Entrevista

11/10/2018


Confira!

  • Por que escolheu automação?

    Quando eu fui fazer vestibular estava muito indeciso entre três cursos: Direito, Automação e Medicina. Como eu gostava mais de matemática e física, acho que Automação acabou prevalecendo e ainda a ideia de fazer robôs também chamava muita atenção, a área de robótica para mim parecia ter muito futuro. Até não posso reclamar, porque lembro que quando a gente se comparava a outros cursos sempre dizia que tinha duas certezas: não íamos ficar ricos nem desempregados. A área de TI proporciona muita versatilidade na empregabilidade. A automação abre muitas portas para o trabalho no exterior também, já em outros cursos, como direito e medicina, as possibilidades são mais limitadas.

  • Em algum momento pensou em largar a automação?

    Acho que lá pela terceira ou quarta fase pensei seriamente ir para o direito, estava meio indignado com o curso e bateu aquela dúvida. Depois disso, só decidi me formar e seguir em frente. A engenharia, no geral , é um curso que dá muita versatilidade. Dos meus colegas, hoje vejo alguns trabalhando como engenheiros, mas muitos no mercado financeiro, empreendedorismo, enfim, em áreas muito diferentes. Eu acho muito difícil quando a gente escolhe o curso no vestibular já ter a ideia de onde quer chegar, por isso que é tão importante ir trabalhando isso para descobrir durante o curso, testar as oportunidades. Acho que a automação proporciona um pouco dessa flexibilidade que se deseja alcançar hoje na forma que a gente lida com mercado de trabalho. No fim, os 5 anos da faculdade são tão curtos se comparados com os demais períodos da nossa vida que acho vale a pena experimentar outras áreas, estágios e cursos no exterior antes de se formar.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Foi uma época muito boa, me diverti muito e fiz ótimas amizades. Fiz estágios no LCMI (então Laborarório de Controle e Microinformática), na Dígitro e Cianet, ali no CELTA. Não cheguei a participar área de empresa júnior ou afins, mas fiz PAM nas primeiras fases. Fui meio fisgado pelas propagandas que tinham lá. Lembro que me tomou bastante tempo, com resultados duvidosos.

  • Qual a importância das atividades extra-acadêmicas, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Tens sugestões de boas opções que podem ajudar no mercado hoje?

    Em uma palestra que fui na UFSC achei muito interessante uma frase: "na faculdade você é definido pelo que você fez fora dela". Nela há muita sabedoria, pois no final, o que você fez de extracurricular tem mais relevância do que notas por exemplo. Um bom investimento hoje são as área de psicologia organizacional, gerenciamento de projetos, em geral tudo que estiver distanciado da área estudada na faculdade, justamente pelo fato dos engenheiros estarem atuando em muitas funções diferentes da engenharia hoje em dia, sendo profissionais muito respeitados em áreas como administração, produção, economia, mercado financeiro. O curso proporciona uma base teórica e cabe ao aluno ir atrás das experiências que iriam garantir empregabilidade depois. Comentava com vários amigos meus que ainda estavam no curso sobre como aproveitar esse tempo na universidade com estágios e bolsas que realmente valem a pena, desenvolvendo habilidades diferentes inclusive com oportunidades no exterior.

  • Como a formação de engenheiro influencia no teu dia a dia hoje?

    Difícil dizer, mas na minha época, imagino que até hoje, o curso era muito difícil, até para entrar. Isso motivar você a estudar, tentar entender o problema, sistematizar e buscar uma solução possível. Vejo que o diferencial no mercado de trabalho, em relação a outros cursos da área de humanas é que o engenheiro busca entender mais como as coisas funcionam, um problema como uma função de transferência, com entrada e saída. Isso me ajudou muito em todas as profissões que tive até chegar na área que estou hoje, a diplomacia. Sempre brinco com meus amigos, que na engenharia te ensinam integral de superfície para ter certeza que você não vai errar regra de três (risos).

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    A área depende do tipo de engenheiro que você quer ser, mas uma das mais importantes para um engenheiro de controle e automação que quer seguir em pesquisas, ou desenvolvimento é ter uma boa base em softwares.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Pra mim o diferencial foi o estágio de fim de curso na França, antes de ter entrado na automação eu já tinha feito um intercâmbio para os EUA, então quando surgiu essa oportunidade durante a faculdade eu agarrei ela com as duas mãos, isso realmente mudou minha vida, aumentando meu conhecimento e instigando minha curiosidade em viajar e conhecer novas culturas. Uma das coisas que mais me arrependo da graduação foi ter me formado em 5 anos. Se eu pudesse voltar atrás, certamente teria aproveitado mais para tirar um ano sabático na graduação, ou ter feito estágios no exterior, para depois com outra cabeça voltar para me formar. Outra coisa que me arrependo, eu reprovei numa matéria na 5a fase, achava que não tinha problema pois não iria trancar minha formatura, mas depois quando surgiu a oportunidade de fazer um estágio na Alemanha, um dos requisitos era não ter reprovação e ter um bom nível de inglês. Eu já estava num bom nível de proficiência, comparado com o pessoal, mas por causa desta reprovação eu não pude ir. Acho que seria algo que teria gostado muito.

  • Qual foi sua trajetória após a faculdade?

    Quando eu me formei em 2000, eu fiz um PFC na França, e quando voltei eu defendi o projeto, porém não tinha nenhum emprego em Florianópolis, então optei por fazer mestrado ali no DAS. Em paralelo, dois amigos estavam abrindo uma empresa e me convidaram para ser sócio. Então eu fiquei 2 anos, de 2000 à 2002, trabalhando no mestrado e tendo esta empresa junto com estes dois sócios. A empresa era na área de software, tínhamos um software de imobiliária que conseguia pagar as contas da empresa, e outro software de desenvolvimento de projeto que era o nosso foco, o qual imaginávamos que seria o grande produto da empresa. No fim eu fiz todas as cadeiras do mestrado, mas não consegui finalizá-lo, e ao mesmo tempo estava cansado da empresa, e decidi vender minha parte e desfazer a sociedade.

  • Depois de passar por empresa e mestrado, qual caminho pareceu melhor seguir?

    Após, fiquei mais ou menos 1 ano sabático, sem saber exatamente o que faria da vida. Não tinha grandes vontades de trabalhar como engenheiro quando me formei. Neste ano que fiquei sem trabalhar, fiz várias viagens, algumas pelo Brasil, de moto, e uma das coisas que mais me marcou foi quando decidi ir para o Peru, com cerca de 1000 dólares e viajar até acabar o dinheiro. No fim das contas foi ótimo, acabei aprendendo espanhol, e fiquei 3 meses pela estrada. Acredito que esta viagem mudou minha vida.

  • Chegou a ter contato com a área acadêmica novamente?

    Depois de 1 ano viajando e sem saber o que fazer, decidi retomar meu mestrado no DAS, entrando no projeto chamado Roboturb, o qual era desenvolvimento de um robô para reparos de usinas hidrelétricas. Era um projeto interessante bem na área de pesquisa e engenharia, mas ao mesmo tempo eu cheguei a conclusão que engenharia não era muito meu futuro. Ao mesmo tempo que eu via no projeto as pessoas que tinham uma vocação para aquilo, eu via que não era o meu caso. Eu gostava mais de idiomas, conhecer outras culturas... então acabei meu mestrado, com bastante dificuldade, e depois fui trabalhar na Reason, aí em Floripa mesmo, onde trabalhei por uns 3 ou 4 meses até ser demitido. Após a Reason, dei aula na escola técnica durante um tempo (antigo CEFET). Foi uma época muito feliz, gostei muito, fui professor substituto lá, porém tinha um prazo de validade por 2 anos.

  • Quando surgiu a ideia de diplomacia?

    Depois surgiu a ideia de fazer concurso para diplomacia, onde uma prima minha comentou comigo, eu me interessei e fui atrás. Comecei a estudar por conta e contratei alguns professores particulares para matérias específicas. Nesse período eu comecei a fazer alguns concursos e passei para um de Técnico do Ministério Público. Lembro até hoje do edital, que dizia que a vaga era para desempenhar tarefas tediosas e repetitivas (risos), e ainda pagava pouco, porém o horário era reduzido, então usei este emprego durante quase 3 anos para estudar para o concurso de diplomacia, até passar no concurso que queria (isso foi de 2006 até 2009). Depois que eu passei, fiz a academia diplomática, e então em 2011 fui morar no Irã, foi uma experiência fantástica, depois fui para Washington, nos EUA, e agora estou aqui em Pretória. Acho que me encontrei na diplomacia, estou adorando o que estou fazendo.

  • Como funciona o concurso de diplomacia? Quais os requisitos?

    Tem que ter qualquer graduação reconhecida pelo MEC, tenho colegas, por exemplo, que fizeram Zootecnia, Medicina, Jornalismo, etc. Claro que a maioria são advogados e agora formados em Relações Internacionais, porém também há vários engenheiros, ex-engenheiros da Embraer, por exemplo.

  • Como é seu dia a dia hoje?

    É bem variado, depende muito do país que estou, da embaixada que estou. Numa embaixada se tem diversas áreas, como setor administrativo que cuida de coisas como pagamento de contas, contratos, gerenciamento físico da embaixada. Tem a seção Consular, onde se chefia o atendimento ao público. Por exemplo, quando um brasileiro vem pra África do Sul, ou vai pra Miami, e tem seu passaporte roubado e não tem como voltar pro Brasil, ele vai no consulado para tirar novo passaporte ou conseguir um documento que permite que ele volte ao Brasil. Ao mesmo tempo temos brasileiros presos pelo mundo, e se estes brasileiros não tem família para prestar auxílio, a equipe do consulado visita as pessoas que estão presas e tenta dar o auxílio possível, dentro das nossas limitações. Tem o setor político da embaixada, que faz o trabalho de análise da conjuntura política, econômica. Em suma, seria como se fosse "traduzir o Brasil para o governo local" e “o governo local para o Brasil”. No Brasil tem o Ministério da Educação, em outros países pode ser que exista o Ministério da Educação junto com o de Artes e Cultura, e às vezes perguntam "quem é o ministro homólogo no Brasi?" ou "com quem eu falo no país de vocês sobre este tema?". Um exemplo mais claro: quando eu estava no Irã houve a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad pro atual Hassan Rohani, então a embaixada do Brasil lá tenta fazer uma análise sobre o tudo o que irá impactar com esta nova presidência. Já o setor Cultural da embaixada busca difundir a cultura brasileira no exterior, para ajudar músicos, artistas, para se apresentarem nos países, e tentar divulgar a literatura, cinema, artes plásticas, etc. O que eu falo da diplomacia é que tem um local/setor para cada um dependendo do que se gosta de fazer, e ao mesmo tempo você está mudando de 2 a 3 anos, uma nova adaptação, nova cultura, novas línguas... acaba sendo um aprendizado constante. Acho que está mudança e aprendizado constante é o que me atrai.

  • Como funciona a escolha da localidade?

    Depende de diversas variáveis. As pessoas escolhem para onde elas querem ir, mas se dependesse apenas disso, 90% dos diplomatas escolheriam lugares, como Paris, Londres, Nova York... por outro lado existem os interesses em culturas mais diferentes. O diplomata manifesta sua vontade para onde quer ir, por outro lado a administração do Ministério de Relações Exteriores informa onde precisa de gente. Também depende muito do trabalho que se fez anteriormente. Em alguns casos o Ministério faz o que eles chamam de "remoção casada", onde o diplomata fica 2 anos em um local menos requisitado, mas com a promessa com que ele irá depois para outro local mais atrativo e requisitado, que foi pré-acordado. Uma das peculiaridades do Itamaraty é que ninguém vai contra a sua vontade. Se não gostar do que for ofertado, há a possibilidade de ficar em Brasília, mas algum momento irá impactar na sua carreira, pois um dos requisitos de promoção é tempo no exterior.

  • Qual lugar você se adaptou melhor?

    Morei um ano e meio em Brasília, quando entrei. A maior parte desse tempo foi a preparação na Academia Diplomática, no instituto. Depois estive em 3 lugares trabalhando, Irã (Teerã), EUA (Washington) e agora na África do Sul (Pretória). O Irã foi fantástico, um país muito diferente do nosso, com uma cultura milenar, poetas, império persa, ruínas, etc. Além disso, o povo é muito amistoso! Eu e minha esposa adoramos nossa experiência lá, tanto que o plano era ficarmos dois anos e ficamos três.

  • E como foi sua experiência nos outros lugares?

    Washington foi bem interessante pela transição de Obama para o Trump que vimos lá, e é um país muito diverso. Comparar a costa leste, California, meio oeste e norte, são cabeças muito diferentes mesmo. África do Sul é um novo mundo que se abre, são inúmeras culturas para gente conhecer. Só aqui são 11 línguas oficiais, sendo 9 africanas.. Fora toda diversidade de animais, parque nacionais. Um país complexo, com toda a história da luta contra o “Apartheid” e com muitos desafios semelhantes aos nossos no Brasil em relação à desigualdade social, combate à violência, etc.

  • O resultado das eleições no Brasil impactam no trabalho dos diplomatas?

    Na verdade todos os funcionários do Itamaraty são diplomatas de carreira, então não vai acontecer de serem demitidos. O que acontece normalmente é que o presidente eleito vai escolher um ministro das relações exteriores alinhado com o que ele deseja implementar. Esse ministro pode ou não ser diplomata de carreira, cada perfil tem suas vantagens e desvantagens. O ministro escolhe os embaixadores, no Brasil essa escolha é feita geralmente entre os diplomatas de carreira. Pros EUA, a maioria dos embaixadores já são indicados políticos, o que impacta um pouco no trabalho das embaixadas.

  • Qual a reação dos sul-africanos quando você dia que é brasileiro?

    O futebol acaba sendo nosso cartão de visitas, depois da copa mais ainda. Em geral, há um desconhecimento mútuo muito grande entre brasileiros e sul-africanos.

  • Qual sua visão sobre o espaço de trabalho do engenheiro no mercado hoje?

    Acho que é uma profissão que abre muitas portas, para trabalhar áreas que não precisam se restringir à engenharia. . Em um mundo em rápida transformação e que dependerá cada vez mais do progresso tecnológico, acho que o engenheiro de controle e automação está bem posicionado, aliando o conhecimento técnico e a versatilidade.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar PFC?

    Fiz meu trabalho de PFC com o professor Jean Marie Farines, professor que me ajudou muito. Ele foi a pessoa chave para eu relizar meu PFC na França. Muitos professores do departamento fizeram doutorado no exterior, principalmente França e Alemanha, o que criou uma ponte que ajudou a muitos alunos. Na época acho que dependia muito do departamento, mas hoje é muito mais fácil você fazer contato direto e correr atrás das oportunidades.

Mensagem Final aos estudantes

Não se preocupe em se formar em cinco anos, faça o maior número de estágios que puder para decidir para que área quer seguir e se possível não tenha medo de trancar o curso para viajar, conhecer outras culturas e assim ampliar seu conhecimento.