Entrevista

15/11/2017


O principal objetivo do Alumni Automação é trazer diferentes ex-alunos com diferentes carreiras para que nós, futuros engenheiros de Controle e Automação, possamos seguir quando formados. Hoje, nós trazemos o Rodolfo Flesch atualmente trabalhando como professor do nosso departamento para nos contar um pouco de como fazer e como se identificar em uma carreira acadêmica!

  • Qual a sua historia depois de se formar?

    Antes de entrar como professor efetivo, eu trabalhei como professor substituto durante o doutorado. Dei aula de Microprocessadores, Avaliação de Desempenho, Cálculo Numérico, Laboratório de Não Lineares e Laboratório de Realimentados, além de três disciplinas diferentes de controle e instrumentação para a área de petróleo e gás. Enfim, passei por quase todas as áreas dentro do curso. Eu fiz mestrado e doutorado aqui. Fui da primeira turma do PGEAS (totalmente desvinculado da elétrica e vinculado ao DAS somente) e meu mestrado foi de 2007.1 a 2008.2. Depois disso, eu fiz o doutorado, que foi de 2009.1 até 2011.2. No início do doutorado, eu passei seis meses em Pequim, na China, porque eu já estava namorando com a minha esposa atual e apareceu uma oportunidade de cursar umas disciplinas e ficar na universidade lá. Quando eu já estava com o doutorado bem encaminhado e com vários resultados bem consolidados, eu tinha planos de ir para a Espanha pra fazer aplicação disso só pra ter mais um estudo de caso, que seria feito em um sistema de energia solar. Só que no fim de 2011 surgiu um concurso para controle na UFSC de Joinville, fiquei em primeiro lugar, me chamaram e comecei a dar aula lá em 2012.1. Em função disso, eu decidi deixar a Espanha para outra oportunidade e corri para defender o doutorado logo. Em 2012, o Professor Augusto Bruciapaglia se aposentou e no início de 2013 abriu concurso pro DAS, então entrei como professor auxiliar em 2013.2 e hoje sou professor adjunto.

  • Como funciona essa divisão/hierarquia entre professores?

    A rigor a universidade tem algumas atribuições diferentes, por exemplo, professor auxiliar não dá aula para pós graduação e isso vai crescendo. Hoje como todos entram com doutorado, professores auxiliares, assistentes, adjuntos, associados ou titulares acabam fazendo exatamente a mesma coisa. Muda a questão salarial e o reconhecimento no meio acadêmico. A progressão de níveis pode ocorrer a cada dois anos, desde que você tenha uma pontuação suficiente, que é definida com base em alguns critérios. Esses critérios são definidos em uma tabela de pontuação, que engloba atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. No final da história, você tem que ter 2 anos e a pontuação mínima para solicitar mudança de nível. Quando você chega a associado 4, além da pontuação e do interstício, tem que defender um memorial de atividades acadêmicas perante uma banca para ser promovido a professor titular. Além disso, em todos os casos, o professor tem que cumprir com a exigência mínima de horas de aula. Com exceção de professores que ocupam alguns cargos especiais, cada professor tem que dar no mínimo 8 horas de aula semanais (eu hoje tenho 16 horas, mas a média do DAS deve estar em torno de 10 ou 12 horas).

  • O que foi seu projeto de mestrado?

    Foi uma continuação do meu PFC, que fiz na Embraco na China. Durante os dois últimos anos da graduação eu tive uma bolsa paga por um projeto da Embraco e trabalhei bastante com a parte de laboratórios, ensaios, instrumentação voltada para a área de refrigeração. Em 2006, a Embraco inaugurou uma nova fábrica na China. Essa inauguração demandou a ida de muitos profissionais brasileiros para fazerem a instalação e o tryout dos equipamentos. Naquela época, a equipe de pesquisa e desenvolvimento da empresa era quase totalmente centralizada no Brasil. Hoje já não é tanto assim, está mais espalhada pelo mundo. Em função da instalação dos novos laboratórios, eles me convidaram pra ir pra China ajudar no comissionamento lá, já que eu estava trabalhando com isso havia dois anos e tinha experiência com esse tipo de painel. Eu gostaria muito de fazer meu PFC fora do País, mas nunca havia pensado na China. No fim, achei ótimo, especialmente porque a China estava começando a despontar como um novo polo mundial e deixando de ser vista apenas como o principal centro de produção do mundo.

  • Foi nessa ida pra China que conheceu sua esposa?

    Foi nesse momento que eu conheci minha esposa sim. Ela estudava português lá, também estava se formando e também estava estagiando na Embraco, com a parte que cuidava da tradução da empresa. Nos conhecemos mais no fim do período que eu fiquei lá. Ela depois de formada veio pro Brasil fazer mestrado em Linguística na UFRGS, fizemos nossos mestrados em paralelo praticamente. Depois que ela terminou, ela voltou pra China, continuei aqui pra fazer o doutorado e depois de um ano ela veio pra cá pra fazer doutorado também, daí veio pra UFSC.

  • Quando e por que escolheu automação?

    Quando fiz minha escolha, meu pai era professor da Eng. Mecânica na UFSC (apesar de ser formado na Elétrica) e minha mãe era Eng. Civil. Hoje ambos estão aposentados, apesar de ainda estarem atuantes em suas áreas. Eu sempre tive contato com a engenharia e sempre gostei muito de área de exatas. Fui pesquisando o que tinha de mercado pra cada curso, aproveitando a liberdade que a rede de contatos dos meus pais me permitia. Olhei todas e me encantei pela automação. Por influência de família, eu já sabia um pouco de programação e tinha noções básicas de automação. Além disso, era perceptível que as indústrias estavam cada vez mais se automatizando. Não nego que cheguei a cogitar Medicina, mas eu mesmo me convenci que com Automação eu poderia trabalhar na área biomédica, se realmente quisesse isso para meu futuro. Assim, com automação eu percebi que teria muita liberdade para definir minha área de atuação no futuro e que não seria complicado de conseguir um emprego que me agradasse.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Depende da época, muitas vezes eu tinha que estudar no fim de semana, pois eu cursava Administração na ESAG e fazia estágio em paralelo com a Automação. Nas primeiras fases foi mais tranquilo porque eu não tinha estágio, as matérias eram todas concentradas de manhã, com exceção de Introdução à Engenharia, e a administração tinha uma turma vespertina. Assim, eu cursava engenharia de manhã, administração à tarde, estudava em casa de noite e com isso conseguia liberar o fim de semana. O final de semana daí eu tentava dividir, porque tinha minha turma do colégio, turma da automação e a turma da administração. Depois, quando eu peguei estágio de bolsa de iniciação científica, as coisas começaram a complicar um pouco mais, porque eu tinha 40 horas para automação e atividades extras, cursava administração a noite e não sobrava mais tempo pra nada. Apesar da correria, isso foi bom, porque eu aprendi a gerenciar muito bem o tempo. Por exemplo, ao fim do dia eu aproveitava para caminhar até a ESAG e ia fazendo exercícios no meio do caminho. No fim, eu conseguia fazer sobrar algum tempo para sair com os amigos no fim de semana e para fazer um happy hour depois das aulas de terça de noite.

  • Automação é uma família, você sentia isso também na administração na ESAG?

    Não. Acho que grande parte dessa união acontece por algo que acabou virando cultura do curso. No início havia pouquíssimos cursos de automação no Brasil (o nosso foi o primeiro), então vinha gente de todo o Brasil para Floripa. O pessoal chegava aqui e o primeiro grupo que encontrava era do próprio curso e acaba virando uma família. Isso virou uma característica muito forte do curso e até hoje, por mais que muitos dos alunos sejam de Florianópolis e região, a união permanece. Por exemplo, até hoje eu tenho bastante contato com meus colegas da época, mesmo todos espalhados pelo mundo. Tivemos alguns encontros em Floripa depois de formados e eu já encontrei amigos da época na Europa e na Ásia.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Na terceira fase eu comecei a minha bolsa de iniciação científica no Labmetro e fiquei um ano e meio. Ao fim desse período, começou um projeto de cooperação com a Embraco, era só um mestrando e um IC (iniciação científica), que no caso era eu. Fiquei meus últimos 2 anos do curso, mais ou menos, nesse projeto. Até hoje eu coordeno algumas equipes desse projeto que começou quando eu era IC. Isso me possibilitou fazer meu PFC na China, meu mestrado foi uma continuação do meu PFC, com adaptações, aprimoramento daquilo e uma abordagem muito mais teórica. Continuei minha relação com a Embraco durante meu doutorado, onde fiz alguns ensaios experimentais e validação dentro do contexto da parceria.

  • Você começou ESAG no mesmo semestre que automação?

    Sim, eu fiz vestibular dos dois, passei na UFSC e não passei na ESAG. Só que naquele ano eles abriram uma turma vespertina e chamaram mais pessoas do que o usual para completar a turma vespertina. Me convidaram pra preencher as vagas e fui. Por mais que o vestibular da UFSC seja mais concorrido, o vestibular da ESAG era vocacionado. O que que aconteceu é que eu fui muito bem com a parte de exatas e geral, mas a parte específica da administração eu nunca tinha estudado ou visto, não me preparei pra aquilo. No fim, passei mais por sorte que por competência.

  • Mesmo unindo a engenharia com a administração, quando você decidiu seguir para área acadêmica como profissão e não cargos gerenciais?

    Antes de responder diretamente a pergunta, quero deixar claro que hoje a administração também me auxilia na área acadêmica. O professor, além da sala de aula, está muito ligado na área de projetos, pesquisa, extensão, orientação, e isso não deixa de ser uma relação de gerenciamento. Na própria parte de expressão me ajudou muito, com uma abordagem diferente de pensar e ver os problemas, e assim acabou abrindo a cabeça para outra forma de lidar com as situações. Então, apesar de hoje eu não estar no mundo gerencial (e a ideia inicial era me preparar para esse mundo que muitas vezes acaba na responsabilidade de um engenheiro), vejo que foi muito importante. Sempre pensei em mestrado, então nunca busquei muito o emprego no final do curso. Percebi que era um grande diferencial, até mesmo para algumas empresas, tanto na carreira como na valorização do salário, então saí da graduação decidido a fazer mestrado. E surgiu, durante o mestrado, a oportunidade de fazer o doutorado. Durante essa transição de mestrado para doutorado que me veio a dúvida de realmente seguir na área acadêmica, que ainda é o principal espaço de um doutor no Brasil, ou optar pela área empresarial. Assim, acabei optando pelo conhecimento e uma certa segurança. Não significa que seja uma garantia, mas abre outras oportunidades que sem o doutorado eu não conseguiria. Se eu quiser, como doutor posso concorrer a uma vaga de engenheiro, mas o contrário não é verdade.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Pergunta difícil, acho que cai naquela questão de "dinheiro traz felicidade?" (risos). O IAA muito ruim, com muitas reprovações, certamente vai te atrapalhar durante a vida acadêmica ou, muitas vezes, depois. Algumas empresas realmente não solicitam histórico e é normal não solicitar, mas eles muitas vezes olham teu tempo de formação. Quem levou 9 anos para fazer um curso de engenharia certamente é visto de forma diferente de alguém que fez em 5, então muitas vezes a empresa vai buscar para conversar e saber o que aconteceu. Quando não é justificável, certamente torna-se um ponto negativo no currículo. Dentro da universidade ajuda muito, como em seleções para bolsa de iniciação científica, bolsas de pós-graduação e escolha dos melhores horários de disciplinas, por exemplo. É algo que abre portas e te coloca no topo da pilha, como uma das primeiras opções para conseguir uma vaga. Por outro lado, só um bom IAA não significa muita coisa. O mais importante é você manter uma dedicação e também ir atrás de outras coisas do seu interesse. As disciplinas são só uma parte da formação universitária, então é importante saber aproveitar bem o tempo de faculdade para aprender e experimentar diferentes áreas.

  • “Professor Flesch ainda tem o maior IAA do curso”, é isso mesmo?

    Segundo o portal de egressos, sim (risos). [Depois de uma pausa para consulta ao portal de egressos] Meu IAA foi de 9,651. Na ESAG, eu também ganhei o certificado de honra ao mérito e também um que eu nem esperava, de maior média nas disciplinas específicas de administração.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    No DAS, como instituição, isso não existia e vejo que ainda é algo que precisa melhorar muito. Sempre existiram iniciativas isoladas de professores, então tive convite de alguns para iniciação científica e outras oportunidade. O professor Augusto sempre foi muito preocupado com essa parte, então foi uma pessoa que me ajudou e ofereceu algumas oportunidades. Não quero ser injusto com outros, visto que vários me ajudaram muito, mas ele era uma referência em relação a isso. Acho que seria interessante a gente pensar em, como departamento, institucionalizar isso, para que assim não fique dependendo de ações isoladas. Ou seja, acho importante que o departamento, como instituição, consiga oferecer esse apoio. Existe sim o fórum da graduação que às vezes divulga algumas vagas, mas ainda é muito da pessoa que faz contato com a universidade e simplesmente publicamos. Seria interessante se tivéssemos melhores formas para divulgar e começar a pensar em como oferecer oportunidades pros alunos que não estão ali na nossa sala de aula ou atuando como nossos bolsistas. No fim das contas, as oportunidades geralmente são oferecidas pelos professores a seus alunos, ex-alunos ou bolsistas. Para a coisa ficar bem clara, quero frisar que os professores sempre foram muito preocupados com isso, mas o DAS, como departamento, também deveria atuar nesse sentido.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Participei, mas não ativamente. Aconteceu que eu fiz meu PFC na nona fase, quando eu deveria ter organizado a festa. Então eu acabei ajudando um pouco, mas foi bem remoto. Foi o 8º ou 9º linguição, uma festa ainda bem universitária, com um público bem menor que o atual. De todo modo, isso não alivia minha parcela de culpa. Para compensar um pouco isso, tento ir nas festas que tem hoje (risos). Naquela época existiam outras festas maiores. A própria Choppada da ESAG era enorme, e organizada pelo centro acadêmico e os alunos em geral. Participei de algumas edições e a organização desse tipo de evento é uma experiência muito positiva. Hoje brinco com os alunos que a organização do Linguição é o momento em que eles aprendem a fazer trabalhos em equipe de verdade.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso?

    Concordo em parte. Isso foi uma discussão que aconteceu entre os professores quando teve a reforma curricular. Foi o momento no qual a gente avaliou o que seria melhor: manter a formação ampla ou abreviar isso e dar espaço para escolhas. Minha opinião pessoal, e que acabou sendo também a da maioria, é que deveríamos tentar manter a base geral, mas dar a oportunidade para as pessoas direcionarem um pouco mais para sua área de interesse. Hoje eu observo que quando o aluno faz a disciplina simplesmente porque é obrigado e por fazer, ele absorve muito pouco. Quando é uma disciplina que ele tem interesse, o proveito é muito maior. É importante sim manter a visão generalista. Sempre foi assim e hoje também continua dessa forma. O engenheiro de controle e automação sai preparado para ter contato em muitas áreas. Como universidade, nosso foco não é preparar um profissional para ele sair pronto pro mercado, nunca vamos conseguir. Se eu soubesse que todos seriam contratados pela empresa X, prepararia todos para X, mas não é assim e nem tem lógica em algo assim. Precisamos da visão geral e muito mais que isso: dar condições de o aluno conseguir se virar e aprender por conta; a partir da base e conceitos fundamentais, assimilar de forma muito fácil o que passarem para ele no futuro e desenvolver, então, essa habilidade de aprender. Sei que a Automação hoje ainda é generalista, especialmente na parte inicial do curso. O bom é que além da formação geral, as disciplinas específicas permitem que o aluno se aprofunde mais em pontos de seu interesse. Essa afinidade é muito importante para um bom aproveitamento dos conteúdos passados e para manter a motivação dos alunos.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando?

    Talvez de não ter me dedicado mais em algumas matérias que eu realmente tinha afinidade. Eu tinha prazer em cursar algumas disciplinas e outras nem tanto, é natural. Naquela época, eu tentava me dedicar mais ou menos de forma igual para ir bem em todas, mas acho que se fosse hoje eu tentaria investir mais tempo naquilo que me faz sentir melhor, que eu gosto mais, para aprofundar o conhecimento naquela área. Já aquelas que não me interessavam tanto, apenas estudaria o suficiente para adquirir o conhecimento mínimo. Muitas coisas eu tive que decorar e esse tipo de conhecimento é muito volátil. Você decora para uma prova e esquece no dia seguinte. Nas disciplinas que você gosta, a coisa é bem diferente e o conhecimento fica.

  • Há algo que você mais se orgulha?

    Eu me orgulho bastante dos amigos que fiz, da rede de amizades que até hoje a gente tem, apesar de minha turma estar muito espalhada pelo mundo. Além disso, me orgulho muito da formação que o curso conseguiu me dar. Até hoje vejo que vou para qualquer universidade do mundo e que consigo discutir em pé de igualdade com pessoas das mais renomadas instituições: MIT, Oxford, Stanford... Em vários aspectos, eu diria que a nossa graduação é melhor que a graduação deles. Por outro lado, lá a pós-graduação e as atividades de pesquisa têm uma estrutura muito melhor. Eles têm muito mais recursos, então é muito mais fácil se fazer desenvolvimento tecnológico e fazer o conhecimento avançar muito rápido. Apesar disso, nosso engenheiro discute em pé de igualdade com os das melhores universidades do mundo. Esse conhecimento que foi adquirido é algo que não se tira de ninguém, então tenho muito orgulho de ter passado pela automação e ter recebido uma formação de alto padrão internacional.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    A bolsa de mestrado nunca atende a expectativa salarial de ninguém, mas pra quem ganhava na época 200 e poucos reais com bolsa de iniciação científica e passou a receber mais de mil no mestrado, pode-se dizer que o padrão de vida melhorou (risos). Como eu morava com meus pais, eu sempre tive um suporte muito bom deles, então era o suficiente para mim. No meio da faculdade eu ganhei um carro dos meus pais, pois isso me ajudou muito a cursar as disciplinas da Administração de noite, mas com minha bolsa eu pagava gasolina, minhas refeições, tentava ter de certa forma iniciar uma independência financeira. Digo iniciar, porque eu morava na casa do meus pais e não gastava nada quando estava com eles. Enfim, eu tava estudando, então eu estava me formando, estava mirando mais alto. Eu posso responder se a expectativa salarial depois de sair do doutorado atendeu ou não. Daí eu posso comparar com outros colegas meus que foram para fora e o meu salário é muito menor. Salário de professor não vai deixar ninguém rico, mas a profissão tem suas vantagens. Não posso olhar apenas do ponto de vista salarial. Se eu pensar do ponto de vista salarial, não é a melhor profissão, certamente, só que estando aqui dentro você tem sempre o espírito jovem por perto, você tem uma certa liberdade em fazer pesquisa no que gosta, ministrar as disciplinas que gosta... Do ponto de vista de realização profissional, ver as pessoas sendo formadas, saber que participou da formação de determinadas pessoas, pessoas que vão fazer uma diferença, vão conseguir alavancar a indústria, a economia, conseguir fazer a economia do Brasil sair do buraco, ver que essas pessoas estão sendo reconhecidas em empresas importantes, que essas pessoas estão com ideias boas e vão criar determinados negócios… Isso é muito gratificante. Não dá para comparar só pelo salário, tem que olhar a qualidade do trabalho. Não adianta eu ganhar uma fortuna e fazer uma coisa que eu não goste. Então, pensando no ponto de vista de qualidade do emprego, já que minha qualidade de vida é afetada pelo emprego (e a gente trabalha muito!), acho que foi uma boa escolha. Minha rotina tem aula, tem orientações, tem projeto, tem comissão, tem atividade administrativa, tem reunião, tem elaboração de artigos, revisões e avaliações de projetos de agências de fomento… Além disso, se for ver o tempo de aula, não é só aula, é correção das atividades, preparação das provas, preparação das atividades... É uma coisa que toma bastante tempo. Eu tranquilamente gasto mais de 40 h semanais com atividade de trabalho, mas não é uma coisa que tira minha qualidade de vida, porque eu gosto do que estou fazendo. É importante conseguir balancear seu salário com sua qualidade de vida e, pra mim, a carreira acadêmica possibilitou isso. Eu tenho liberdade para pesquisar e fazer o que eu gosto e um salário que não é o melhor salário, mas pelo menos permite que eu mantenha minha família com um padrão de vida bom. Além disso, cada convite para ser homenageado em uma formatura vale mais que muito dinheiro.

  • Como você se vê daqui a alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Me vejo na UFSC por muito tempo. É uma coisa que eu gosto de fazer, é um ambiente que me agrada e não pretendo mudar. Provavelmente me afastarei pelo menos mais uma vez para fazer outro pós-doutorado, afinal é muito bom em todos os aspectos passar um tempo fora. Você volta com novas ideias, novas experiências e consegue aproveitar o tempo lá fora para focar em atividades que a rotina não permitem. Por mais que a gente estude, leia, é muito diferente estar numa rotina diferente, num ambiente com pesquisas diferentes. É importante arejar um pouco e trazer parte dessa experiência para a Automação. Além disso, o período que passei na China durante o pós-doutorado permitiu que meu filho aprendesse a falar o mandarim fluentemente, obviamente com o vocabulário limitado ao de uma criança de 3 anos, mas sem sotaque e com as estruturas gramaticais nativas. Fui para lá com um conhecimento prévio de mandarim e tive um desenvolvimento linear do idioma. Ele partiu do zero, mas teve um crescimento exponencial e já fala muito melhor que eu. Agora o complicado é fazer com que ele não esqueça, pois a curva de esquecimento também é exponencial nessa idade. O pós-doutorado foi uma experiência fantástica tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal e pretendo que ela ocorra novamente. Tirando isso e curtos períodos de afastamento, vejo meu futuro na UFSC. Sei que estou bem novo, mas tem muita gente com a minha idade já contando o tempo para se aposentar. No momento, não me preocupo com isso, mas com dar boas aulas, realizar boas pesquisas e melhorar ainda mais a qualidade do nosso curso. Eu até tive um convite para ficar na China, é um lugar que gosto, mas sinto que aqui na UFSC é o meu lugar e não vou analisar só o lado salarial para pegar e sair daqui. Além disso, ficando aqui eu posso contribuir para o desenvolvimento do Brasil e formação de profissionais que podem mudar a realidade nacional.

  • Teria alguma dica para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Se a pessoa quer, já tem a ideia de seguir como professor, é importante fazer um mestrado imediatamente depois de terminar a graduação. Com as disciplinas optativas do currículo, uma ótima opção é começar a cursar disciplinas do mestrado ainda na graduação e validá-las como optativas. Com isso, você consegue terminar o mestrado em um tempo bem curto. Se a pessoa se forma e vai para o mercado, muitas vezes é complicado de voltar. Você passa a ter outros compromissos, família e a bolsa de mestrado deixa de ser suficiente para pagar o que você precisa pagar, por mais que consiga diminuir seu padrão de vida. Então, se a pessoa realmente tem vontade de ser professor, acho que o mestrado logo é uma coisa boa. Aí vão dizer “mas o professor vai vir sem experiência de mercado.”. Tudo bem, isso pode ser prejudicial, mas isso se consegue de certa forma intercalando projetos, fazendo um mestrado com uma parceria com alguma empresa, então você tem pelo menos uma vivência. Concordo que é bem diferente de estar numa empresa, mas pelo menos você tem um ritmo um pouco diferente do que o mestrado convencional tem e tem alguns dos compromissos de estar em uma empresa. E é importante fazer logo, porque já está no ritmo e geralmente não tem tanta necessidade de ter um salário maior. Além disso, depois que você termina o mestrado, isso abre portas para você começar a carreira docente. Eu, felizmente, tive condições de fazer o doutorado logo depois do mestrado, mas depois de terminar o mestrado fica muito mais fácil de conseguir uma posição em uma universidade particular, um instituto federal de educação ou uma faculdade como SENAI ou SENAC. Hoje tenho alguns ex-orientados de mestrado e vários conhecidos que estão trabalhando na docência sem o doutorado. Em uma universidade federal é praticamente impossível entrar sem doutorado, mas em outras universidade e institutos isso é viável. Assim, terminando o mestrado a pessoa já tem a possibilidade de começar a atuar e depois pode voltar para o doutorado já empregado. Como em quase todas as coisas da vida, o importante é não desanimar e ter foco. Eu passei no vestibular com 16 anos e entrei com 17. Depois de 10 anos, ou seja 5 (graduação) + 2 (mestrado) + 3 (doutorado), com menos de 30 anos de idade, eu já era professor da UFSC. Além disso, depois que você entra, é importante nunca parar de estudar e de aprender.

Mensagem Final aos estudantes

Sempre busquem encarar as atividades educacionais e profissionais de vocês com prazer. Pouquíssimas pessoas conseguem fazer apenas o que gostam, mas se vocês gostarem do que fazem não sentirão o trabalho como um fardo, mas como uma diversão. Isso traz mais qualidade de vida e faz com que sejam mais motivados e produtivos. Tem coisas que se deve fazer por obrigação? Claro, mas tentem dedicar mais tempo naquilo que lhes dá prazer e menos tempo naquilo que não é tão bom assim. Sempre tentem olhar o lado bom das coisas e não ficar procurando problema onde não existe. Uma visão positiva em relação a uma disciplina ou a um trabalho muitas vezes ajuda muito mais que muito esforço feito contra sua vontade. Além disso, não pensem que a universidade irá formá-los completamente. Muito desse processo é responsabilidade de vocês, então aproveitem todas as oportunidades para se desenvolverem. No meu caso específico, os estágios me ajudaram muito a ver o motivo de existência de determinados conteúdos do curso. Eles me deram um novo contexto para aquilo que era ensinado e serviram como um elemento motivacional enorme para que eu pudesse entender a utilidade daquilo e que ficasse altamente motivado para estudar.