Entrevista

23/08/2017


O maior objetivo do Alumni é trazer diferentes tipos de pessoas com as mais diferentes carreiras que nós, futuros engenheiros de Controle e Automação, possamos seguir quando formados. Hoje, nós trazemos o professor Max do nosso departamento para nos contar um pouco de como fazer e como se identificar em uma carreira acadêmica!

Um histórico sobre o curso

O nosso curso foi o primeiro curso de Engenharia de Controle e Automação do Brasil. Em 1988, o Augusto Bruciapaglia e o Jean-Marie Farines (que estão aposentados atualmente), em conjunto com os professores da Mecânica e da Elétrica, criaram o projeto de um curso novo que era a Engenharia de Controle e Automação. Eles que cunharam esse nome. Antes disso, faziam parte do departamento de Engenharia Elétrica, do laboratório de controle e microinformática. Eram áreas da elétrica, mais ligadas a microcontroladores, microinformática, sistemas distribuídos, segurança e a parte de controle de processos. Mas, baseados na experiência de Engenharia Industrial e de Sistemas, eles criaram uma nova ênfase. Tentando sair um pouco da área de elétrica e aproximar de outras áreas. Que aí envolve Engenharia de Produção, Mecânica com informática e, principalmente, a parte da elétrica. Formando assim, um engenheiro que tem uma visão mais sistêmica desse problema de controle e automação.

É um projeto pioneiro, montaram toda a proposta de curso. O Bruciapaglia até deixou comigo o projeto que utilizaram para fazer esta proposta. Nele está contido a data do documento: 17 de agosto de 1987. E de onde o projeto foi elaborado: Laboratório de Controle e Microinformática. Com assinatura do Jean-Marie Farines e Augusto Bruciapaglia. O qual foi aprovado em 1988 para ter início em 1990, quando ocorreu o primeiro vestibular para o curso. Tinham 20 vagas, era super concorrido. 1992 aumentaram o número de vagas, foram para 25.

Então, quando eu fiz o vestibular, não existia nenhum engenheiro de controle e automação formado. Antes disso, no Brasil, existia uma linha de formação chamada Mecatrônica. Mas é uma visão diferente, mais voltada pra mecanismos controlados. Aqui a visão é mais completa, envolve processos.

Então, a partir desse curso, foram criados outros como da UFMG, UNB. Todos inspirados aqui no curso da UFSC. E a gente foi evoluindo o conceito. Por um período ficou como industrial, mas a gente viu que é muito mais que industrial, tem um conceito mais geral. A partir do momento que há aplicações em biologia sistêmica, economia...

O diferencial da nossa formação é que temos uma visão não apenas multidisciplinar, mas também ter uma visão sistêmica. De juntar as várias funções do domínio da Engenharia Mecânica, Engenharia Elétrica, em torno de um objetivo comum que é a integração no sistema de Controle e Automação. Por isso, muitas vezes, vemos gente atuando em áreas que a gente nem imagina. É difícil ter uma formação com essa característica.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Na época não havia ninguém formado e eu não sabia o que seria da profissão. Então, escolhi por eliminação. Como sempre fui bom aluno, eu gostava de matemática, informática e biologia. E estava em dúvida entre fazer biologia, medicina ou engenharia. Mas, como nunca gostei de química, fui eliminando e vi que aqui era um curso bom. Claro que eu também tinha essa vontade de resolver o problema das pessoas com o uso da tecnologia da engenharia, isso eu sempre gostei bastante. Agora, conhecer o perfil do engenheiro de controle e automação era algo que não existia e foi construído nas últimas décadas.

    Além disso, meu pai era professor já aposentado. Mas era professor da Engenharia de Produção daqui. Então, como ele conhecia todos esses projetos, conversei e conheci. E, dentre todas as engenharias, essa aqui foi a que mais me identifiquei.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eram turmas bem pequenas. Eu achava fácil. Quando eu entrei fui chamado para fazer o PAM (Programa Avançado de Matemática). Então, eu troquei as poucas horas de cálculo por 9 créditos de álgebra e 6 de cálculo. E a gente, ralando, tirava 6 ou 6,5. Mas, eu levei a Engenharia sempre com um objetivo de aprender mesmo e ter uma boa formação do que tirar nota boa e conseguir IAA. Eram turmas pequenas e turmas fortes. Então a turma estudava junta e ia bem nas aulas. Naquela época ninguém reprovava em cálculo, mesmo sendo mais difícil porque tinha algumas disciplinas que, agora, são mais a frente. Isso talvez por ser mais selecionado, né. Pra passar em Automação, o último tinha nota pra passar em odontologia por exemplo. Era super puxado.

    Por ter sido o único curso de Engenharia de Controle e Automação do Brasil naquela época, a maioria dos meus amigos não era de Florianópolis nem de Santa Catarina. Eram de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Sul, gente do Brasil todo que vinha pra ter essa formação. Mas o pessoal aproveitava bastante. Tinha bastante festa. Era legal que não existia a câmera no celular. Então só ficava na memória mesmo (risos). Tinham festas de turma e esse convívio social é uma parte importante da formação. Além disso, a gente vê que muitas das pessoas que se dão bem no mundo profissional nem sempre são os que tiraram boas notas, mas os que souberam conciliar uma boa vivência universitária. No ponto de vista de vida social, de todos os trabalhos acadêmicos e dos estágios e outras atividades.

    Então, a formação da Universidade é além do conhecimento em si. É a formação, também, da cidadania. E na engenharia trabalhamos com os problemas das pessoas, essa formação cidadã é essencial. Ainda mais o Engenheiro de Controle e Automação, que tem que conversar com várias pessoas. Dificilmente ele vai fazer um projeto em um escritório fechado, vai ter que trabalhar em equipe. Isso se manifesta nas várias linhas de atuação profissional desse engenheiro.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Eu fiz o PAM (Programa Avançado de Matemática), que são os dois primeiros anos do curso. E, por isso, não tinha tempo pra outra atividade. Mas, na matemática eu fiz um projeto de iniciação científica, aí eu tinha PIBIC na época. A Autojun foi criada quando eu estava no final do curso. E eu fiz o PFC em Toulouse na França, na Siemens automotivo. Trabalhando com CLP e sistema supervisório em uma linha industrial. O PAM me deu uma base científica que me ajuda muito hoje na pesquisa de automação avançada.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Há dois extremos: não é o mais importante, mas não é desprezível. Então, eu sempre cuidei para não reprovar e sempre cuidei pra ter um bom índice. E isso significa levar a sério todas as disciplinas, mesmo aquelas que a gente não acha tão importante. Mas, IAA não é o mais importante. As vezes temos que fazer algumas escolhas. Por exemplo, entre o Cálculo 1 e o PAM, eu preferia o PAM. Mesmo na seleção que a gente faz pra FITec o IAA é um índice mas não é isolado. Olha-se o contexto de toda a formação.

    Por outro lado, não faz sentido alguém abandonar e dedicar-se só a alguma atividade extracurricular, esquecendo do essencial. Que é a formação de Engenheiro de Controle e Automação com toda a fundamentação que vem das disciplinas.

    Na Universidade, o Professor não fica acompanhando o índice dos alunos. Cada um é responsável por si. Mas, o que sempre existiu e deve existir até hoje, são aqueles que ficam concorrendo um com o outro entre alunos em busca do índice mais alto. E, nem sempre esses que tem índice maior são os mais bem sucedidos profissionalmente. Depende do ambiente. Como falei antes, tem outras características que somam.

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    O Engenheiro tem que ter o raciocínio lógico para resolver problemas e o fundamento é a matemática. Mas, há dois níveis de matemática: a matemática como ferramenta para fazer modelos e bolar soluções - que é a matemática do cálculo normal - e a matemática do fundamento do pensamento científico na área de Engenharia. Se você quiser desenvolver um novo resultado, relevante, pra fazer a demonstração científica, é difícil fazer toda uma ciência baseada em experimentação exclusivamente. Com a parte matemática, consegue-se ir bem mais longe. Então esse raciocínio científico de construção do conhecimento, a partir da matemática, é uma informação diferenciada que é importante para uma pesquisa mais baseada em Engenharia. A matemática permite ir bem longe.

    Já a informática, sempre foi uma área muito dinâmica. Não conseguimos nem saber o que vai ter daqui a dez anos. Então, ao longo dos anos 80 foi uma época dos microcontroladores que se expandiram. Sempre tive uns computadores em casa, mas eram com disquete, tinham os terminais. E, talvez daqui cinco anos estaremos rindo das tecnologias de hoje.

    Por exemplo, a grande revolução de quando entrei no curso até hoje foi a internet. Você ter acesso ao conhecimento global com computador e smartphones é realmente algo além do que se imaginava. Imaginávamos que o grande avanço seria a inteligência artificial. O HAL do Odisséia Espacial (Hal 9000 - personagem fictício). Mas, pra mim, a internet é muito mais do que o HAL. Pois você tem uma rede de pessoas que estão por trás das máquinas, informações bem organizadas e sistemas pra buscar essas informações que permitem você trabalhar de forma distribuída e com mais conhecimento.

  • Imagino que estudar para as provas antigamente era muito mais complicado que hoje em dia. Qual a sua visão sobre isso?

    É com certeza, antigamente era só com as apostilas, muitos xerox, não tinha essa de Google Drive. Cada professor tinha sua pasta no Xerox, você ia lá e tirava as cópias de uma pilha enorme de matérias para o semestre inteiro. A maioria do material era em inglês, no qual o ensino dado à gente era baseado. Hoje em dia às vezes não vemos nem papel e caneta, só um celular para tirar fotos... acho que isso foi pra um outro extremo, pois antigamente a gente anotava as coisas, que é uma forma de ir organizando as ideias e facilitava na criação de uma memória visual pra buscar as informações depois, não dependendo apenas de um computador ou internet como hoje. Hoje em dia a gente tem acesso a muito mais conhecimento, mas é necessário saber buscá-lo e ligar as ideias.

  • Naquela época já exigia bastante o conhecimento de uma segunda língua?

    Sim, com certeza, porque o material principalmente na parte de Automação era todo em inglês, não existia livros em português nessa área, que era nova.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Não foi bem a matéria, mas em si o professor. Teve uma disciplina com um professor, Osvaldo Schilling, de Física Teórica B, que inclusive continua dando aula até hoje. Como eu fazia o PAM, eu fiz essa matéria com outra turma por causa de meus horários, e esse professor tinha acabado de chegar de um doutorado na Inglaterra, e na primeira aula já começou a passar um conteúdo complexo ("uma placa de ouro bombardeada com raios gama" inclusive é a mesma aula até hoje). A turma tinha uns 20 alunos, depois da aula só sobraram uns 5. Quem viu que podia mudar de professor, aproveitou e mudou. Eu continuei, e na primeira prova eu tirei 2,5 sendo a segunda maior nota dos 5 que fizeram (risos). Como todo mundo foi mal, o professor resolveu fazer uma prova de recuperação, na qual eu tirei 0,5. Portanto, eu tinha que tirar 10 na próxima prova pra conseguir ir pra recuperação. Aí eu comecei a estudar por conta, não só me baseando nas aulas dele, consegui tirar 10 na prova e 10 em outro trabalho que ele passou. No fim consegui passar com 6,5 e outro cara passou também, se não me engano, mas foi sofrido.

  • Já tinha realimentados com o Júlio naquela época?

    Foi meu professor, mas na época a matéria era tranquila, tinham poucas reprovações. Claro que era uma disciplina difícil, pois não tinha um material específico organizado ainda, mas deve continuar sendo com o mesmo princípio até hoje, onde o aluno tinha que saber resolver os problemas que ele passava. Mas pelo que eu lembre o Júlio não pegava tão pesado assim nas provas, era aquela disciplina difícil mas que as pessoas passavam, e ele era super gente boa como continua sendo ainda hoje.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Na época não tinha nem o departamento de automação e sistemas ainda, pois ele foi criado no ano que eu estava saindo. Nosso curso, departamento, ainda era parte da elétrica. Mas alguns professores de hoje já estavam por aqui, e como tinham poucos alunos, era mais fácil de acompanhar e aconselhar um por um, como fazia o Augusto Bruciapaglia, por exemplo. Mas assim, ele não ia atrás de procurar estágio, isso era dever do aluno já, pois isso faz parte da formação da pessoa, aprender a buscar as oportunidades. O aluno é responsável pela sua formação, e aqui, diferentemente do exterior, a gente ainda é muito paternalista, vemos uma mudança cultural, pois desde o ensino médio já é diferente lá fora, às vezes não só por comportamento de alunos, mas de professores também. Esse período de transição do paternalismo e da fase de cada um tomar conta de seu currículo pode fazer muita gente se perder, então com as reformas curriculares estamos tentando mudar esse conceito, introduzindo mais disciplinas optativas para que cada um escolha e monte seu caminho. Claro que no começo ainda está desalinhado, pois o pessoal escolhe as disciplinas pelo horário, e não por escolhas de formação que cada um gostaria de ter. Ou seja, é uma mudança cultural que aos poucos vai ser quebrada, e deve-se ter um ambiente propício e flexível para as escolhas dos próprios alunos.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Na minha época ainda não existia a Lei Seca, então se tem uma coisa que eu tenho arrependimento é que as pessoas bebiam muito e voltavam dirigindo para suas casas. Por sorte não aconteceu nada pior, hoje em dia está mais controlado, mas é algo que hoje eu não faria de jeito nenhum, e naquele tempo a gente fazia normalmente. Porém não me arrependo de forma alguma das festas que fazia com meus amigos, muito pelo contrário, isso deve fazer parte da formação e da cidadania da pessoa, sua capacidade de se relacionar. Tenho orgulho de ter voltado para UFSC, tenho orgulho de ser o primeiro professor daqui formado no próprio curso. Não tive nenhum professor que teve essa visão de se formar no curso e voltar.

  • A UFSC consegue acompanhar as tendências mundiais nas linhas de pesquisa na área?

    Sim, nós temos no departamento do curso professores, sendo a grande maioria, pesquisadores com publicações nos melhores periódicos do mundo, cada um em sua área de especialidade, então graças a isso a gente tem um programa de pós graduação que é conceito 5 (nota máxima) da CAPES, que não é só a parte de pesquisa mas sim da formação de novos mestrandos, doutorandos, nucleação de novos cursos, como por exemplo o caso de Blumenau. Também o que mais temos de importante aqui é a formação do aluno de graduação, com a qualidade alta, tendo até hoje o ENADE com notas máximas, sendo uma consequência de uma boa avaliação do curso, mesmo existindo seus defeitos com estruturas. O curso de engenharia de controle e automação aqui da UFSC foi pensado para ser referência internacional.

  • Qual foi sua trajetória após sair da faculdade?

    Me formei, fiz um mestrado aqui, um doutorado com o professor Cury, passando 1 ano no Canadá, depois eu fui professor no IFSC por 2 anos no curso de Tecnólogo de Controle e Automação, participando de sua criação, e decidi voltar pra UFSC pelo curso e pela oportunidade de trabalhar com pesquisa, pois aqui na universidade federal a gente tem uma formação e um ensino diferenciado que talvez os alunos não percebam isso, mas é que todos os professores têm doutorado e trabalham em projetos no estado da arte, com publicações que muitas vezes referências internacionais na área. Com isso a gente consegue acompanhar o que se passa no mundo, tendo a ligação de ensino, pesquisa e extensão, sendo o diferencial aqui da UFSC.

  • O que te fez sair formado e seguir na área acadêmica?

    Assim como a escolha para entrar, não foi muito pensando no que eu iria ser, foi mais pensando no que eu gostava. Eu fiz o que gostava de fazer. Sempre gostei das pesquisas científicas, então fiz um mestrado, sendo que ele não te obriga a seguir uma área acadêmica, e foi uma experiência que me fez pegar mais gosto pela pesquisa. A minha dissertação contém muita matemática para modelagem de sistemas, acabei publicando artigos e foi um trabalho muito importante e reconhecido internacionalmente, tendo um excelente professor orientador, o professor Cury aqui do departamento. Então, até eu estar fazendo o mestrado eu ainda tinha uma perspectiva de ir pro mercado de trabalho, mas após o mestrado eu vi que meu lugar era com pesquisa.

  • Você chegou a tentar entrar em alguma empresa?

    Não, no fim eu nem me candidatei em processos seletivos.

  • Como era o mercado de trabalho daquela época, para a automação?

    Ninguém conhecia engenheiro de automação. Hoje já é difícil, imagina naquela época. Mas cada um se vendia como podia. Todos os meus colegas se deram super bem após formados, tendo sempre boas oportunidades, muitos indo para o exterior.

  • O professor foi fazer doutorado fora do país?

    Eu fiz o mestrado e uma parte do doutorado aqui também, na área da elétrica, no laboratório de controle e microinformática, pois ainda não tinha o programa de pós graduação da automação. Só que o doutorado permitia que você passasse um ano fora, então eu fui para o Canadá (doutorado sanduíche), e lá que desenvolvi e formulei a pesquisa, sendo que as disciplinas fiz aqui.

  • Não teve interesse de ficar por lá?

    Ah não, eu pra sair de Florianópolis é difícil, me criei aqui. Como professor a gente viaja bastante, tenho a intenção de passar 1 ano fora de novo em pós-doc, mas o vínculo com o Brasil eu adoro e justifica que eu fique por aqui.

  • Você acha que o engenheiro de controle e automação saído da UFSC está pronto para enfrentar o mercado de trabalho? Acredita que há que complementar o conhecimento em alguma área diferente com algum mestrado, doutorado...

    Ninguém fica pronto, nunca. Na vida ou as pessoas estão crescendo ou decaindo, é difícil ficar estável. Esse estado estável de pronto não existe, é dinâmico. Seja como professor ou como profissional na área, ainda mais em uma área de controle e automação, onde as tecnologias estão em constantes mudanças, então o que eu digo é que como Engenheiro de Controle e Automação você tem uma excelente partida, com uma base forte em controle, boa visão sistêmica dos processos, mas a especialidade vai ser adquirida conforme o caminho que cada um tomar. Isso não vale só para nosso curso, e sim para qualquer engenharia. Não estamos formando técnicos, estamos formando engenheiros que devem pensar e resolver os problemas das pessoas. Um mestrado e doutorado não significa que irão dar mais conhecimento para uma área de atuação, eles irão desenvolver a capacidade de trabalhar esse conhecimento. Na graduação você é capaz de lidar com o conhecimento já formado e estruturado. No mestrado você aprender a lidar com o conhecimento que está em formação, como artigos, coisas que não estão bem definidas. A capacidade de pegar uma ideia confusa e apresentar de forma organizada é a competência principal do mestrado. O doutorado o principal é ir além da fronteira do conhecimento, andar aonde ninguém andou. Criar pesquisas novas, e às vezes você não possui nenhuma referência para seguir, tem que saber organizar.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Hoje em dia na carreira de pesquisador eu irei me aposentar com mais de 70 anos aqui na UFSC (risos), então a única certeza que tenho é que não vai ser entediante, e a ideia é que ao longo desse período eu tenha vários pós docs onde eu busque novas linhas de atuação e novos projetos.

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    A gente passou recentemente por um processo de reforma curricular e acho que evoluiu muito, do ponto de vista do conceito da formação. Por muito tempo as disciplinas estavam muito focadas na formação acadêmica, que é importante, mas nem todo mundo vai seguir nela. Então o mestrado, a graduação, o engenheiro em si, é alguém que precisa saber e ter algumas ferramentas assim como demais engenheiros, para se formar e saber utilizar um conjunto de técnicas na nossa área. Existem disciplinas de fundamentação, mas elas precisam desenbocar nessas técnicas, e o aluno precisa ter a capacidade de levar a diante. Também, sendo engenheiro, é necessário dominar alguns métodos e tecnologias. Então se tem uma área que precisa evoluir no nosso curso é a linha de disciplinas de projetos, como Projeto Integrador, por exemplo, sendo uma disciplina chave. Esta foi uma grande decepção pra mim nos últimos semestres pois pouca gente procurou visto que não eram obrigados a fazer. Mas eu aposto nessa disciplina, mesmo ela ainda estando em construção, estamos aprendendo como ensiná-la, e propondo um mestrado para melhorá-la. Não só a disciplina de PI, mas toda a linha de projeto, pois é algo que precisamos evoluir para formar um engenheiro melhor do que hoje.

  • Teria alguma dica para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Precisa gostar. Primeira coisa é fazer o que gosta. Não é pelo status. Da parte financeira não é a melhor, mas não é ruim, pode-se viver bem. Mas pelo tanto de esforço que se exige, poderia ir muito além em outras carreiras, pois aqui não somos só professores, temos que ser professor, pesquisador e extensor, com projetos, pesquisas, orientação à alunos de graduação, mestrado, correção de provas... é uma vida bem corrida, difícil termos uma rotina aqui, mas é muito bom para quem gosta de aprender coisas novas e estar sempre estudando, lidando com alunos e gente em formação. Com certeza não é entediante. E frisando, quem não gosta de estudar, não é curioso por novos conhecimentos, tem dificuldade em organizar as ideias, eu não recomendo seguir carreira na área acadêmica. Às vezes o perfil imediatista não serve para essa função.

  • Do que você lembra do currículo quando estudou, quais sugestões você daria para complementar ou alterar?

    Uma outra área que podemos melhorar seria o fornecimento de mais optativas aos alunos, com a possibilidades de introduzir matérias da pós e aos poucos a ideia é ir incrementando esse hall de disciplinas. Não é um processo desordenado e irá levar algum tempo, normalmente, até se atualizar. As disciplinas fora do curso também são importantes.

  • Como está a grade curricular do curso em relação a realizar experiências além da graduação, como estágios e bolsas?

    Os alunos precisam tomar o cuidado para balancearem bem. As vezes eu vejo ofertas de estágio que vão em detrimento do curso, e no caso não deveriam ser estágio, e sim contrato de trabalho. O estágio é uma atividade para complementar a formação, por isso não é necessário pagar salário, e sim uma bolsa ou algo do tipo. Então não faz sentido largar disciplinas para fazer estágios, tem que cuidar para não exagerar nisso. Claro que tem gente que precisa da parte financeira, mas não acho que é o mais importante a focar na graduação.

    Não se assustem se alguns falam que se você não tem experiência não vai conseguir nada, nem estágios, nem emprego. Cito como exemplo algumas pessoas que conheço que nunca fizeram estágios em empresas e estão muito bem de vida hoje.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Uma dica é aquela que valeu para mim. Existem disciplinas que você vai ter que aprender, apesar do professor, principalmente as disciplinas básicas, as quais possuem bons livros e você precisa ser independente e autodidata às vezes, superando as deficiências da aula para poder ir bem. Hoje eu vejo que o pessoal não dá muita bola em relação à frequência nas matérias, mas tomem um cuidado maior para não desistirem tão fácil das disciplinas!

Mensagem Final aos estudantes

Uma frase que resume a minha filosofia: façam o que vocês gostem, e curtam o curso em todos os sentidos! Não façam apenas pelo índice acadêmico. Vivam o presente, apreciem este processo de aprendizado e esta ótima oportunidade de estar aqui.