Entrevista

20/09/2017


Como conciliar vida profissional e família num emprego onde viajar constantemente é necessário? A trajetória de Raphael Coelho, que começou no ramo petrolífero e hoje coordena uma plataforma de aulas particulares no mundo todo.

  • Conte um pouco mais sobre a TutorMundi.

    A TutorMundi basicamente funciona como o WhatsApp da educação. Quando os alunos estão em dúvida com alguma matéria, eles simplesmente tiram uma foto do problema, a gente notifica alguns tutores, e o primeiro tutor que pega aquela dúvida responde através de chat e imagens. Os estudantes são alunos do ensino médio, e os tutores são os alunos das melhores universidades. Temos universitários de Stanford, MIT, Harvard, Yale, que colocamos ali para ensinar. Estou no Brasil este mês justamente porque um dos nossos investidores pediu pra explorar o mercado brasileiro. Exploramos e foi incrível a recepção do mercado pro nosso produto, e a gente tem mais tutores aqui do que lá nos EUA. Hoje temos quase 5 mil alunos cadastrados e rapidamente conseguimos mais de 2 mil tutores, sendo mais de 400 pessoas da USP, mais de 100 do ITA, IME, e logicamente mais de 300 da UFSC, inclusive tem muita gente da automação. Tentamos ir atrás de parcerias com as universidades, mas a burocracia é muito mais lenta do que se imagina, então nós pagamos os tutores. Basicamente a pessoa faz seu curso normal, e quando está no ônibus, no banheiro, por exemplo, ele pode usar o TutorMundi pra fazer uma renda extra.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Na verdade entrei na engenharia civil, estava fazendo eng civil e ai comecei a ouvir dentro da UFSC que os caras da automação eram os caras mais top que existiam na universidade inteira, na minha época ainda era a maior nota de corte do vestibular, disputando com medicina. Eu estava na 4a fase de Eng. Civil e fui assistir umas aulas de automação (Sinais e Circuitos Elétricos), percebi que eu não entendia nada! Eu tinha tirado o 1o lugar na prova de matemática da UFSC e me perguntava: "Como pode eu ter ficado nessa posição e não entender nada dessa matéria? O que esses caras estão fazendo aqui nesse curso?". Isso me respondeu a dúvida do porque o nível era muito elevado, não só o nível dos professores mas dos alunos também, e aí quis fazer parte daquele grupo. Eu queria tentar a transferência interna mas o professor Augusto Bruciapaglia na época alertou que era impossível praticamente, pois tinha tanto aluno repetente que não sobravam vagas (risos). Mas o desejo era tanto e eu tinha gostado muito das matérias de automação, do pessoal, então me deu a raça pra sair da universidade e fazer de novo cursinho e vestibular. Com muito esforço passei no vestibular para automação. Se pegar minha matrícula da automação eu sou 05.2, porém eu consegui validar alguns cálculos e matérias que havia feito na civil, por isso me formei em 08.2, ou seja, em menos tempo de curso. Infelizmente acabaram me liberando da matéria de Introdução à Eng. de Controle e Automação, eu fiz de tudo pra deixarem eu mexer com os legos (risos).

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Eu participei do PET da elétrica.

  • Você chegou a fazer algum estágio antes de se formar ou alguma outra experiência?

    Eu fiz o estágio na Dígitro. A vida na universidade foi muito louca, eu até peço desculpas se alguém que esteja lendo trabalhou no PET comigo, porque o pessoal sabe que eu era muito ausente. Resumindo, eu era um cara casado, que tinha que pagar minhas contas, todas. Então eu fazia automação, estágio de 20 horas no Dígitro, dava aulas de matemática e fazia 20 horas no PET. Não precisa ser um gênio pra perceber que eu fui mal em todas (risos). Eu diria que eu só consegui me graduar, e sem nunca reprovar uma matéria, graças ao apoio dos amigos. Eu tenho medo de citar os amigos, mas eu tenho que reconhecer a ajuda do Marcelo Ueda, o crânio da nossa turma, o Lucas Casagrande Neves, o Diego Vieria e o Fernando. Esses quatro caras foram aqueles que me abraçaram durante o curso e toda vez que eu tinha dúvida em alguma matéria ou eu estava na casa desses caras literalmente madrugando, ou esses caras estavam na minha casa me ensinando. E graças a eles que eu conseguia aprender a matéria, porque muitas vezes na sala de aula eu estava exausto.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Sinais, sinais 2, realimentados.. Na época eu tive uma sorte tremenda, porque que fiz só a última prova com o Julio, então eu já tinha garantido a minha nota nas primeiras. O Julio foi pra pós doc e eu peguei a turma que ele voltou. Eram três provas, então a gente sabia que tinha que garantir a nota nas duas primeiras (risos).

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    O estágio quem conseguiu para mim foi o professor Marcelo Stemmer. E conseguiu para vários que foram para Alemanha, sempre através dele.

  • O que te ajudou, além da graduação, no mercado de trabalho?

    Uma das coisas que mais me ajudou no mercado de trabalho foi o PET da elétrica. Participar desses grupos, acredite ou não, ajuda de mais. Você percebe que o engenheiro de automação ele aprende tanta coisa que ele tem essa capacidade de aprendizagem e multidisciplinar. Não tem uma matéria específica que tenha me ajudado profissionalmente, mas o curso como um todo. Foi de tal maneira que aprender a engenharia petroleira foi muito fácil pra mim. A Schlumberger (empresa que eu trabalhei), e outras empresas sabem disso e por isso que elas vem atrás do pessoal da automação. Eu diria hoje que o curso da automação é o mais top de engenharia da universidade federal e um dos melhores que existem no Brasil, pelo menos da minha época e eu ouço que ainda é. E um dos grandes motivos é justamente porque ele rasga o teu cérebro, ele cria em você uma cultura autodidata e multidisciplinar. Acho que essas duas palavras são as palavras chaves, porque você é uma pessoa autodidata e multidisciplinar e com isso você consegue ir pra qualquer área de tecnologia que você sonhar.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Não participei do Linguição. Na formatura participei só como uma voz de incentivo: "Se precisarem de algum apoio, tô aqui". Tenha certeza que você vai se arrepender se fizer como eu fiz.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Acredito que uma grande vantagem do curso de automação seja que te torna uma pessoa autodidata e multidisciplinar. Isso me deu a qualificação para não só ir para a indústria petroleira como também fazer o MBA nos EUA e na França e me tornar, hoje, um empreendedor. Essa mesma habilidade pode dar acesso aos graduandos de hoje para desenvolver essas características. Hoje vocês tem uma coisa que não tínhamos, que é acesso a cursos gratuitos online. O mercado valoriza quando você apresenta sua formação na universidade e em paralelo os cursos que você fez por sua iniciativa, talvez isso seja mais valorizado até que o seu IAA.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando?

    Eu me arrependo de não ter curtido mais os amigos. Pelo fato de eu ter decidido me casar, morar num apartamento meu e levar minha vida, isso acabou custando um pouco o tempo com os amigos. Quando eu olho para trás, o que eu mais levei na faculdade, depois do conhecimento, são os amigos. Eles são os caras que te recomendam pra um emprego, que vão fazer a conexão com um investidor. Os laços mais fortes de confiança você constrói ali. Para vocês terem uma idéia, o meu sócio no TutorMundi é o Alexandre Tondello que fez Automação comigo. Durante todo o curso nós nunca fizemos nenhum trabalho juntos. Hoje, temos uma relação de confiança e amizade que me traz muita felicidade e que só cresce a cada dia que passa. Me pergunto quantas relações dessas eu perdi por focar demais em notas, estudo e trabalho. Então, eu tentaria passar mais tempo com os amigos. Nunca mais almoçaria ou estudaria sozinho.

  • Qual foi sua trajetória após sair da faculdade? Por que você foi para área de petróleo?

    Foi a melhor oportunidade que me deram. Quando eu fui pra Alemanha, participei de um processo seletivo da Mercedes. O meu sonho era entrar em uma indústria automobilística, eu apliquei para toda e qualquer empresa que vocês possam imaginar. Eu apliquei para muitos processos seletivos e participei de muitos deles. Honestamente falando, na época eu não sabia muito o que eu queria. Eu simplesmente tinha uma coisa em mente: queria trabalhar em uma multinacional. Esse era meu sonho, eu queria ter a experiência de trabalhar em uma firma grande e que me ensinasse mais. E também que me colocasse para viajar, eu gostava de viajar. Ai eu acabei recebendo uma proposta da Mercedes na Alemanha, na McKinsey eu estava na última etapa e recebi uma proposta da Chemtech em BH, que faz sistemas para diversas indústrias, inclusive para o setor petroleiro. E também recebi a proposta para Schlumberger. Então veja que eu estava bem indeciso entre as áreas diferentes que eu tinha a proposta. Pra ser bem franco, eu fui para aquela que me pagava mais.

    Eu tinha acabado de chegar da Alemanha também, onde fiz o meu PFC no instituto Fraunhofer pra criar programas de medição de maneira otimizada e automática, onde criamos um algoritmo de inteligência artificial baseado no comportamento das formigas, chamado Ant Optimization, que mede o caminho mais rápido a partir de dados pontos. Então vinham peças automotivas já desenhadas no AutoCad, ou em sistemas CAD/CAM, e o meu trabalho era fazer uma funcionalidade de um software de medição já existente, que era definir as trajetórias ótimas e traduzi-las para máquinas de medição. Eu gostei muito, foi um trabalho muito empolgante, extremamente técnico, de alto nível de programação. Porém, assim que eu voltei e me formei, eu fui contratado para trabalhar na Schlumberger.

    Eu diria que a Schlumberger mudou totalmente a minha vida. Eles me levaram para todos os lugares. Trabalhei no Brasil num curto período de tempo, na Colômbia, México, França, Kuwait e por fim nos EUA. Depois de trabalhar em todos esses lugares, você ganha uma visão de vida diferente. Embora eu ainda seja também apaixonado pela indústria petroleira, as vezes sinto falta de trabalhar nesse ramo, escutar barulho de motores gigantes, programar toda a perfuração de poços... pois lá eu virei Engenheiro de Poço, sendo um trabalho muito interessante, onde coordenamos um serviço com outros 13 engenheiros e decidimos como e onde perfurar... então assim, sair de tudo isso e ir pra área de negócios causa um pouco de frustração. Por outro lado, trabalhar em todos esses países me deu a visão de que a vida é curta, de que há muita coisa a ser feita no mundo, e que você deve ir pra alguma coisa que te dê a paixão verdadeira, e é por isso que eu estou pegando esse desafio de trabalhar na educação.

    Eu escuto algumas pessoas em geral falando que gostariam de ter um trabalho estável. O que eu penso é que as pessoas trabalham pra se aposentar. Eu já acho que o meu trabalho deve ser algo que eu goste de fazer e faça até o fim da minha vida, quando eu tiver 80, 90 anos de idade eu quero estar fazendo aquilo. Então definitivamente não foi por motivos de estabilidade que escolhi seguir nesse ramo. E acreditem, eu trabalho mais hoje do que eu trabalhava na Schlumberger... vocês conhecem a fama dessas empresas em relação tempo de trabalho. Isso que lá eu dormia com o celular ligado do lado, no México por exemplo, acordava as 4 horas da manhã pra ir trabalhar em um local a 2 horas de onde eu ficava. Hoje eu não trabalho as 4 horas da manhã, mas acabo ficando conectado com a startup todos os dias, não importando se é feriado ou fim de semana. Concluindo, não foi por estabilidade que escolhi estar aqui, foi por um sonho, a paixão de trabalhar em algo que eu queira fazer até quando ficar bem velhinho.

  • Essa ideia de estar em movimento exige algumas escolhas familiares também. Naquela época você já era casado?

    Eu casei enquanto tava na automação, inclusive fiz circuitos e realimentados quando já era casado. Ela era da Udesc, da ESAG, e não foi nem na Choppada da ESAG nem no Linguição que a gente se conheceu (risos). Meu primeiro filho nasceu duas semanas depois que me formei, depois de 2 anos nasceu o segundo filho e depois de mais um ano nasceu a terceira filha, então dois meninos e uma menina. Isso basicamente é resultado de um planejamento familiar antecipado (risos), não recomendo necessariamente, porém também ia muito da minha esposa que sempre falou que queria dar pais aos filhos e não avós. Acredite ou não, isso trouxe mais estabilidade para minha vida do que loucura. Como eu já era casado e já tinha filhos, eu tive que focar muito cedo. Até mesmo no trabalho ralei muito desde o início, porque tinha a preocupação de sustentar uma família. Eu encontrei uma parceira que é muito guerreira e apoia, e eu acho que isso é muito importante. Para cada país que eu passei, exceto o Kuwait que foi muito rápido, todos os outros a galera toda foi junto, esposa e filhos.

  • Como está o mercado no futuro, para quem tá saindo da faculdade agora?

    Na verdade o mercado e as universidades acordaram para necessidade de engenheiros de automação. Então hoje existem mais cursos de engenheiro de automação do que antigamente. Eu acredito que é simplesmente uma questão de oferta e demanda. Ao termos mais engenheiros disponíveis no mercado, o salário desses caras vai abaixar um pouco. Eu acredito que uma solução pro engenheiro é escolher o mais rápido possível a área de especialidade dele e a área que ele gosta. Assim ele consegue mostrar que ele tem uma especialidade, exigir um salário maior e poder oferecer algo a mais para o seu empregador.

  • Você acha que a área de petróleo tem esse potencial de oferecer empregos?

    A área de petróleo sofreu uma verdadeira rasteira. Depois de trabalhar na indústria petroleira e morar em muitos países, eu comecei a refletir um pouco sobre o que eu queria e decidi virar empresário. Eu percebi que eu era um cara muito técnico, então eu precisava aprender a parte administrativa. Por isso decidi fazer um MBA, através de um joining adding program. Eu comecei a receber emails dos meus colegas da indústria petroleira contando que haviam sido demitidos e pedindo dicas de como era o MBA, como fazia para entrar. Já fazem dois anos e meio que eu saí e até hoje recebo emails. Ao todo a Schlumberger demitiu 40.000 funcionários, porque o barril do petróleo simplesmente caiu pela metade. Projetos inteiros foram fechados, inclusive um que eu trabalhava no México foi totalmente fechado e todas as pessoas foram demitidas. Não era questão de quem era bom ou ruim, simplesmente fecharam o projeto e mandaram todos para casa. É difícil você decidir a sua vida através de uma indústria, pois todas passam pelos seus altos e baixos. É ai que eu acredito que entra a paixão. Isso que você está escolhendo, você quer trabalhar até os 90 anos de idade? Então vai fundo. Não só você vai fazer aquilo com gosto, como você vai ser um profissional bem valorizado. Vai aprender, se destacar e vai ser melhor valorizado.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Eu quero que a TutorMundi seja a maior empresa de tutoria do mundo, por isso que fui para o Silicon Valley, eles têm dinheiro e o conhecimento. No Brasil, talvez por conhecer como funciona a educação tivemos uma maior facilidade. O meu primeiro sonho é que a TutorMundi seja a maior plataforma de micro tutoria do Brasil e acredito que estamos no caminho. A gente tem mais de 2000 tutores e você não encontra outra plataforma assim. Mais de 90% das nossas dúvidas são respondidas em menos de cinco minutos. Não que o tutor responda em 5 minutos mas esse é o tempo máximo que um aluno fica esperando.

  • É um ambiente de grande risco. Como você vê que está acertando no negócio?

    Eu diria que tem dois lados, o emocional e o financeiro. Eu estudei grande parte da minha vida no instituto nacional de educação, que atualmente tem um nível educacional inferior aos particulares. Eu também morava numa região relativamente pobre. Meus amigos trabalhavam como cobrador de ônibus, lavador de carro e outro acabou preso por se envolver em uma briga e eu acreditava que minha vida iria por esse caminho. No IEE eu conheci um amigo chamado Carlos que hoje é procurador de justiça e que me incentivava muito e isso me motivou que conseguiria e então consegui convencer meu pai a pagar um cursinho. Hoje eu vejo que o Carlos fez uma enorme diferença na minha vida. Hoje eu acredito que a TutorMundi tem um pouco de Carlos na vida das pessoas, esse é o lado emocional. O lado financeiro eu vejo que se a TutorMundi der certo, eu vou ter no final da minha vida mais dinheiro do que continuando no meu emprego anterior mas para isso eu estou pagando um preço de muito trabalho e muito estresse. Quando eu estou cansado e vejo que o dinheiro talvez não valha a pena, eu me motivo com a parte emocional. É um jogo de Ying e Yang entre o financeiro e o emocional.

  • Você acha que o curso incentiva o empreendedorismo ou foca mais para trabalhar na área industrial?

    O único incentivo que recebi para ser empreendedor foi do professor de solda. Na época dei risada, pensava pra que vou meter a cara em abrir uma empresa se tem tanta grande empresa na região. A resposta é que o curso não te incentiva, mas não acho que isso é errado. O curso te forma em engenharia de controle e automação em altíssimo nível. Uma vez formado, você tem o conhecimento para o empreendedorismo e as habilidades multidisciplinares para isso, se você quiser virar empreendedor, você vai conseguir. A prova disso são os grandes empreendedores de sucesso que saíram do curso.

  • Muito dos formandos não se identificam muito com a parte técnica do curso, o que você recomenda para esse pessoal?

    Eu acho isso bem perigoso, a parte administrativa ao meu ver, é tão complexa quanto a parte de engenharia e nós não estudamos administração, estudamos engenharia. A administração em empresas técnicas é muito mais respeitadas se o background do gestor é técnico. Eu acho bem perigoso o engenheiro que está se formando e indo para a parte administrativa imediatamente. O que eu vejo como um caminho altamente respeitado nas indústrias é o profissional que se prova como engenheiro, que faz acontecer e a medida que ele cresce ele passa a ensinar outras pessoas e acaba na parte de capacitação puramente. Esse seria não só um caminho mais seguro mas também com um retorno financeiro melhor. O formado em administração estudou 5 anos isso, ele será um administrador melhor que você, já na parte técnica você estará muito à frente dele.

  • Parece que a tecnologia está muito ultrapassada. Qual seria o caminho, como o curso deveria ser dado?

    Essa é uma pergunta bem difícil. Cada vez mais falam sobre individualização do ensino e a autonomia de escolha. As universidades americanas já fazem isso: deixam escolher as matérias, ter um major e um minor. E, por causa disso, você encontra algumas profissões que, ao nosso ver, são malucas. Por exemplo, engenheiro de psicologia. Eles inventam esse nome para quem fez major em psicologia e o minor em engenharia. Então, essa pessoa fala que quer trabalhar nos recursos humanos para empresas de engenharia. Eu consigo ver a necessidade das especializações aumentarem em número nas empresas. Porém, uma coisa que não se fala aqui no Brasil e que se vê nos Estados Unidos como algo negativo, é que isso tem um altíssimo custo de estudo. O fato de você fornecer essa chance para um estudante de 18 anos de idade não garante que ele vai fazer as escolhas certas. E, ao longo desse período, essas escolhas erradas tem um custo, não só financeiro-pessoal, mas o custo de oportunidade. O qual impede o acesso de outros alunos que iriam entrar naquela matéria. Então, eu não vejo que nós conseguimos fazer isso sem cobrar do aluno. O aluno tem que ter essa responsabilidade de custear por suas decisões. Só que, a partir do momento que você cobra do aluno, não é mais Universidade Federal, tem que haver uma mudança revolucionária. Então, eu não vejo como você pode fornecer essa flexibilidade e autonomia para o aluno de maneira gratuita. Quando você vai ver os números, as universidades brasileiras formam mais rapidamente por termos um sistema de produção de formação de profissionais. Nós formamos mais rápido, mas não digo que formamos melhor. Acredito que não formamos melhor por proibição e dificuldade de formar parcerias com as empresas. Na época que eu estava aqui, lembro que a WEG abriu um pequeno laboratório dentro do CTC. Assim que colocaram a plaquinha WEG teve tanto ruído no CTC que a plaquinha não durou um mês, tiveram que tirar dali. Então, esse é um desafio que precisamos vencer. Lá, nas universidades de fora, os cursos são praticamente criados para satisfazer necessidades diretas da indústria. E, estas estão dentro das universidades o tempo todo. Criando projetos, criando necessidades e pagando pelas necessidades. Eu cito novamente o Fraunhofer, instituto que eu fiz o PFC, que tava lotado de brasileiros quando cheguei lá. Principalmente da UFSC. E, eu me perguntei "Por que esses projetos estão acontecendo aqui e não lá no Brasil?". Então eu descobri que parte disso vem dessa interação entre universidades e empresas. Nós mesmos vemos as empresas com maus olhos, enquanto somos estudantes. E não é assim, lá fora a visão é "Aqui estão as empresas que nos ensinarão e nos ajudarão a atingir nossos objetivos e criar coisas novas". Então acho que se a atitude dos alunos mudar talvez facilite essa conexão. Pois, a fundação CERTI existe e poderia ser tão grande como Fraunhofer.

  • Você acha que, na UFSC, não tem foco nem em meio acadêmico, nem em meio empresarial?

    Gostaria de enfatizar mais uma vez, a qualidade do curso de Engenharia de Controle e Automação. Não é só a qualidade do curso, e sim a qualidade das pessoas que são selecionadas. Por exemplo, quando eu fazia Engenharia Civil, meus colegas estavam estudando inglês. Já, o pessoal da automação estava estudando francês, italiano, espanhol. Porque, inglês todo mundo sabia. Então, o nível dos estudantes de automação junto à qualidade do curso, permite que você faça o que você quiser. Se quiser seguir área acadêmica, você vai conseguir fazer. Independente da estrutura das Universidades Brasileiras como um todo. Independente de qualquer visão de como está a educação no Brasil. Vocês estão num curso ótimo que bate de frente com cursos de ponta nos Estados Unidos. E, se falar que é mentira por não estar ganhando o mesmo como lá, é porque isso já é uma questão de mercado. Lá é dólar, aqui é real. Tem a questão de oferta e demanda. Mas, em termos de conhecimentos técnicos, saibam que vocês saem daqui tão preparados quanto os engenheiros de lá.

  • Como você acha que deve ser a estrutura de uma sala de aula para Engenharia?

    Tem muitas matérias diferentes e muitas tecnologias diferentes. Existem assuntos que demandam um professor no modo tradicional, usando giz e oratória. Enquanto há outras matérias que não precisam de nada além de software, como matérias de desenho técnico em CAD. Lá, nos Estados Unidos, eu vi tanta startup de educação e todas envolvidas com tecnologia, que vocês não acreditariam. Porém, voltamos ao desafio da faculdade poder comprar isso. Pra tudo na vida tem um preço. O engenheiro que está se formando nos EUA paga 20 mil dólares por ano. Ou seja, ele se forma na faculdade com uma dívida de 100 mil dólares nas costas. Já nós não temos isso. Será que estamos dispostos a abrir mão dessa vantagem para aprender com mais tecnologia em sala de aula ou conseguimos aprender sem tudo isso? Sem contar que, toda essa tecnologia causa um certo ruído, tira o foco do aluno.

  • Você acha que além do ensino oferecido pelos professores, os alunos deveriam correr mais atrás para buscar conhecimento?

    Eu diria pra você encarar o curso de automação como um curso que vai rasgar seu cérebro e te tornar uma pessoa multi disciplinar. O que eu diria também é que é muito fácil ser pedra, o difícil é ser vidro, tem esse ditado né? Ou alguma coisa desse tipo... (risos). Eu dei aula muitos anos e quando você da aula você tá preocupado só com uma coisa: fazer o cara entender aquilo. Honestamente você não está preocupado em deixar o cara acordado. É tanto conteúdo que você tem que estudar, resolver exercício pra ter mais confiança de conseguir passar a informação pro aluno ou de responder qualquer dúvida que eu não tinha tempo de ficar preparando opções pra aula ficar divertida ou interessante ou mais curiosa. Então o que eu diria pra aqueles alunos que estão se sentindo incomodados é: pra que melhor pessoa pra ir atrás de ferramentas do que você mesmo? Você é um cara novo, tem tempo, tá interessado em melhorar aquilo, porque não você ir atrás e trazer as ferramentas pro professor. Eu tenho certeza que ele vai adorar isso. Eu lembro do professor Augusto que ele tinha um "estojo" com alguns motorzinhos instalados que ele ensinava algumas coisas de controle e ele deve ter isso até hoje. E eu lembro que um de nossos colegas achou um software gratuito que mostrava outras partes, outras funções de controle, você conseguia colocar várias equações lá dentro e o professor implementou aquilo! Então o curso foi modificado pelo próprio aluno, isso que eu diria, não exija do professor. Ele está com esposa, com filhos, preocupado em pesquisa, extensão, corrigir provas e além disso tá preocupado em estudar pra ter certeza que ele vai responder qualquer dúvida que os alunos tiverem. Quer tornar a aula mais dinâmica, mais interessante, divertida? Busque as ferramentas e traga pra nosso curso. Já fica até uma ideia aqui de chegar pra todos os professores e falar que vai gravar as aulas e colocar no YouTube. Aí sim vocês vão ver o curso de automação ficar super disputado no Brasil inteiro, eles vão ver o nível que nós temos.

  • Você acha que inglês nos dias de hoje é obrigatório?

    Obrigatório. Os recursos financeiros para pesquisa se encontram em maior quantidade nos EUA, Inglaterra e artigos internacionais são publicados em inglês. Não é que o nosso professor saiba menos do que aquele professor que está lá, mas eles têm mais recursos, tanto para fazer a pesquisa quanto para publicar o livro. Moral da história: os melhores livros, melhores artigos (mesmo sendo desenvolvidos no Brasil) estão em inglês. Então inglês é não negociável, tem que aprender e da melhor maneira possível.

  • E quanto a programação?

    Eu acho que deveria ser obrigatório no Ensino Médio nas escolas até. A McKinsey emitiu um relatório dizendo que mais de 50% das profissões no mundo já podem ser substituídas por sistemas que serão economicamente viáveis de ser produzidas. Resumindo, é mais barato fazer um sistema do que continuar contratando aquela pessoa. Tá, então porque a gente já não tem isso? Bom, é só uma questão de tempo e é só uma questão de quem custa mais primeiro pra a gente substituir. Outra citação que acho que foi o Elon Musk que falou, não tenho certeza, ou foi ele ou foi um daqueles gurus do Silicon Valley. Falou que já está estimado que a necessidade de sistemas computacionais, programas de software que existem no mundo hoje, lógico que aqui estamos considerando sistemas implementados em hardware, é maior que a quantidade de desenvolvedores de softwares existentes no mundo. Então acho que isso responde a pergunta. Eu já estou ensinando desenvolvimento de software pro meu filho de 8 anos. Ah, ele programa? Não, logicamente que não, existe aplicativos que ensinam conceitos de lógica pra crianças.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Eu tive a felicidade de ouvir conselho de pessoas mais velhas. Por isso eu mudei de curso. Acreditem ou não eu ouvi isso do professor Melga, ele até criou uma linguagem de programação que a gente tinha que aprender, Teles o nome. Quando eu fui mudar pra automação eu fui conversar com algumas pessoas, professores e alunos, e acreditem ou não, o professor Melga foi o cara que me falou mais claramente: Você não vai vir aqui pra aprender a fazer robo, a aprender programação, nem elétrica, nem mecânica, você vai vir aqui pra você rasgar seu cérebro e isso gravou tanto em mim que eu falo até hoje e isso é verdade. O conselho que eu falaria é: lembre que o curso de automação é isso, é o curso que vai expandir seu cérebro da maneira mais agressiva possível. Então quando você estiver desanimado, continua, porque esse curso é o que vai te dar a base pra você fazer o que quiser depois. E eu digo, mesmo marketing, nós temos caras fazendo marketing mesmo em indústria petroleira, na área médica...

Mensagem Final aos estudantes

Recém formado, eu diria que fiquei um ano até conseguir um emprego numa multinacional. Eu apliquei pra mais de 100 empresas, um processo extremamente desmotivante, cansativo, você pensa que você é um lixo, mas faz parte. Durante esse um ano eu estava dando aula de matemática e fiz alguns trabalhos de freelancer como programador de software e depois me pediram pra eu cuidar de um time de desenvolvedores que eram estagiários, então eu fiz um pouquinho de Project Management, mas puramente ligado a programação. Na prática mesmo eu era desenvolvedor de software 8 horas por dia e fazia um pouquinho de gerenciamento de projeto uma hora por dia. E mesmo assim eu tive outras ofertas aqui em Florianópolis que alguns amigos meus pegaram imediatamente, mas eu tinha decidido uma coisa. Só pra vocês terem uma ideia, esse trabalho de freelancer, as aulas de matemática, foram extremamente frustrantes, porque eu falava poxa vida, eu sou um engenheiro de automação com diploma na mão, eu deixei de ser futuro da sociedade pra ser problema da nação (risos), a velha frase. Lembro do meu pai dizendo, pega qualquer coisa! Onde já se viu? Meu sogro também, isso é uma vida de luxo! Onde já se viu, querer trabalhar naquilo que você quer, você tem que pegar aquilo que te mandam. Então eu diria, escolha uma área, ou pelo menos um tipo de indústria e lute por aquilo, nem que isso leve a mais de 100 aplicações como eu tive que fazer, porque uma hora chega. E se você desistir, depois é difícil mudar, depois que você cria amigos dentro da empresa, depois de você se comprometer com seu chefe, você pode acabar queimando pontes pra sua carreira profissional. E nós não queremos queimar pontes, queremos construí-las.