Entrevista

14/03/2018


Na entrevista dessa semana, trazemos o Marcelo Ueda e ele conta um pouco da sua experiência na universidade e também da sua experiência laboral. O que levou o Marcelo a estudar para concursos públicos?. Confira a conversa aí!

  • Por que escolheu automação?

    Eu gostava muito da parte de exatas e programação, mesmo sem imaginar que trabalharia com isso depois. O curso estava no começo, com poucas turmas formadas e poucas informações ainda. Era muito no "você vai fazer robôs" e guias do estudante. Na época, as perspectivas de mercado e salariais eram boas. Com relação a universidade, não tinham muitas opções de controle e automação especificamente. Cheguei a fazer vestibular para Engenharia de Computação no ITA e Controle e Automação na Unicamp, mas acabei deixando de lado pois já havia passado e estava decidido que iria fazer UFSC. Essa decisão veio muito pelo histórico do curso, que praticamente começou na UFSC, sempre com boas avaliações e recomendações. Juntando tudo isso, já com a tendência para área de exatas, acabei indo para Floripa estudar.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu fazia muitas aulas. Além das aulas do curso, fiz o PAM e algumas disciplinas de outros cursos, como de Sistemas de Informação e Administração. Eu também adiantei um semestre de formação da graduação, mesmo não tendo esta intenção inicialmente. Depois que vi que seria possível, resolvi terminar mais cedo, já que tinha intenção de me casar logo. E pelo fato de ter feito PAM, eu já fazia muitas disciplinas com pessoal de outras turmas, isso facilitou alterar o cronograma de algumas matérias para que me adaptasse, puxando mais matérias e fechando a graduação em quatro anos e meio. Sobre sair, eu não costumava sair muito. Já namorava, mesmo a distância, e então acabava indo muito para Maringá nos finais de semana. Quando estava aqui, ia aos finais de semana pra igreja e durante a semana ficava em aulas e estágio. Eventualmente, combinávamos de fazer algo mais com o pessoal da turma.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...?

    Na segunda fase eu fui monitor de Introdução à Engenharia, o que acabou abrindo portas para outras oportunidades: na época ajudei a fazer o site do departamento (DAS), junto com a intranet dos professores, trabalhei num projeto de emulador de sistemas a eventos discretos e no site da pós (PGEAS). Participei da Autojun, como consultor de um projeto, sem fazer parte da empresa em si. Fiz algumas coisas dentro do S2i também, sempre por fora. Meu projeto de iniciação científica foi lá inclusive. Além disso, participei do futebol de robôs com o grupo de pesquisa de Controle de Sistemas Mecatrônicos (CSM).

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Na prática, diria que normalmente não faz muita diferença. Em algumas empresas, principalmente as maiores, em épocas que você busca estágio, uma maior nota pode auxiliar a mostrar que a pessoa está mais interessada em aprender, servindo de critério de classificação. Porém não acredito que é a maioria das empresas que visa este aspecto. Na área acadêmica, tanto nas atividades extracurriculares, como na pós-graduação, principalmente no exterior, um IAA pode pesar mais. De uma forma ou de outra, seu IAA reflete seu trabalho, seu estudo, sua dedicação, o que você consegue absorver na faculdade. Embora possam haver alguns pontos fora da curva, como por exemplo algum professor que você pegou, alguma prova difícil, de uma forma geral reflete esta realidade. O importante é você estudar e se dedicar.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    As mais complicadas foram as matérias de cálculo. Foi muito bom no sentido de abrir a mente, me ajudou muito a organizar as ideias, pensamentos, a forma de como pensar e trabalhar com algumas coisas, mas ao mesmo tempo era muito abstrato e muito difícil de acompanhar algumas ideias.

  • Arrepende de ter escolhido PAM?

    Não me arrependo, além de ter me auxiliado com o raciocínio de uma forma geral, influenciou para que eu tivesse mais facilidade na parte de controle, sinais, eletrônica e circuitos, tendo um domínio melhor do assunto.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando?

    Talvez, com o pensamento e a maturidade de hoje, eu teria me envolvido um pouco mais com alguns colegas e professores, buscando conhecer melhor as pessoas, suas realidades, seus problemas, dificuldades, alegrias... Fazer parte da vida delas não só no ambiente da faculdade, não só de forma superficial, mas como amigos de verdade, pessoas com a qual realmente nos preocupamos.

  • Participou da organização do Linguição?

    Não cheguei a participar da organização e nem do próprio Linguição. Pessoalmente eu não achava muito apropriado, não é o tipo de ambiente que me agrada. Mas a interação e cooperação entre alunos do curso inteiro para isso é, sem dúvida, muito interessante.

  • Como foi sua trajetória após a faculdade? O que te chamava atenção na auditoria fiscal?

    Fiz o PFC na Chemtech e, depois, continuei lá por 5 anos. Não me interessava e não via muita motivação para estudar para concursos públicos. Lá por 2011, fui com a minha esposa à uma feira onde conheci as diversas áreas dos concursos e comecei a considerar a possibilidade, considerando principalmente duas questões. Primeiro, eu gostava bastante da área e do trabalho na Chemtech. Ainda assim, sempre havia algumas partes mais burocráticas, de escrever documentos e manuais, fazer planejamentos, coisas que muitas vezes não agradam muito. Em geral, encontrava formas de me dedicar a essas atividades e fazer delas coisas agradáveis, melhorando o processo, automatizando ou simplesmente fazendo o que precisava ser feito. Aprendi a gostar do que faço e não somente fazer o que gosto. Diante de tudo isso, sabia que eu não teria problemas em mudar de área e encarar atividades que poderiam ser, normalmente, maçantes. A segunda questão foi em relação ao local de trabalho. Na época morava com a minha esposa em São Paulo. A vida que levávamos lá era tranquila: ia trabalhar a pé, voltava pra almoçar em casa, minha esposa trabalhava em casa. Geralmente só saíamos de carro e pegávamos trânsito a lazer. Além disso, a cidade realmente tem tudo para oferecer. A gente estava em um momento bom, mas pensávamos que a longo prazo não seria o desejado, construindo família e tudo mais. Infelizmente a área de controle e automação em si acaba restringindo um pouco quanto a isso. A maioria das oportunidades estavam no Rio, Salvador, São Paulo, nos grandes centros. Realmente são as regiões que tem empresas com a necessidade desse tipo de profissional e condições de ter e pagar por eles. Diante disso tudo resolvi começar a estudar, procurei as áreas que existiam e escolhi a auditoria fiscal muito pelas áreas de estudo envolvidas. Na época tive contato com alguns colegas da automação que seguiram a mesma área. Além disso, nessa área hoje trabalha-se com grande desenvolvimento tecnológico também, para toda questão de emissão de documentos eletrônicos e escrituração fiscal. São muitos dados e informações que precisam ser armazenadas e trabalhadas. A quantidade de documentos fiscais geradas hoje é enorme, realmente não tem como se trabalhar manualmente.

  • Foi muito difícil voltar aos estudos?

    Acho que não. Por um lado, eu não tinha muito tempo, estava trabalhando normalmente e, então, tinha que estudar à noite. E eu estaria concorrendo com muitas pessoas que se dedicam integralmente aos concursos públicos. Mas, como falei, acredito que o fato de sairmos do curso aptos a aprender coisas novas com maior facilidade ajudou bastante nesse processo.

  • Quais são as responsabilidades de um auditor fiscal e como funciona a carreira?

    A função primordial é a fiscalização pública dos contribuintes. Temos uma carreira única. A gente entra como auditor geral e, depois, temos várias áreas em que podemos trabalhar, desde o pessoal que atende público, na fiscalização das empresas, na parte administrativa, nos recursos humanos, na área de TI, tributação (que mexe mais com questões legais e jurídicas e fica mais para galera de Direito). Basicamente, a estrutura é baseada em uma administração central, aqui em Curitiba, e em delegacias regionais em algumas cidades. Nas regionais acaba se trabalhando mais com a fiscalização e atendimento aos contribuintes daquela região, já na central cuida-se mais do todo, uma visão global do Estado. Na área de fiscalização, onde trabalho hoje, temos uma divisão por setores econômicos. Hoje, trabalho no setor de combustíveis, cuidando desde refinarias, distribuidoras, até postos. Em termos de trabalho, além da parte de fiscalização, lidamos muito com processos desde ressarcimento de impostos, pedidos de informação, pedidos de regime especial, até mandados judiciais e questões políticas, cabendo a nós uma avaliação técnica sobre o assunto. Algumas partes mais interessantes e outras mais burocráticas.

  • Quem toma as decisões por mudanças dentro da auditoria fiscal? É possível propor novas ideias?

    Temos uma certa liberdade sim, podemos trazer novas ideias e normalmente elas são aceitas ou pelo menos consideradas sem grandes dificuldades. Na administração central estão auditores que realmente querem trabalhar, porque a diferença salarial praticamente não existe, mas a responsabilidade aqui é maior. Quando eu entrei havia quase 20 anos que não era lançado um concurso, então essa liberdade foi um fator muito positivo, já que por ser um pessoal mais antigo na área e pela grande diferença de idade esperávamos um pessoal mais acomodado. Acredito que o fato de terem essa disposição em trabalhar faz com que estejam mais abertos a novas ideias e tenham vontade de colocá-las em prática.

  • Você acha justo o piso salarial de um engenheiro quando ele sai da faculdade? Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    Já conhecia a realidade, era o suficiente para viver bem em São Paulo na época e, comparando com outros cursos, com outras realidades, era um salário muito bom para um engenheiro recém formado. É um profissional bem valorizado. Conhecia algumas pessoas na área de arquitetura, TI, direito, que saíam da faculdade recebendo mil reais, mesmo numa realidade como São Paulo. As empresas hoje se preocupam em pegar um engenheiro para treinar ele a trabalhar. Não querem um profissional que saia formado e com tudo que eles precisam, mas valorizam os recém formados que saem e estão dispostos a aprender, diferente de quem trabalha com tecnologia da informação, por exemplo, onde, pelo menos em grande parte, espera-se um profissional que já saiba trabalhar e domine aquilo que você precisa e pronto.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Pode ser que venha a empreender algum dia, embora não tenha nada muito bem definido. Em termos profissionais, pretendo continuar por aqui, investindo tempo em aprimorar nosso trabalho aqui dentro mesmo. Tenho também uma série de projetos pessoais e sociais que eu gostaria de fazer, aos quais devo dar um foco maior nos próximos anos.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Sim, durante o curso via bastante apoio para bolsas, iniciação científica, atividades extracurriculares, estágios e no PFC, principalmente para fazer fora do país. Se você mostrar interesse os professores realmente abrem as portas pra você, conseguindo disponibilizar muitas oportunidades aos alunos, inclusive fora do meio acadêmico. Na minha época, cheguei a conversar com os professores pra fazer o PFC na França e recebi apoio, mas no fim, por questões pessoais e profissionais, eu mesmo acabei desistindo.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Concordo e acho que pra nossa realidade de hoje isso é bom. Por um lado, penso que a universidade poderia, sim, fornecer uma oportunidade de maior especialização, mas hoje nossa realidade não é condizente com isso, considerando que o estudante de ensino fundamental e médio, em geral, não aprende a aprender, e sim a absorver um monte de informação mastigada sem pensar sobre elas. Então essa visão ampla é de certa forma positiva para dar um domínio maior para a diversidade de problemas que encontramos em diversas áreas, deixando de somente absorver conteúdos específicos e aprendendo as ferramentas básicas que vão nos capacitar para resolver as situações, ir atrás, buscar as soluções, através de várias e diferentes visões de conhecimento. Se você aprende só algo muito específico, no momento em que forem necessárias mudanças, haverá uma barreira muito maior para conseguir se adaptar. Portanto, considerando a realidade e o mercado de trabalho hoje e as constantes mudanças, acredito que seja um aspecto positivo.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    De uma certa forma acho difícil dizer o que vem pela frente, está tudo mudando muito rápido. Eu saí desse mercado já fazem 4 a 5 anos e já vi que muita coisa mudou. Converso com alguns colegas com quem eu trabalhava antes e a realidade da empresa hoje é totalmente diferente. Nesse aspecto, mais uma vez, a visão ampla, a generalização, a flexibilidade e a facilidade de aprendizado são grandes diferenciais. E, aquilo que já falei, não só como lição pro curso, mas como lição de vida, de aprendermos a fazer o que precisa ser feito, a aprender a gostar do que fazemos e fazê-lo bem feito. A vida pode nos levar a fazer coisas que talvez a gente não goste, mas o fato de nós tratarmos isso como um desafio nos faz descobrir o que realmente gostamos. Vejo um problema da nossa geração, que tem se acentuado, de estarmos sempre insatisfeitos, mudando de emprego, mudando de cidade, de país... Por um lado, nós temos muito mais possibilidades hoje, mais oportunidade e muito mais mobilidade, o que em si é ótimo. Mas ao mesmo tempo a gente só quer fazer aquilo que a gente quer, o que a gente gosta, do jeito que a gente quer, de uma forma individual e egoísta, e dessa forma não se dispõe a aprender a lidar com as situações, com as adversidades, a aprender a viver em sociedade. Na faculdade, sempre surgem perguntas do tipo “Que estou fazendo aqui?”, “Será que esse é o curso certo?”. Na realidade, nunca teremos uma resposta objetiva pra isso. Se não tivermos a disposição de ir atrás, fazer e fazer bem feito o que precisa ser feito naquele momento, deixamos de lado valiosas oportunidades de nos descobrirmos e desenvolvermos um pouco mais e ficamos mais sujeitos a nos frustrarmos com tudo. Temos que ter uma visão mais positiva e pró-ativa em relação a tudo isso, em relação às disciplinas e trabalhos. Ás vezes você não gosta de programação, ou de cálculo, ou de física, mas são coisas necessárias nesse momento e que podem trazer muitas oportunidades de aprendizado e crescimento como pessoa, como estudante e como profissional. Por fim, estamos tratando de uma universidade pública e de pessoas que são exemplos, modelos e futuro da sociedade. É necessário que incorporemos mais dessa responsabilidade. A gente vive hoje numa realidade de grandes escândalos de corrupção no nosso país e isso está associado a como os recursos públicos são utilizados indevidamente para proveito próprio. E na universidade vivemos num ambiente assim, num ambiente que é um investimento da sociedade, um investimento público e, então, temos ao mesmo tempo um grande privilégio, uma oportunidade, como também essa responsabilidade. Da mesma forma como não gostamos de ver os políticos, servidores e funcionários públicos usando esses recursos de forma incorreta, indevida, imoral, também não deveríamos agir da mesma forma. Nós, como alunos, geralmente não nos damos conta que devemos nos preocupar em dar uma resposta para a sociedade, assim como esperamos que os políticos e os servidores prestem contas e respondam pelo que eles têm feito. É importante mostrar que estamos estudando, comparecendo às aulas, sendo pontuais, não colando nas provas, fazendo nossos trabalhos, participando efetivamente dos trabalhos em grupo, das atividades de pesquisa e extensão, ou seja, de fato agarrando e aproveitando a oportunidade e o investimento. Se não fazemos isso dessa forma hoje, quem vamos ser lá na frente e o que estaremos fazendo quando estivermos na posição daqueles que a gente tanto critica hoje? Temos que começar a mudança mudando a nós mesmos. Pelo que as pessoas tem conhecido a universidade, o curso, os alunos? Pelas festas? Pelo trote? Qual a imagem das pessoas diante disso? De um bando de jovens, pedindo dinheiro na rua, pra beber? Ou de estudantes, do futuro da nação, das mentes pensantes, realmente preocupados em aproveitar essa oportunidade pra melhorar nossa realidade e nosso país? Tudo isso tem a contribuir ainda mais para a qualidade do curso. A universidade e os professores fazem uma parte desse ambiente, a outra parte são os alunos. Não podemos esperar que os professores ou outras pessoas façam tudo por nós, tem que haver proatividade. Acredito que temos um ambiente muito privilegiado, com professores muito abertos e turmas muito boas, com um nível de alunos excelente. Podemos ter uma pequena ideia vendo os entrevistados do Alumni, o nível, as experiências e a diversidade de cargos e áreas em que atuam.

Mensagem Final aos estudantes

Nós, como alunos, geralmente não nos damos conta que devemos nos preocupar em dar uma resposta para a sociedade, assim como esperamos que os políticos e os servidores prestem contas e respondam pelo que eles têm feito. É importante mostrar que estamos estudando, comparecendo às aulas, sendo pontuais, não colando nas provas, fazendo nossos trabalhos, participando efetivamente dos trabalhos em grupo, das atividades de pesquisa e extensão, ou seja, de fato agarrando e aproveitando a oportunidade e o investimento. Se não fazemos isso dessa forma hoje, quem vamos ser lá na frente e o que estaremos fazendo quando estivermos na posição daqueles que a gente tanto critica hoje? Temos que começar a mudança mudando a nós mesmos.