Entrevista

29/11/2017


Musa é nossa última entrevistada do semestre e vigésima da história do Alumni. Para encerrar esse ano escolhemos ela por ter uma história fantástica no setor de pesquisa, desenvolvendo seu doutorado na Alemanha em Robótica Subaquática na empresa Bosch! Acompanhe mais essa entrevista!

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Eu, até os últimos segundos antes da inscrição no vestibular, juro que estava na dúvida sobre o que fazer. Era qualquer coisa entre Medicina e Psicologia (risos). Mas, eu na verdade, estava pensando em Jornalismo, Medicina e acabei me lembrando da robótica que tive na minha escola. Mesmo achando matemática e física chatos, eu ia bem nessas matérias. E, por gostar da robótica, eu achei que não era uma má ideia. Acabei me inscrevendo na UFSC porque a escola tinha organizado uma excursão pra fazer o vestibular na UFSC. Acabei passando e foi a melhor coisa que fiz.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito? Já existiam as automacats?

    Tinham as automacats mas era algo mais esporádico. Porque, no nosso semestre, entraram 6 meninas. Então, não tinha tanta necessidade de se encontrar com outras meninas como nas outras turmas, pois já víamos umas às outras todos os dias. Mas, eu tive o azar de que no primeiro semestre teve uma greve de uns 9 meses. Então foi 1 mês de aula e a Universidade já parou com as aulas e todo mundo já voltou pra casa. Depois disso, no primeiro semestre mesmo, eu comecei a fazer estágio. Meus dias eram basicamente estágio e aula. Porém, eu também saía bastante com o pessoal da minha sala. Não eram muito de festa, normalmente saía mais para comer algo, assistir um filme, não exigia muito do dia. Só mais pro final do curso, que voltei do estágio da Alemanha e acabei em outra turma que fazia mais festa.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Como foi sua trajetória extracurricular?

    Eu queria começar a fazer estágio pois tinha a nítida sensação de que não sabia nada. Então, o problema é que, quando você começa sem ter visto coisas de controle ainda ou só ter visto a base, é difícil conseguir estágio nessa área. Mas, teve uma chamada pra treinamento de programação do S2I do professor Stemmer e era um treinamento de 6 meses em C, C++, Python. Acabou sendo uma ótima oportunidade pois eu não sabia programar. Era bem puxado, mas depois disso fiquei até 2008 trabalhando com processamento de imagem. Depois fui pra Alemanha fazer estágio no Fraunhofer - IPT, trabalhei com matlab por um tempo. Lá, eles produziam lentes de alta precisão com uma superfície que não é analítica, tem uns pontos e cada ponto tem um peso, você acaba conseguindo fazer um texto numa superfície de vidro e projetar ele na parede. Eles trabalhavam com isso para aquelas lentes que vão no carro para projetar as informações que você, como motorista, tem que ver, mas está com o foco na estrada. Meu trabalho era pegar a medição dessas lentes que eram produzidas e comparar com o design pra ver onde que a máquina errou. Porque, quando a máquina tinha que fazer um movimento muito rápido num ponto de alta curvatura, ela normalmente acabava tirando a quantia errada de material necessário. Depois disso voltei pro Brasil, trabalhei um pouco com vitrines reativas, que era pra reconhecer gesto de pessoas perto de vitrines com infravermelho. Mas isso durou um mês e pouquinho. Mais além, trabalhei na ATTA tecnologia de transportes, que era de uns colegas de 2004.2, fiquei lá por um ano mais ou menos. Acabei voltando pra Alemanha pra trabalhar com instrumentos de medição óptica, se chama interferometria de baixa coerência, pra medir a superfície de metais que estão sendo estruturados por laser. Então, você tenta tirar material do metal com laser e medir, ao mesmo tempo, pra saber se a quantidade de material é correta. Esse foi meu PFC.

  • Estava ciente que queria puxar mestrado/doutorado após a graduação?

    Sim. O que eu não sabia é se queria fazer na Alemanha. Na verdade, acabei ficando fora pra aprender outro idioma e pra conhecer outro sistema de ensino. É difícil saber qual o nível e a qualidade do seu curso se você só ficar na sua universidade, então queria conhecer a realidade de outra. Fui pra Aachen pois é um lugar muito viável pra trabalhar em um estágio e pagar as contas relativamente bem. O meu maior sofrimento foi a língua mesmo, pois tem que fazer uma prova de proficiência para entrar e provar que você sabe falar alemão. A prova é bem genérica porque é para toda a universidade, não era algo técnico apenas. Lembro que minha prova era pra escrever um texto de 100 palavras sobre o “porquê dos alemães comem menos batata do que 100 anos atrás”. Eu não sei o que escrevi, acho que inventei as 100 palavras ali (risos). E é uma prova complicada, pois a taxa de reprovação dela é de 80%. Esse problema com a língua alemã começou sendo desesperadora, mas acabou ficando mais tranquila.

  • Qual sua percepção da UFSC?

    A UFSC é uma excelente universidade. Eu tive dificuldades com estilo de ensino na Alemanha. Não posso generalizar, mas a universidade que frequentei, Rheinisch-Westfälische Technische Hochschule Aachen, é bem grande pra Alemanha e tem quase a mesma quantia de estudantes da UFSC. Mas eles tem um estilo mais "produção em massa de engenheiros". Então, no mestrado, eu tive aula com 2 mil pessoas. Parecia ser mais uma palestra e não uma aula. Lá, você faz uma prova que parece mais um vestibular, pois tem que cuidar muito com o tempo. O tempo limite era muito menor do que o tempo que você realmente precisava. Isso foi algo com o qual não consegui me acostumar. Era mais conteúdo teórico, pois com 2 mil pessoas em sala o professor não passa coisas práticas como trabalhos e projetos, por exemplo. E, isso faz uma diferença muito grande na formação. O que eu lembro da faculdade é a parte prática e não das provas. Tinha prova que professor imprimia o slide da aula e apagava algumas informações, as quais você tinha que completar exatamente como estava no slide. Pra mim, isso não é aprender. O que mais valeu no meu mestrado foi a oportunidade de continuar trabalhando em pesquisa no Fraunhofer. Claro que você tem que ir atrás. Mesmo quando há trabalhos como na UFSC, tem as opções de se fazer um trabalho razoável ou o melhor possível. Se você buscar sempre fazer o melhor possível, mesmo tomando risco de dar algo errado no final como aconteceu várias vezes comigo, você se põe à prova e testa seu conhecimento em coisas que, para uma prova, você não faria. Por isso prefiro a parte prática.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    O IAA importava até certo ponto. Eu tinha noção de que, por fazer estágio durante todo o curso, não tinha todo aquele tempo livre pra estudar. Meu IAA acabou ficando melhor do que eu esperava, mas ele não era o fim do mundo. É importante ter uma atenção com o IAA, tem lugares que realmente olham a nota primeiro. Principalmente aqui na Alemanha, que olham até a nota do ensino fundamental.

  • Você falou que não gostava de matemática e física na escola, mas foi para engenharia, você vê isso como empecilho?

    Meu pai era professor universitário, ele me disse: "Você tem que tomar muito cuidado quando julga as disciplinas da escola pois na faculdade vai ser totalmente diferente", se você der a sorte de estar no curso que você gosta, o que nem sempre acontece. Eu acabei gostando muito de cálculo e física na faculdade.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Sim, organizei o meu linguição e antes disso eu sempre trabalhei na festa, é quase que um evento social do curso, não só pela festa em si mas você acaba conhecendo gente de vários semestres que você não conheceria de outras formas. No linguição você tem toda semana as reuniões e vai nos eventos de divulgação. Tudo isso vale muito a pena, pois a união da Automação não é comum, o senso de comunidade. Na universidade que vim aqui eu era um número, uma matrícula, tem duas mil pessoas numa sala. Eu achava muito legal a união do grupo, tinha também o Jeca, Jeca sedentário, são atividades que não é todo curso que tem. No final das contas, profissionalmente falando, quase todos os estágios e trabalhos que consegui foram de pessoas que conheci na automação, cria uma rede muito mais fácil. As conexões são muito valorizadas, por amizade e por contato profissional.

  • Resumindo, o que você faz atualmente?

    Eu trabalho no centro de pesquisa corporativa da Bosch, que é um campus bem novo, se chama Robert-Bosch-Campus. E lá tem todos os grupos de desenvolvimento e pesquisa que trabalham pra toda empresa. Então, eu especificamente estou em uma área que trabalha com sistemas industriais e o meu grupo, dentro desse departamento, trabalha com robótica subaquática. Um dos passos foi construir um sistema pra simular robôs subaquáticos pra você poder fazer como análise de estratégia de missão antes de enviar os robôs. Isso porque, cada robô custa de 1 a 5 milhões de euros. Então, é muito caro e muito arriscado perder um robô desses no meio do oceano. Já, a segunda parte do meu doutorado é como utilizar essa simulação para tentar testar limite de operação dos robôs em missões muito delicadas. Porque, o problema com o oceano é que é muito difícil prever o que vai acontecer, você até pode ter previsões de tempo (como estão os ventos e as ondas no lugar). Mas, por exemplo, quando o robô tem que descer 4 mil a 6 mil metros de profundidade, é muito difícil dizer como está a corrente lá embaixo e que tipo de estrutura encontrará lá. Se você não souber que o robô é feito pra aguentar um certo limite de perturbações, você pode sofrer um dano bem grande. É uma tentativa de facilitar o trabalho de quem faz missão com robô subaquático. São poucas as universidades que têm condições de fazer essa pesquisa. Pois alguns robôs são muito pequenos e não podem ser lançados muito fundo por conta de diversos aspectos. Os robôs que realmente podem descer cerca de 3 mil metros pesam algumas toneladas e precisam de navios especiais só para o transporte do robô. Porque, de outra forma não é possível. Às vezes, as missões chegam a custar 200 mil euros por dia dependendo do nível da missão.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    É difícil dizer, porque eu saí da faculdade direto para o mestrado e ainda não estou ganhando o melhor salário do mundo (risos). Eu lembro que vários colegas meus já saíram empregados da faculdade, estava na época das vacas gordas do petróleo. Então muitos já saíram com emprego muito bom. Eu fui para o outro lado e decidi fazer o mestrado em robótica na Alemanha. Totalmente ao contrário de muitos colegas meus. Eu não ganhava maravilhas, mas ganhava o suficiente para as minhas contas. Eu não tinha bolsa de estudo, então trabalhava no estágio de 19h por semana, que na época era o máximo permitido pelo visto de estudante, e chegava próximo dos 800 euros. Aachen é uma cidade muito barata de se viver, então ainda sobrava um dinheiro. Mas nada comparado ao salário de petróleo dos meus colegas. Hoje eu moro em uma vila de uns 17.000 habitantes, então não tem muito o que gastar por aqui (risos).

  • Você pensa em voltar para o Brasil depois de terminar o doutorado?

    Para eu voltar para o Brasil depende muito mais de oportunidade e emprego do que de vontade. Minha intenção é depois do doutorado já entrar diretamente no mercado de trabalho, e assim não me preocupar em sobreviver com reserva de dinheiro. Voltar para o Brasil não é uma opção que eu cortei dos meus planos, mas é mais uma questão estratégica do que de querer ou não. Pretendo voltar sim, porque é meio difícil depois de um tempo ficar longe da família e de muitos amigos.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Com doutorado na mão. Aqui na Alemanha se tem a oportunidade de trabalhar na parte de desenvolvimento e às vezes é até requerimento mínimo para entrar em alguns centros de pesquisas. Do meu departamento, acho que quase todos já tem doutorado. Eu não pretendo ser professora, porque eu sou incapaz de ensinar qualquer um (risos). Eu não consigo, pobre dos alunos que tiverem aula comigo. Quero muito trabalhar com pesquisa ainda. No Brasil hoje existe essa oportunidade, tem por exemplo institutos do Senai, que já vem sendo aberto faz alguns anos, e outras oportunidades. É o que pretendo fazer, trabalhar como pesquisadora depois do doutorado.

  • Para quem quer trabalhar com robótica, a dica é ir para Alemanha?

    Robótica na Alemanha, por incrível que pareça, não (risos). Assim, se você quiser trabalhar com carros, Bosch é melhor. Como robótica, ainda está mais na área de pesquisa, mas se quiser pode vir também. Tem robôs que cortam a grama, medem aspargos no campo, aspiram pó, subaquáticos... Acho que na Alemanha em geral é mais a parte automotiva mesmo. Mas também não falta gente interessada.

  • Como você se sentia em um curso em que a maioria são homens?

    Para ser bem sincera, acho que na automação mesmo eu não percebi e não tinha a sensação que existia um tratamento diferente por conta de ser mulher. Ou eu era muito distraída e nem percebia ou realmente não existiu. Eu lembro de pouquíssimas vezes que escutei comentários machistas, e não era nem de gente da automação. Era normalmente alguém que nem fazia engenharia e eu achava muito engraçado. Dos colegas que eu tive, nunca tive experiências ruins nesse sentido. Pode ser que outras colegas minhas tenham uma visão diferente, mas comigo realmente não lembro disso acontecer na faculdade. Eu fui ter esse tipo de situação na minha vida depois que eu saí da UFSC. Acontece que na Alemanha, proporcionalmente, tem muito menos mulheres que no Brasil. Para se ter uma ideia, quando eu entrei no mestrado, eu era a única mulher do programa de mestrado inteiro, em todos os semestres. Eu entrei e na Alemanha existem várias medidas de inclusão, como um mínimo exigido de mulheres em certos cargos e com salários iguais. Isso é bom e ruim, porque muitas vezes colegas meus achavam que eu estava ali para cumprir uma cota do mestrado. E eu olhava pra eles e falava que tinha entrado porque eu era boa e merecia. No começo sempre achava que tinha escutado mal, mas depois eu descobri que tinha entendido certo o que eles estavam falando para mim. Na UFSC mesmo não me lembro de ter me sentido mal ou tratada de forma diferente por ser mulher, mas percebi essa realidade já quando fiz estágios em empresas. Quando eu fiz minha tese de mestrado, eu era a única mulher no departamento de 300 pessoas. Só fiquei sabendo disso, pois em um dia internacional da mulher eles tiveram que tirar uma foto e reuniram eu e a mais duas estudantes que tinham por lá. Às vezes o problema é que temos que se impor um pouco. Você trabalha praticamente só com homens, e você escuta algum comentário do tipo "conseguiu isso só porque é mulher". Ou falam que você está dando em cima de alguém só porque está pedindo algo, e eu fico me perguntando de onde saíram essas ideias. Acontece que você tem que aprender a impor respeito também. O que ajuda um pouco aqui na Alemanha é que o pessoal não tem esse pudor de falar a verdade na cara das pessoas. Eu aprendi a fazer a mesma coisa (risos). É importante você reagir na hora correta e na medida correta para que isso não se repita. Eu simplesmente aprendi, mais aqui na Alemanha, como responder a altura quando alguém falta com respeito comigo. Isso passou a ser ao mesmo tempo um pouco engraçado, porque como eu sou brasileira eles não esperam esse tipo de reação, mas é uma coisa que te ajuda. Por exemplo, se você está em uma reunião e alguém faz um comentário desmerecendo seu trabalho por múltiplas razões sem argumento e fundamento nenhum, caso você não responda a pessoa na hora, as pessoas que estão naquela sala podem também achar que você não tem pulso para fazer suas tarefas. Então isso me ajudou muito a aprender como lidar com gente que faz comentários do tipo, como meu colega de mestrado e que na época eu não respondi. No fim, a pessoa fala o que quer, mas vai escutar o que não quer também.

  • Você acha que a criação das cotas contribui para essa discriminação na Alemanha?

    Infelizmente eu acho que sim. É bem complexo avaliar o motivo de ter menos mulheres estudando engenharia na Alemanha. Existem questões culturais e muitas outras que não são tão fáceis de se resolver simplesmente fazendo uma cota para mulheres. Eu sou da opinião que as seleções deveriam ser feitas com base no que a pessoa fez da vida, o que estudou e quais as experiências, mas sem saber a idade, o gênero, o nome e sem foto. Aqui aparece [foto do candidato] nos currículos e eu não concordo, por abrir um espaço para certos preconceitos que a pessoa que está selecionando pode ter e você nem sabe. Sou mais da opinião que deveríamos ter uma forma de seleção um pouco mais cega para aspectos que no fundo nem importam para a parte profissional do que ficar criando cotas. Não foram uma nem duas vezes que eu escutei comentários maldosos por "estar ali por conta das cotas".

  • Você viu mais discriminação na Alemanha do que no Brasil?

    Sim e não... É um pouco complicado de entender e muito pelo aspecto de cultura. Aqui tem muito menos mulheres que trabalham, de forma geral, do que no Brasil. Já vi uma pesquisa que 13% das mulheres que tem um filho trabalham, depois 6% das que tem dois filhos trabalham.. é uma questão cultural que uma vez que você tem filhos, a mulher deve ficar em casa. A mulher que segue uma carreira e em paralelo cria uma família, é vista como se estivesse abandonando seus filhos. Não sei como funciona aqui nas escolas diretamente e pode ser que as meninas não tenham interesse em engenharia, mas existe um aspecto cultural bem mais complexo. No fim nas contas estou aqui a 6 anos, mas mesmo assim nunca estive em uma família alemã para contar melhor. É muito do que eu conheço de amigos e colegas. Tanto que uma história engraçada foi quando passei as férias no Brasil, estava voltando para Alemanha e pousei em Düsseldorf. Como eu entrei na união europeia por Paris, não tive que passar pela imigração de novo. Em Düsseldorf tem alguns policiais a paisana que ficam andando e olhando as pessoas que não parecem alemães. Eles estão vestidos de civis e pedem para qualquer um o visto e documentos. Enquanto eu procurava meu passaporte, ele já perguntou o que eu fazia na Alemanha e respondi que estudava engenharia. Na hora ele duvidou de mim (risos). Tive que mostrar documentos da universidade, cartão da universidade, e só assim ele acreditou em mim.

  • Comparando os estágios e as aulas, que peso você dá para o que você aplica hoje e de onde veio o conhecimento?

    Desde 2006 eu trabalho com software. Na faculdade tem disciplinas que você aprende algumas linguagens de programação e tem trabalhos que tem que entregar, mas não dão nível de experiência que te habilite a ser um programador e produzir um software de qualidade. Nos estágios foi onde eu tirei maior parte do conhecimento que uso hoje, mas é também uma coincidência pois eu uso controle no meu doutorado. É muito difícil prever o que você vai usar no futuro durante a faculdade. Acho que o melhor é você aproveitar o máximo possível em áreas que você não conhece aproveitando de poder errar durante a faculdade e com isso você tem mais referências do que você gosta e pode querer fazer formado. No meu caso foi software, isso que gosto de fazer e provavelmente farei sempre.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Com certeza, em várias coisas. Eu vim para a Alemanha pela iniciativa do Prof. Stemmer, ele mantinha o contato e incentivava os alunos a buscar o estágio e a aprender alemão desde cedo para ter melhores oportunidades. Além das oportunidades de estágio, quando eu voltei da Alemanha, na sétima fase, meu pai adoeceu e acabou falecendo, os professores me apoiaram muito para não perder o semestre todo, reagendando provas e com apoio mental. Não tenho nem palavras do quanto o departamento me ajudou para não ter problemas.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Interessante essa pergunta, eu tinha essa dúvida na faculdade também, achava o curso muito amplo e não entendia o porquê de ter processos junto com CAD e outras coisas. No final isso veio a ser muito vantajoso pra mim. Por exemplo no estágio, eu fiquei na parte de programação e a gente precisava construir um protótipo mas o especialista em CAD não tinha tempo para a produção, então meu chefe me mandou fazer. Muitas coisas que eu achei que ia esquecer depois da faculdade de vez em quando voltam, e saber como fazer a aproximação do problema e onde encontrar a fonte de informação para a solução faz uma diferença muito grande. Automação, às vezes, tem coisas diferentes demais nas matérias mas na frente faz diferença. Aqui na Alemanha os cursos são muito focados em especialização e falta flexibilidade de muitos quando trabalham em pequenos grupos.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    De ter tido muito medo de ir mal nas provas, sou muito nervosa, ansiosa. Agora com meus trinta anos de idade, com a velhice na cabeça eu consigo controlar um pouco mais. Na escola você vai bem, tudo vai muito fácil. Na faculdade eu tive aquela primeira aula de introdução com o Jean-marie e você sai falando: realmente eu não sei de nada. É outro estilo de estudar, outra forma de aprender, outro universo. Eu acabei me desesperando demais para fazer tudo ao mesmo tempo e isso não existe. Às vezes você vai mal, o mundo não vai acabar, ninguém vai morrer. Tirei 4 em Circuitos, 2 em Realimentados, mas sobrevivi, passei, tudo deu certo. Quando eu entrei, entrei sem saber muito o que estava fazendo, no final quando eu vi que consegui passar por tudo e me formar fiquei muito feliz, no sentido de ver alguma coisa que você fez, que você construiu e no momento final quando você está com os professores e colegas celebrando, você olha e viu que deu certo, que conseguiu.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Eu sou um pouco suspeita para falar sobre o curso, porque programação é tudo que eu gosto de fazer (risos). O que eu diria é que se na universidade você mostrar realmente que é esforçado, pelo menos, e buscar oportunidades, você vai encontrar. Não só estágio, porque vejo que é a opção mais óbvia que existe, mas buscar nas aulas mesmo. Os professores te dão várias oportunidades de testar seus conhecimentos e ir atrás de novos. Se o professor te pede um projeto de tema aberto, às vezes você pode propor uma coisa que nem sabe se vai funcionar. Uma vez meu grupo fez um robô móvel que um dia antes o encoder queimou e ficou manco, não andava mais. O professor viu que estávamos tentando fazer alguma coisa legal e gostou do trabalho. Você tem que usar a chance de fazer coisas que às vezes não sabe nem se vai dar certo ou se não gosta, mas tentar pelo menos uma vez para poder ter esse tipo de bagagem durante a faculdade. Isso vai te ajudar não só a decidir melhor uma área, de controle, software, mas também a se guiar depois da faculdade. Você vai sair perdido de qualquer forma e isso é fato, mas se pelo menos ter uma ideia do que se quer fazer na vida profissional ajuda muito que você teste seus conhecimentos e habilidades o máximo possível. Na faculdade você pode errar e testar, fazer coisas que provavelmente não vai ter a oportunidade de fazer de novo, não vai ser possível arriscar tanto quanto naquele tempo. Querendo ou não os professores respondem quando você mostra que está a fim de testar seus conhecimentos em um nível um pouco além do que se espera para as aulas. Com isso surgem oportunidades. O professor pode te oferecer algum estágio, colocar em contato com empregador... Aproveite o máximo essas oportunidades na faculdade, pois é o lugar perfeito para você saber o que realmente sabe fazer ou não e te ajuda muito depois.

Mensagem Final aos estudantes

Tente aproveitar de uma forma saudável a universidade. Digo no sentido de não se estressar tanto ou mais que o necessário. No final das contas, é uma experiência que você tem que viver, mas não precisa colocar sua saúde ou vida pessoal em risco se não for extremamente necessário. Se você tirar uma nota ruim, acontece; se reprovar alguma vez também acontece; ou se surgir algo ruim na metade faz parte da vida e da experiência. Todo mundo sobrevive no final, e tudo acaba dando certo de alguma maneira.