Entrevista

29/08/2018


Dessa vez quem compartilha um pouco mais de sua história com a gente é o Luiz Fernando Schrickte, formado em 2008.2 e atualmente atuando no mercado de desenvolvimento de produtos eletrônicos em rotina home office. Já pensou nessa rotina de trabalho? Será que você se adaptaria? Conheça um pouco mais de seu trabalho e experiência no curso! Confira!

  • Por que escolheu automação?

    Eu gostava da parte de exatas e queria um curso que fosse muito desafiador, tivesse muita exigência e fosse reconhecido. A Engenharia de Controle e Automação estava em alta na época e se você olhasse as estatísticas de vestibular ele era muito concorrido, pau a pau com medicina. Na classificação geral, entre os 10 sempre tinha alguns da automação.

  • Em algum momento pensou em trocar de curso?

    Não. O que aconteceu no meio do curso foi a sensação de que iria sair do curso sem ser engenheiro, ia ser administrador entendendo um pouco de engenharia, especialmente quando eu estava na Autojun. Na época eu também estava fazendo PAM (Programa Avançado de Matemática) e teve um momento de decisão na minha graduação: tinha um evento de empresas juniores em Porto Alegre, só que no dia posterior a esse evento eu ia ter uma prova no PAM. Levei todos os meus livros para estudar para a prova em Porto Alegre, mas no meio do evento eu decidi que queria tirar o máximo do evento, ser administrador/empreendedor, e desisti do PAM. Lá pela sexta fase é que comecei a virar “engenheiro” de novo. Acaba que hoje me envolvo mais com a parte técnica do que muitos que eram dedicados às disciplinas e ironicamente depois do curso se tornaram empreendedores/administradores.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu fiz muita coisa ao mesmo tempo no começo e às vezes bate uma ponta de arrependimento. Em certas situações, porém, quando você se arrepende de alguma escolha, você só está pensando nas consequências ruins dela, sem conseguir enxergar as consequências boas daquela decisão que passaram a fazer parte de você. Temos a ilusão que a parte boa sempre esteve ali e que o outro caminho não tomado era melhor. Então é difícil falar em arrependimento de ter feito algo durante a vida acadêmica. Olhando pra trás eu cheguei a pensar por exemplo que não deveria ter feito Autojun, pois por causa da empresa júnior nessas primeiras fases prestei menos atenção na parte técnica, e algumas coisas me fizeram falta depois por não ter me dedicado o suficiente. Havia professores que falavam que isso ia acontecer e que esse era o momento de se dedicar ao curso integralmente, mas eu não acreditei muito. Enquanto tinha o pessoal fazendo cálculo, destruindo nas provas, eu estava muito envolvido na Autojun, na organização do 5º ENECA (Encontro Nacional dos Estudantes de Engenharia de Controle e Automação), Desafio Inteligente, entre outras coisas... Além disso, estava simultaneamente fazendo o PAM e quando aparecia outras coisas eu pegava, era muita coisa e o curso acabava ficando um pouco de lado. Será que eu deveria ter pego tanta coisa ao invés de focar nos estudos e ter uma base mais forte? Isso me trouxe problemas, mas e o fato de ter feito parte da Autojun, de ter feito o ENECA me trouxe o quê? Em que sentido eu sou diferente hoje? Por exemplo, minha primeira oportunidade de estágio na Boreste, empresa na qual trabalhei 3 anos após formado: eu a conheci por causa do ENECA, pelo fato deles terem sido patrocinadores do evento! Através do viés da Autojun eu conheci o André Bittencourt, que foi o cara que me indicou para uma das empresas que trabalhei em Timbó (para a qual continuo prestando serviços) e que foi uma baita oportunidade. Olhando pra trás, eu tenho como certo que deveria ter me dedicado mais nas matérias iniciais do curso, mas do que eu abriria mão pra isso eu já não sei. Em relação às festas, acho que aproveitei o suficiente, sem exageros.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Depois de passada a fase de empresa júnior, ENECA e PAM, só fiz estágio. Via um pessoal estagiando em empresas, fazendo uns projetos legais, e também queria fazer aquilo. Foi sensacional e acabou permitindo descobrir e validar o que mais me agradava em trabalhar como engenheiro: criar e ver as pessoas usando os produtos que eu desenvolvi. Único problema é que você acaba perdendo, inevitavelmente, dedicação ao curso, mas julgo que consegui conciliar bem e que é possível. Acho que vale a pena fazer estágio, porque assim você começa a entender o que vai precisar aprender, para quê e por quê, fixando o conhecimento que de outra forma muitas vezes não faz sentido.

  • Qual área chamava mais atenção durante a graduação?

    Acabou que as áreas que eu me entendia mais eram relacionadas à informática. Inclusive fiz mestrado depois focando nisso. Eu gostava muito da parte de eletrônica também, mas era uma parte muito fraca do curso. Os professores de eletrônica que davam aulas para automação eram pesquisadores excelentes, mas era algo do tipo "como as cargas se movem dentro dos chips" e tal, algo muito específico e praticamente sem utilidade para quem usa o silício ao invés de desenvolvê-lo. Em termos de utilidade para a carreira a matéria de eletrônica contribuiu muito pouco. Fui aprender a fazer piscar um LED só no estágio! A eletrônica no curso me fez muita falta, e apesar de me chamar atenção, tive que aprender muito na marra e por fora. Hoje com o Arduino e a RPi talvez esteja mais fácil buscar esse conhecimento durante o curso.

  • Como era sua relação com as notas?

    Em relação às notas, era um aluno médio, muito por culpa minha de não me dedicar o suficiente. Nunca reprovei, mas passei por várias recs e eram emocionalmente pesadas para mim. Teve até uma vez que eu achei que não tinha passado na rec e amarguei o final de semana acreditando nisso, mas no fim o professor deu uma ajudinha. Outra situação foi no PAM, pois o que se falava é que, mesmo que você não consiga passar na disciplina avançada, a equivalente no curso é considerada automaticamente concluída. Descobri tarde que não era assim e acabou que as férias de julho daquele ano passei fazendo uma lista de exercícios que o professor do PAM me passou, da disciplina regular do curso que eu nem tinha visto, pra poder obter a aprovação.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Em nenhuma das situações que passei por contratação o IAA fez diferença. Influenciou certamente para entrar no mestrado. Em termos profissionais, acho que o IAA influencia muito pouco, talvez um pouco mais no exterior, mas não tenho certeza - sei que consta em alguns modelos de currículo de lá. O IAA em certas situações pode não refletir o aluno que você é e a sua dedicação, mas não deixa de ser um sistema de medição baseado em fatos, e nós como engenheiros de controle sabemos da importância de ter um sistema de medição confiável!

  • Teve alguma experiência fora do Brasil durante a graduação? Como foi essa escolha?

    Meu PFC fiz em Aachen. Pelo que sei muito antes de eu entrar no curso o Stemmer abriu esse contato, que passou um tempo meio fragilizado. Então um doutorando - o Alberto Pavim - teve uma iniciativa louvável e voltou a abrir portas pro pessoal da automação. Ele conseguiu retomar parcerias com institutos e professores na Alemanha e naquele ano acabaram indo uns 10 alunos da automação para lá fazer PFC e o estágio da sétima. Lembro que na época eu não sabia se seguia meu estágio na Boreste ou ia para Alemanha, o que parece uma decisão simples até, analisando hoje, mas na época na Boreste eu já trabalhava em um certo nível, então poderia seguir com um trabalho muito bom e fazer um PFC em outro patamar. Na Alemanha seria algo que nunca tinha visto, então não sabia se geraria um bom trabalho. No fim elaborei umas tabelas, com critérios e pesos, para auxiliar na decisão e me ajudar a perceber as prioridades, e por mais que eu tentava obter um resultado diferente sempre dava que era melhor ir para a Alemanha. E foi o que eu acabei fazendo - ainda bem! A experiência foi excelente, valeu muito mesmo. Quando eu voltei para o Brasil era uma época de crise (2008-2009) no mundo inteiro, não tinha muitas oportunidades para comparar e acabei optando por continuar na empresa onde fazia estágio, a Boreste. Era algo que eu conhecia e gostava muito de trabalhar, então na época foi ótimo para mim.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Eu participei da organização sim! Inclusive fui em várias edições antes e depois de me formar. Linguição é Linguição, não adianta, só quem já organizou pra dizer. O nosso foi lá no Green Park, que imagino que nem exista mais. Foi a 11ª edição, por ali a coisa começou a ficar grande. A gente pegou bem a época que estava crescendo, uma transição.. Acho que a edição um ano antes da minha foi a que estourou, surpreendeu bastante. Inclusive foi depois da nossa festa que começaram a rolar umas regras internas mais restritas, lembro que rolava muito de sumir cerveja. Lembro também que antes da festa tinha gente do curso tirando dinheiro do próprio bolso pra comprar cerveja com desconto. Em um episódio teve uma promoção no Angeloni, que tinha limite de 6 caixas por pessoa, e foi uma galera da turma lá passar tudo separado para conseguir o desconto - uniu bastante o pessoal. Todo esse esforço pra economizar centavos por latinha e no fim do evento um monte de cerveja (mais de mil latas) “sumiu”. Bati muito de frente com isso depois, fiz questão de alertar as organizações seguintes, e lembro até de surgir uma regra de a organização não poder mais beber na festa. As coisas estavam tomando proporções muito grandes, a partir dali precisávamos ser mais sérios, pois podia acontecer algo ruim. Lembro também que foi na nossa edição que surgiu o boneco do linguição! Cada edição vai ficando uma herança para as demais!

  • Como você começou a trabalhar home office?

    Eu estou prestando serviços como PJ. Comecei prestando serviço na empresa que trabalhava antes e no meio do caminho apareceu contato de uma segunda empresa, através de amigos da automação.

  • Tem parte negativa de trabalhar home office?

    O que é mais complicado é que você acaba ficando só em casa, faz menos contatos, se torna menos social. Não tendo ninguém pra conversar pessoalmente você acaba esquecendo de levantar, às vezes você esquece de comer, esse tipos de coisa (risos). A flexibilidade de local e horário no meu caso, porém, fazem valer a pena.

  • Como é teu dia a dia de trabalho na empresa SIAM?

    Na SIAM desenvolvo produtos eletrônicos, da concepção da ideia ao produto final, passando pela especificação do projeto, a parte de design da placa eletrônica, toda a programação da placa, montagem de protótipos... Fiz junto à equipe da SIAM mais de um produto seguindo esse mesmo caminho. São produtos voltados ao mercado de controle de acesso de condomínios e hoje estão espalhados principalmente pelo sul e sudeste. Continuo fazendo uma reunião presencial a cada duas semanas na empresa.

  • E como é o desenvolvimento da Brascontrol?

    A Brascontrol desenvolve semáforos e radares, os dois principais produtos. Nessa empresa entrei com o "bonde andando" e programo bastante em Python, tanto em projetos de hardware como em alguns serviços web. Uma vez por ano vou para SP para manter o contato com o pessoal de lá. Um dos meus amigos do curso trabalha lá, o que mais uma vez mostra a importância das atividades extra-curriculares e da rede de contatos durante o curso.

  • Como você faz para prestar serviço em duas empresas com projetos diferentes ao mesmo tempo?

    Eu divido minha semana entre as duas. No início eu dividia diariamente, de manhã para uma de tarde para outra. Depois fui aprendendo que chavear é muito ruim e comecei a trabalhar segunda, quarta, sexta e sábado pra uma e terça e quinta para outra. Ficou mais interessante, mas ainda não era o ideal. Atualmente eu não tenho bem definido, cada semana vou trocando os dias que trabalho para cada projeto de acordo com a demanda e tentando reduzir o chaveamento, claro respeitando a quantidade de horas acordada com cada uma. Às vezes consigo fazer a troca apenas uma vez na semana.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    É muito difícil responder isso. Quando a gente tá no curso só pensa em vida profissional, é mais fácil responder essa pergunta. Eu acabei de me casar, quero ter filhos, aí o profissional passa a ser apenas uma parte do planejamento para o futuro. Eu tenho vontades conflitantes dependendo do momento. Uma das vontades que aparece com frequência é a de ter mais uma experiência no exterior. Às vezes tenho vontade de ficar no Brasil mesmo, devolvendo o investimento da minha formação, gerando riqueza aqui. Às vezes tenho vontade de empreender. Enfim, não tenho um objetivo específico definido no momento: onde estou hoje tenho uma condição interessante, especialmente por gostar do que eu faço e por trabalhar com pessoas sérias. Acho isso legal, não ficar preso, não criar raízes, ter flexibilidade para agarrar, e talvez criar, oportunidades.

  • Teria alguma dica (pulo do gato) para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Ser bom na parte técnica é fundamental, mas o que as empresas buscam vai além disso. Tive e ainda tenho dificuldades por causa de coisas que parecem simples e vejo isso também em alguns profissionais: às vezes têm tecnicamente boas ideias e trabalham bem nelas, mas acabam não pensando no cliente. O cliente não tem que se adaptar ao o que o desenvolvedor está fazendo, na verdade é o contrário. Nisso entra muito sua capacidade de ser flexível e ter a maturidade e o conhecimento para perceber as demandas do produto e fazer da melhor forma sob a ótica de quem vai usar aquele produto - é importante ter uma visão holística da coisa. Claro que em empresas maiores talvez o engenheiro não deva se preocupar com isso pois alguém se preocupa - mas no meu caso em que participo do desenvolvimento do produto como um todo preciso sempre procurar ter isso claro no dia a dia. O bom engenheiro também sabe gerenciar o seu tempo, o tempo dos outros, suas tarefas e o seu trabalho. Julgo que além de procurar se aperfeiçoar na parte técnica, os recém-formados devem buscar melhorar nesses pontos para terem sucesso. Você organiza os arquivos que gera de forma que os demais membro da empresa possam os encontrar sem precisar de você e entender para o que servem? Sabe usar um controle de versão da forma correta? Consegue se expressar por escrito visando orientar quem vai utilizar o que você desenvolveu? Usa algum método na hora de desenvolver um projeto?

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Eu tenho orgulho de ter feito um curso cujo departamento é o DAS. Não sei como está hoje, mas no meu tempo de graduação percebia que o pessoal de outros cursos tinha professores muito inacessíveis. No DAS tínhamos professores acessíveis, que conversavam com a gente de igual para igual, humildes. O DAS é uma família, os caras são fora de série e eu tenho muita admiração pelo departamento e por quase todos os professores - tinha só um professor que quase sempre terminava a aula meia hora, uma hora antes, e não parecia muito preocupado com o nosso aprendizado, mas era um caso isolado. Em relação aos demais só elogios. Só de falar deles já me deu uma saudade daquele tempo - são caras que tenho certeza que se precisar hoje posso entrar em contato.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    O curso é muito diversificado, o leque é muito grande, realmente. Apesar de isso parecer ruim em princípio, eu vejo de forma muito positiva. Os trabalhos na vida real raramente se concentram em uma especialidade só - em várias situações no trabalho eu “me dei bem” por ter esse conhecimento mais abrangente. Se você pode se especializar em algumas coisas é ótimo, mas uma coisa não anula a outra. Você pode viver o melhor dos dois mundos. Um conhecimento que utilizei em todas as empresas que trabalhei até hoje, por exemplo, e que à primeira vista não parece uma atribuição de um engenheiro, é o de sistemas operacionais, adquirido na disciplina com o Rômulo e depois aperfeiçoado no mestrado. Foi e continua sendo um baita diferencial.

  • Como foi sua experiência de mestrado no departamento?

    Foi muito boa - valeu muito a pena ter feito mestrado no DAS. Serviu como complemento do curso, podendo focar na áreas que mais gosto. O Montez foi meu orientador e o Rômulo meu co-orientador, e eles foram muito prestativos, me ajudaram muito. Vejo com outras pessoas próximas que existem alguns programas em que os professores não são acessíveis, mas no meu caso foi o oposto. Já utilizei conhecimentos adquiridos no mestrado diretamente na vida profissional, algo que nem sempre é fácil perceber. Recomendo o mestrado do DAS a todos do curso que pretendem estender a vida acadêmica!

  • Qual o maior impacto que o engenheiro de controle e automação traz hoje pro mercado de trabalho?

    Não sei dizer em relação às outras áreas, mas na parte de sistemas embarcados existe uma demanda clara por pessoas que se envolvam de forma abrangente naquilo que estão fazendo. Digo, no sentido de entender a coisa completa, não de ser um programador que faz uma coisa específica e que se preocupa só com aquela parte do sistema. Vejo demanda por profissionais que peguem o projeto e realmente entendam tudo o que está acontecendo, colaborando no resultado final de forma concreta. E neste ponto julgo que o engenheiro de controle e automação tem muita força e pode contribuir - ele acaba tendo noção de todas as partes do projeto e isso melhora muito seu desempenho no mercado de trabalho.

Mensagem Final aos estudantes

As pessoas que você conhece no curso, professores e especialmente os amigos da graduação, vão te dar perspectiva e te fazer pensar em coisas novas e de formas diferentes. Vão abrir sua cabeça e podem mudar sua vida para sempre. Eu digo isso pois acho que tem muito graduando que pensa que o curso se resume às matérias e à sala de aula, mas às vezes vale a pena você deixar de estudar para sair com os amigos, pois isso pode te abrir portas que nem imaginas. Conheci muitos caras bons na automação nos quais me espelho até hoje. É importante viver a universidade.