aero com a UEEM - Unidade Experimental de Escoamentos Multifásicos, que era o laboratório do professor Pagano no DAS, onde eu trabalhei mais com a parte de instrumentação e controle.

  • Você acredita que IAA é importante para que? Vagas acadêmica, provar conhecimento, mostrar que é o melhor da turma?

    Eu acho que é bom. Óbvio que deve ser muito bom ser o melhor(risos). As notam contam, com certeza. Principalmente se você for seguir na área acadêmica. Para procurar mestrado, doutorado no exterior, você precisa enviar as suas notas.

    É claro que é importante, eu me arrependo de não ter me esforçado mais para ter tido notas melhores. Se bem que eu não era uma das piores, mas eu poderia ter ido bem melhor. Acho que isso me trouxe um benefício, em não ter a melhor nota da turma. Eu sempre tive que me esforçar muito para conseguir estágio, ter oportunidades. Porque eu não era a primeira selecionada quando os professores recebiam o meu IAA ou algo do gênero. Eu sempre tinha que colocar a cara a tapa para conseguir algo, já que na nota eu era cortada. Então, acho que isso me estimulou na maneira de agir para procurar trabalho. Eu não desanimava. Já era acostumada a ter que procurar muito para as coisas acontecerem.

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    É verdade. A parte da programação eu acho que é tida como surpresa para muitos quando o curso começa. Acho que nem todo mundo tem a noção de quantas matérias de programação a gente tem que fazer. E para muitos, talvez para a metade, é muito fácil, é maravilhoso, é um hobby. E para a outra metade é um "muro", é algo que não vai. Por isso muitas pessoas desistem.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Com certeza as matérias de controle. Eu fui da primeira turma que pegou o Bira em Sinais 2, antes era o Roquero. Até então Sinais 2 era muito tranquilo. De repente, a gente teve o Bira, que foi do nível do Júlio de Realimentados. Esse foi um dos maiores baques, porque a gente não tinha nenhuma prova de outro semestre para estudar. Foi bem difícil e eu reprovei. Passei depois, no semestre seguinte. Mas ele é um excelente professor, aprendi muito com ele.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Não tive nenhum auxílio para conseguir o PFC ou emprego. Eu consegui porque eu fiz PFC na Noruega, o que abriu as portas para eu conseguir o emprego aqui na Statoil depois. E essa vaga de PFC eu consegui porque já haviam vários outros brasileiros trabalhando nessa empresa, que era a empresa onde a minha irmã trabalhava. Ela sim que conseguiu a vaga por causa de um contato do professor Camponogara com o dono da empresa.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    A minha edição foi o 18º. A gente fez lá na Passarela. Foi maravilhoso, o lugar é incrível. Estava tudo certo para a festa acontecer e as 10 horas da manhã os bombeiros chegaram e cancelaram a festa. As cervejas já estavam gelando. Era gente chorando, desesperada. Não sei como alguém conseguiu, mas alguém conhecia o delegado e o delegado conhecia alguém dos bombeiros, que fez com que eles liberassem a festa. No fim, a festa foi um sucesso.

    O Linguição foi uma das maneiras de, pra quem não fez nenhum estágio que envolvesse a parte de orçamento, ter uma base econômica e de gestão. Eu acho que é super válido e eu usei o LA em algumas entrevistas falando o quanto eu aprendi de gestão e orçamento coordenando uma festa com tantas mil pessoas.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Eu concordo e acho positivo. Porque o curso mostra várias áreas diferentes e você consegue se especializar depois na que você achar mais interessante. Pelo menos você tem uma base de várias frentes. Quando você está cursando o curso você não tem noção de quão importante são as matérias até você entrar no mundo do trabalho. Eu acho que as matérias, mesmo que abrangentes, são bem necessárias. Tudo ajuda na formação.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Eu me orgulho muito do meu último semestre. Eu fiz muitas matérias, 2 estágios, organizei o LA e ainda passei em todas as matérias. Acho que fiz 7 ou 8 matérias para conseguir me formar naquele semestre. Eu me arrependo de não ter prestado atenção em algumas matérias, que no momento tu não vê motivo de ter tal matéria e depois tu vê que era muito interessante. Depois de formado tu se pega tentando achar os livros ou anotações da época, para tentar relembrar o que aquele professor disse.

  • Você mandou currículo para mais de 100 empresas, chegou a voltar pra casa sem perspectiva de trabalho, o que te fez persistir até o fim?

    Eu acho que é por não ter opção. Ou eu trabalhava ou eu trabalhava, pra mim estava fora de cogitação me formar e continuar sendo sustentada pelos meus pais. Acho que muita gente talvez desista por ter a opção de trabalhar na firma da família, ou por ter um interesse enorme de continuar estudando... eu não tinha nenhuma vontade de fazer mestrado, estava fora de cogitação, pois foi muito difícil a formação. Então eu queria ter uma pausa, queria ter uma experiência de indústria. Eu já tinha levado vários nãos durante a graduação para vagas de estágios, então pra mim levar mais um não, não me importava muito. Mas eu sabia que uma hora eu iria conseguir, que meu maior chute seria ir pra uma dinâmica de grupo, porque daí, nela, você tem mais tempo para mostrar suas qualidades, ao contrário de se eu fosse para uma vaga específica (como meu IAA era em torno de 7, muito ruim para quem compete com aqueles que vem de uma universidade particular por exemplo), eu sabia que eu teria que me focar em algo que eu pudesse "me mostrar" mais.

  • Isso demorou um tempo ou logo depois da faculdade você já conseguiu?

    Eu já tinha começado a tentar vagas de emprego enquanto eu fazia o PFC. Eu me formei final de Agosto, dia 11 de Setembro já estava de volta à Noruega para a dinâmica de grupo na Statoil. Eu acho que isso foi um diferencial entre meus colegas que se formaram na mesma época, porque geralmente no Brasil, a ideia é se formar e aí então procurar emprego. Já na Europa, no último ano da faculdade, todo mundo já começa a fazer processo seletivo pra sair da faculdade já empregado; com uma vaga que você conseguiu há um ano atrás. Então, eu entrei nesse ritmo europeu e enquanto eu escrevia o PFC, eu separava pelo menos uma ou duas horas do dia para procurar empresas, fazer currículos e cartas de motivação, e aí foi.

  • A empresa que você conseguiu o primeiro emprego não é a mesma do PFC?

    Não. A empresa do PFC era uma empresa pequena e já estava começando a ser afetada pela crise, então reduziram bastante os funcionários.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Você notou se há alguma disparidade na questão de salários entre homens e mulheres?

    Aqui na Noruega existe muito a igualdade de gêneros, então eu sei que quem entra de início acaba entrando todos no mesmo nível, independentemente de ser homem ou mulher. Após o passar dos anos, dependendo de suas responsabilidades, pode variar um pouquinho, mas de início é tudo o mesmo. Não sei como seria no Brasil.

  • Você acha que o engenheiro de controle e automação saído da UFSC está pronto para enfrentar o mercado de trabalho? Acredita que há que complementar o conhecimento em alguma área diferente? Para seguir esse ramo de óleo e gás, controle...

    Eu acho que está pronto sim, óbvio que eu fiz matérias extras do PRH, tentei durante a faculdade fazer estágios já na área de óleo e gás ou que me desse um background, e isso vai da escolha de qualquer um... se você já tem noção de que área você quer seguir na sua atuação profissional, é super válido já ver matérias extras para ter um complemento às matérias do DAS, principalmente estágio, que é onde você aprende. De modo geral, pra quem quer entrar na área de petróleo e gás, quando você entra você acaba recebendo muito treinamento, então são meses de treinamentos específicos. O que importa é que você tenha o pensamento técnico de engenheiro, a rapidez de pensamento e toda a base técnica, mas em que você vai acabar trabalhando quando empregado você nunca sabe, pode ser que entre em qualquer departamento de acordo com seu currículo. Uma vez que tu entra na empresa, ela mesmo vai te guiar para o que ela precisa. Ela precisa de um bom engenheiro flexível que no momento é necessário.

  • Há discriminação no mercado de trabalho na sua área?

    Depende, se eu vou a offshore a maioria da tripulação são senhores, homens de mais de 50 anos, eles te tratam como uma "menininha", é revoltante (risos). Mas se eu tô no escritório ou trabalhando com gente mais nova, muito difícil ver discriminação em questão de gênero. Em questão de nacionalidade é sempre um desafio você trabalhar em um lugar fora de sua cultura. Você sempre tem que mostrar mais serviço que o necessário para provar suas qualidades e não deixar dúvidas. Mas não são muitos brasileiros que vem pra cá, pois a empresa tem uma filial no Brasil.

  • Quando e porquê você decidiu seguir essa área depois de formada?

    Foi quando eu fazia Sinais e gostava de controle, e quando tinham vários incentivos da Petrobras na UFSC, com o PRH, onde os professores disponibilizavam matérias extras do PRH que eram dadas a noite, até participei de algumas (ministradas pelo professor Agustinho Plucênio, único professor que tinha vindo da indústria). Então era muito bom porque a gente tinha um feedback direto da indústria e acabou ajudando nas escolhas.

  • Se existisse Engenharia de petróleo na sua época, você teria feito?

    Não, acho que não vale a pena se especializar tanto assim. É muito bom ter um currículo coringa, pois não sabemos a crise que pode surgir e em qual momento. Se você tem um currículo muito focado em um tema, você não fica versátil para o mercado de trabalho, e isso é um benefício da automação, onde se pode mudar de um ramo para o outro e ir aprendendo, pois a base de engenharia a gente tem. Não quer dizer que se você começou a trabalhar com engenharia de petróleo você vai trabalhar com isso a vida inteira. Pode ir para a aviação por exemplo. Tenho muitos colegas aqui que vieram da área de aviação, engenharia de alimentos, civil... Na faculdade você não pensa que isso é possível.

  • Na época que você mandou currículo para todas as empresas, quais eram os perfis dessas empresas?

    Todas empresas eram da área de óleo e gás. Em qualquer setor, poderia ser serviços, navais, eletrônica, testes... ia entrando no Linkedin e conhecendo as empresas, além de entrar em contato com veteranos já formados que trabalhavam na área para darem nomes de empresas no ramo, pra ter uma noção do que tem no mercado. Muitas vezes mandava meu currículo mesmo não tendo vaga na empresa.

  • A Statoil é estatal?

    É parte estatal, parte acionistas, mas não é tão influenciada pelo governo como a Petrobras no quesito de determinação de lideranças e posições. Mas o governo tem a maior parcela de ações.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Eu pretendo continuar na Statoil, pois existem muitas opções. Posso mudar para vários setores, como perfuração, produção, logística... É uma empresa muito grande com várias portas abertas para versatilizar o currículo.

  • Você pensa em voltar pro Brasil?

    Sim, eu nunca trabalhei no Brasil depois de formada, então eu tenho interesse de ver como é.

  • Como que está o mercado de petróleo, óleo e gás?

    Acho que entrei no último semestre possível, ou seja, no último semestre em que as empresas ainda não falavam em redução e cortes. Se eu tivesse me formado um semestre ou um ano depois, seria muito mais difícil. Tive sorte nesse sentido, e também tive sorte de não continuar na empresa do meu PFC, pois isso me fez procurar outras opções e no fim conseguir essa ótima oportunidade aqui na Statoil. As vezes é muito cômodo ficar onde você já está, já conhece, já sabe o que tem que ser feito.

  • Sobre o mercado na área que você trabalha agora, o que você pensa sobre o mercado futuro? Está interessante?

    Muitas empresas de petróleo estão se tornando empresas de energia. Por exemplo, a Statoil está nesse caminho de não realizar somente a perfuração de poços de petróleo, mas também a “wind power offshore”, estão tentando focando na área de energias renováveis. É super interessante. A gente vê que existe uma crise nesse ramo faz muito tempo, por isso talvez seja desestimulante pra quem está entrando no mercado de trabalho agora adentrar nessa área, mas o mundo precisa de energia, e essa crise não vai durar pra sempre. A maior fonte de energia ainda é o petróleo, portanto ainda tem muitos anos de emprego pela frente, e eu acho que se eu não estivesse no ramo de petróleo, estaria em outro ramo de distribuição de energia.

  • Teria alguma dica para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você?

    Eu acho que no meu currículo o que foi muito bom foi ter feito um estágio que era patrocinado pela Petrobrás, ter algo do PRH envolvido. Então, seria bom ter algo parecido se a pessoa deseja ir atrás de emprego nessa área, já que a Petrobrás investe bastante dentro da UFSC, pois salta aos olhos de quem contrata. Caso não seja possível, cursar matérias que falem sobre óleo e gás. Mas é muito importante saber o que significa trabalhar nesse ramo, porque nem tudo são flores, portanto conversar com pessoas que trabalham na área pode ser muito produtivo e é uma ótima dica. Por exemplo, por mais que eu queria seguir no setor de óleo e gás, trabalhar na Schlumberger estava fora de cogitação, eu nem tentei entrar pois já sabia como funcionavam as coisas por lá. Assim, é interessante saber bem aonde está o seu limite do quanto você quer e o que você quer trabalhar, pois nessa área é muito fácil acabar virando workaholic e trabalhar horas sem fim, sem ter férias. Acaba entrando em um loop vicioso devido ao salário ser bom, o trabalho ser interessante e assim muita gente vai no modo hardcore por muitos anos e não aguenta, por fim acaba desistindo totalmente devido ao desgaste. Concluindo, se deseja entrar na área de petróleo e gás, precisa saber até aonde estará disposto a ir.

    A Statoil é operadora como a Petrobrás, diferente da Schlumberger que é fornecedora de serviço. As fornecedoras de serviço, como a Halliburton, Aker Solutions, FMC, etc., tem deadlines e budgets para seguir que são muito restritos, portanto você acaba entrando em serviços que trabalham muito contra o tempo, sobre pressão direto. Já na Statoil, Petrobrás, Total, etc., é um pouco diferente. Acaba-se trabalhando do outro lado, fazendo a requisição de serviço quando necessário, ver o que está precisando ser feito, realizar a gestão e identificar as falhas, fazer pesquisas de mercado sobre quem é o mais capacitado no mercado pro serviço, identificando qual é o melhor fornecedor com o melhor preço, exigir o melhor dos mesmos, além de entender tecnicamente para não ser ludibriado, ou seja, é um trabalho mais "light", mesmo assim pode ser muito estressante, mas não chega perto do trabalho em empresas fornecedoras em questão de stress do delivery.

  • Existe aquela questão de trabalhar em plataformas? De trabalhar Y dias e folgar X?

    Sim, mas varia de empresa para empresa e país para país. Aqui como o salário do engenheiro é muito caro, é muito difícil as empresas darem uma vaga para o engenheiro trabalhar 100% offshore, então geralmente você como engenheiro teria um trabalho off-on shore, além de ter viagens offshore para realizar acompanhamentos... essas viagens são mais ou menos ao acaso. Mas se a pessoa tentou entrar em uma vaga 100% offshore, dependendo da empresa e do país, podem ser por exemplo 4 semanas trabalhando, 4 de folga, 2 trabalhando, 4 de folga, varia.

    Aqui na Statoil seria 2 semanas trabalhando fora, 4 de folga. Mas com a crise do jeito que está, é muito difícil conseguir essas vagas, além de que as empresas estão reduzindo cada vez mais a quantidade de pessoas offshore... mas mesmo assim trabalhando em escritório se consegue ir em offshores e "botar a mão na massa".

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    Eu trabalho muito com controle e gestão de fornecedores, controle de orçamento, requisição de orçamentos, envolvendo muitos pagamentos, custos, controle de gastos, acordo de serviço entre empresas. Eu notei que, durante a graduação, a gente não tem algo que envolva gestão orçamentária ou algo assim no curso, então acho que no fim da graduação poderiam inserir algo relacionado a isso... seria uma boa opção, acabaria afetando tanto os que pretendem abrir empresas próprias, quanto aos que buscam ser empregados de grandes empresas, ambos se beneficiaram de conhecimentos voltados a orçamentos e economia.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Fazer estágios que te abram os olhos para as opções do mercado. Sempre buscar fazer estágios, não ficando tanto tempo na mesma área, pois assim a pessoa acaba não descobrindo as demais áreas possíveis a se seguir. Acho que o principal é isso, no estágio é onde mais se aprende. E tem que tentar, ser insistente, sempre se aprende muito.

  • Existe alguma coisa que acredita que esquecemos de perguntar e que seria interessante compartilhar com os alunos de engenharia de controle e automação?

    É muito importante não desanimar. Eu mesmo desanimei durante o curso em vários momentos, por ser tão difícil, ou por ter várias notas baixas, ou por "ah não quero programar, não sei programar e não vou conseguir emprego". Muitas vezes me pegava pensando nisso. Mas no fim não é verdade, existem muitos caminhos que podemos seguir e trabalhar com automação que não envolvem programação por exemplo. Nosso curso nos dá uma boa base de engenheria que pode ser aplicada a várias áreas de indústria.

    Outra coisa que me chamou atenção, é como a gente não tem noção de como é o mercado de trabalho enquanto está no curso, e das opções possíveis. Quando eu comecei a mandar os currículos, procurando empresas, é que eu fui vendo a variedade e a gama de empresas em diversos ramos, uns muito interessantes que não fazia ideia, que envolvem muito a nossa área. Isso me fazia pensar que eu poderia ter feito ou tentado algum estágio nessa empresa anteriormente caso eu soubesse de sua existência. A nossa graduação é muito focada para teoria e pra quem se dá bem programando, consegue achar um emprego relativamente mais fácil que os que não almejam essa área. Mas existe uma grande parcela de graduandos que não funciona assim, portanto eu acho que se tivesse contatos da indústria bem mais diretos com a graduação, como é feito aqui na Europa, nas universidades da Noruega por exemplo, animaria muito mais os alunos a seguirem adiante.

  • Como você acha que a gente quebra essa barreira?

    Vai do auxílio de professores, alunos e ex alunos que possuem contatos. Para uma empresa investir, criar um laboratório, abrir vagas dentro da universidade federal, a empresa tem que ter algum benefício fiscal, ela precisa ter algum retorno da faculdade ou do departamento. Existem tantas indústrias em Santa Catarina, como em Joinville, mesmo sendo pequenas, mas que poderiam ter um contato mais direto com os professores ou com os alunos, seria um benefício para as próprias indústrias e para os alunos e professores.

    Ser curioso também ajuda. Ouviu o nome de uma empresa, vai atrás descobrir o que é! Quem sabe você acaba despertando interesse, ou é algo que você se dá bem. Mesmo se a empresa for do exterior, deve-se tentar, porque muitas possuem alguma filial no Brasil.

  • É muito melhor procurar emprego fora ou dentro do Brasil?

    A minha opção sempre foi começar o trabalho fora porque eu achava que seria mais fácil ter um currículo com experiência no exterior e então voltar para o Brasil em um patamar melhor do que se começasse do zero no Brasil. Pois ouvia muita história de pessoas recém formadas ganhando salários muito baixos, disputando vagas de empregos muito ruins. Então eu tentei no mundo todo, menos no Oriente Médio e na China, Eu estava com a intenção de ficar um tempo fora e depois voltar. Se você se disciplina com uma rotina de busca de emprego, com horários e metas, ajuda muito. Quando eu me formei eu fiquei sem o que fazer, então foquei e me disciplinei buscar emprego. Não queria ver os dias passarem e não conseguir nada, ou seja, eu estava todo dia atrás de vagas e conhecendo as oportunidades baseadas naquilo que eu queria.

  • Tem alguma história curiosa do seu período de curso?

    Nós estudávamos em grupo pra Realimentados no LTIC, eu tinha o cartãozinho, passava ali na porta pra entrar. Eu cheguei em um domingo de manhã cedo pra estudar, a prova era na segunda, e todos os meus cadernos e materiais estavam dentro do LTIC, então eu precisa pegar de qualquer jeito. Mas o meu cartão tinha um problema de contato e as vezes não abria aquela maldita porta. Eu ali sozinha, meus cadernos lá dentro, resolvi forçar a porta pra abrir. Chegou um colega meu pra me ajudar, até que conseguimos a façanha de quebrar a porta de vidro (risos), se espatifou completamente, disparando alarme e tudo. Ai eu fiquei ali parada sem saber o que fazer, vieram os seguranças do CTC e eu fiquei ali, enquanto chegavam os outros alunos e entravam sobre a porta de vidro toda quebrada, não estavam nem ai pra ela, só queriam estudar pra prova (risos). No fim tive que pagar a porta, depois o professor Max mandou e-mail para todos os alunos dizendo que não precisava quebrar a porta pra estudar (risos). Ou seja, às vezes batia o desespero!

Mensagem Final aos estudantes

Eu queria deixar uma mensagem especialmente para as meninas da engenharia. Não é fácil estar em um curso só de homens, mas existem alguns benefícios. Devem unir-se, porque uma Automacat ajuda a outra e pra mim foi muito importante ter esse grupo, mesmo depois de formada. Não é só na faculdade que você vai estar rodeada de muitos homens, vai ser na vida inteira, seja onde você trabalhar, estagiar... se você não está confortável agora com o meio masculino, não pense que quando se formar vai ser diferente, porque não vai!

Por exemplo, quando vou a offshore tem apenas eu e a menina da limpeza num barco inteiro. Você tem que estar confortável para seguir adiante. Muitas meninas não pensam que pode ser desse jeito. Pelo menos no ramo de óleo e gás, eu posso afirmar que é sim.

Outra coisa que me ajudou muito na faculdade foram os estudos em grupo. Se você se dá bem estudando em grupo, pode ser muito vantajoso.