Entrevista

01/03/2018


Como primeiro entrevistado de 2018 do Alumni, trazemos o Lucas Casagrande Neves, formado em 2009 e desde então trabalhando no mundo do empreendedorismo. Nessa entrevista ele nos fala um pouco sobre sua vida, como foi a experiência universitária e sobre como empreender.

  • Quando escolheu a automação?

    Foi aos 45 minutos do segundo tempo no terceirão (risos). Sempre gostei muito de eletrônica, mas não queria engenharia eletrônica. Então fui estudar sobre os cursos de engenharia. Automação Industrial sempre me chamou atenção, e então decidi pela Engenharia de Controle e Automação. Posteriormente, durante o curso que me interessei pela Robótica, e cheguei a participar de um grupo de futebol de robôs, que eram na verdade mini robôs. Eram uns cubinhos com uma câmera em cima, e você colocava c (mini robôs). Éramos bem ruim (risos), o grupo estava começando. E pra piorar, tínhamos pouco dinheiro e pouca infraestrutura. Mas foi bom para testar nossa capacidade de “improvisar”. No meu PFC, resolvi continuar trabalhando com robótica, bem como no meu mestrado. Infelizmente acabei não utilizando a robótica diretamente na minha carreira, mas valeu bastante a pena (risos).

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Sofri um pouco para entrar. Fiz dois anos de cursinho e, logo que entrei pensei: "agora que eu entrei vou focar nisso!". E foquei muito na vida acadêmica mesmo. Por opção, não fiz estágios em empresas durante a faculdade. Fiz somente em laboratórios, com projetos de engenharia, dentro da universidade. Era um foco meu, eu queria aquilo. Sabia que estava perdendo experiência profissional em empresa, mas me foquei na graduação.Namorei durante 13 anos, e depois casei. Logo, é de se imaginar que estava namorando durante toda a faculdade, apesar dela morar longe (Pelotas-RS). Portanto, não era muito de ir em festas. Somente confraternizações de amigos. Basicamente estudava, fazia estágio e viajava quando dava. Atrasei 6 meses para me formar, pois fui estudar inglês no Canadá, na 8ª fase. Na 10ª, fiz meu PFC na França. Eu era uma referência acadêmica na minha turma. Era aquele cara (um dos únicos) que copiava a matéria (nem sei se fazem isso hoje em dia...rsrs). Quando fui para o Canadá, minha turma (04.1) entrou em pânico, pois a outra pessoa que copiava não costumava liberar o xerox para a turma. Chegaram a fazer uma campanha para liberar a cópia do caderno, mas até onde sei foi em vão (risos). Por muito tempo a cópia dos meus cadernos ficaram rodando no curso.

  • Por que continuou por dois anos no cursinho? Você via a automação na UFSC como a única opção?

    Sim, era foco mesmo. Eu sou do interior de São Paulo, onde fiz meu terceirão. Na verdade, praticamente não fiz, pois só namorava e tocava bateria em bandas. Logo, não estudei. Então, fui morar em Curitiba para fazer cursinho. No primeiro ano passei para Engenharia Mecânica na UFSC, mas decidi seguir tentando Automação. Acho até que teria me dado bem em Mecânica também. Escolhi Automação na UFSC pela relevância do curso e por querer fugir de São Paulo, para onde muitos parentes iam. Mesmo assim, acabei prestando Unicamp e USP. No segundo ano de cursinho até passei para a segunda fase nas duas, mas assim que saiu o resultado da UFSC nem fui fazer. Vim direto para cá.

  • Aqui em Floripa estamos longe dos polos industriais. Você se arrepende de não ter feito um curso em São Paulo e já se ver inserido por lá?

    Não me arrependo. Atualmente a informação está disponível em todo lugar. Só precisamos saber acessá-la. Talvez se eu tivesse seguido para área de automação industrial teria me arrependido. Mas hoje não me arrependo.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Não usei meu IAA pós formado. Mas é pessoal, pois cada um tem seu objetivo de carreira. Tenho amigos que focaram mais em estágios em empresas, prejudicando um pouco o IAA. É um caminho interessante. Eu optei pela academia, e o IAA veio em consequência. O mais importante, independente da do caminho seguido, é o “comprometimento”, mas é também importante saber nossas limitações. Eu, por exemplo, não sou tão bom em desenvolvimento de software. E sempre soube disso. Então estudava mais, pois sabia que não era minha praia. Mas obviamente, acabei indo para outras áreas que eu sabia que era melhor. Pensando bem, talvez o estágio na França eu não teria conseguido caso meu IAA fosse mediano. Mas depois que comecei a empreender, não utilizei meu IAA. Aqui na empresa, quando contratamos alguém, tentamos identificar pessoas com mais “comprometimento” e “brio”. Olhamos o IAA, mas encaramos como bônus. Encaramos assim, pois a experiência mostra que, com comprometimento, conseguimos alcançar o conhecimento.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Tinha mais dificuldade com as matérias que envolviam programação. Logo, tinha que estudar mais e achar algum amigo que era melhor na área. Banco de Dados foi uma matéria ruim pra mim. Outra que não fui muito bem foi Probabilidade e Estatística.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Não me arrependo de nada. Mas pensando hoje, talvez eu deveria ter feito algumas matérias da administração. Me ajudaria bastante hoje em dia. Do que me orgulho? Sem dúvida de ter fundado essa empresa, em um ambiente tão hostil como o Brasil para empresas nascentes. Mas demorou um tempo para aprendermos como devem ser as coisas. Tínhamos outra ideia sobre o que é Inovação. Hoje temos convicção que Inovação = Nota Fiscal emitida. Pois de nada adianta desenvolver algo novo, se ninguém vê valor produto (ou seja, ninguém pague). Isso aprendemos pela dor. A academia ainda me encante.. Mas hoje tenho uma cabeça muito diferente. Pesquisa pura tem o seu valor, mas o maior desafio é fazê-la chegar ao mercado, gerando valor para alguém. Para isso, há muito mais envolvido que somente desenvolver tecnicamente o produto.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Ajudei a organizar sim. Mas durante a festa era da turma do pão com linguiça. Vendemos cerca de 4000 ingressos, mas aconteceram muito problemas. Chegaram a embargar a espaço do evento (Life Club), um dia antes da festa e tivemos que transferir a festa para outro dia. Para piorar, choveu muito no dia da festa. Mas mesmo assim foi suficiente para pagar a formatura.

  • Qual foi sua trajetória após sair da faculdade?

    No semestre seguinte já estava fazendo mestrado. Fiz durante dois anos. Quando eu terminei, já estávamos tocando o projeto do marca-passo. Naquela época a empresa era na sala de casa. Morava eu e o Jonatas. De dia mestrado, a noite o nosso projeto.

  • Você pode explicar um pouco o que a InPulse faz?

    A InPulse possui uma solução completa para a cardiologia veterinária, envolvendo equipamento, software e sistema de telemedicina capaz de entregar em até 3h um laudo de eletrocardiografia (ECG) para qualquer lugar do Brasil. Todas as nossas soluções são desenvolvidas pela própria empresa. Contando a história desde o começo, os 3 sócios (eu, o Jonatas e o Gabriel) nos formamos juntos na Automação. Eu e o Jonatas fizemos o estágio juntos na França. No mesmo período, o Gabriel estava estagiando na GE, na Alemanha. Voltamos para o Brasil em 2009, bem na época da crise. Ficamos na dúvida entre mercado de trabalho e capacitação. Decidimos nos capacitar e entrar depois para o mercado de trabalho. Fizemos mestrado em robótica, seguindo na Automação. Assim que decidimos começar o mestrado, alugamos uma casa no Campeche de frente pro mar. Era casa, dunas e água. Os três tinham uma cabeça bastante empreendedora. Minha família e do Jonatas são de empreendedores, mas a família do Gabriel não. Porém, sua motivação com o empreendedorismo era tanto quanto a nossa. Decidimos então tocar um projeto juntos. Seria uma iniciativa para testar a equipe. Ou seja, se éramos capazes de trabalhar juntos. Fomos atrás de uns amigos que possuíam uma startup na área de controle de tráfego, incubada na ACATE. Delimitamos um projeto, e ficamos 6 meses trabalhando. Totalmente no risco. Depois de vários meses trabalhando, a empresa fechou e acabamos não recebendo nenhum dinheiro pelo projeto. Porém, o mais importante para nós 3 foi saber da nossa capacidade de sermos sócios e resolvermos problemas técnicos, pois tínhamos expertises complementares. Tínhamos que dar um próximo passo como empreendedores. Consideramos muitas áreas, inclusive automação de academia, mas a biomédica era o que nos encantava. Meu sogro é cardiologista e está sempre em congressos e contato com pesquisas. Certa vez se deparou em um dos congressos com pesquisadores desenvolvendo um marca-passo implantado no estômago para controlar obesidade. Certa vez no Campeche, sem muita expectativa, apresentei essa ideia para o Jonatas e Gabriel. Foi quando eles compraram a ideia e decidimos que era isso que tínhamos que fazer. Por se tratar de um projeto bastante ousado, primeira atitude que tivemos, foi verificar se éramos os únicos a acreditar nessa ideia, ou mais alguém acreditava que era possível. Então submetemos a ideia ao programa Sinapse da Inovação e, por incrível que pareça, foi aceito. A partir daí, abrimos a empresa em 2011 e iniciamos esse projeto. Esse é um projeto que atualmente estamos tocando junto com uma grande universidade grande. Está atualmente sendo testado em animais. É um projeto bem ousado, que necessita de muito dinheiro e tempo. Ao longo do tempo, percebemos a necessidade de fazer a empresa girar, ou seja, vender produtos e serviços. Foi quando decidimos aplicar nossos conhecimentos e desenvolver produtos para área veterinária, pois é um mercado mais menor e fácil em termos de regulamentação, comparado ao médico. Iniciamos vendendo os equipamentos desenvolvidos, mas atualmente nossa prioridade é vender serviço através do nosso sistema de telemedicina. Vendemos laudos de ECG através do nossos sistema. Em suma, colocamos “de graça” nosso equipamento em uma clínica que não possui especialidade de cardiologia, e a clínica paga por laudo requerido. Continuamos vendendo o equipamento, pois possuímos uma das melhores soluções do mercado. Em 2018 lançaremos 2 novos produtos. Um monitor multiparametros e um medidor de pressão arterial. Ou seja, estamos expandindo além da cardiologia e ampliando o mercado. Temos alguns outros projetos da humana em desenvolvimento, como por exemplo o detector de neuropatia autonômica, que é uma doença decorrente do diabetes, o qual já foi testado no HU e na Inglaterra. Porém, não temos acelerado os desenvolvimentos da humana pois precisamos crescer no mercado veterinário para a empresa ganhar corpo.

  • Quem toca o negócio na InPulse hoje? Continuam você, o Jonatas e Gabriel?

    Sim. Temos um outro sócio, o doutor Luís Felipe, cardiologista veterinário que nos ajudou em todo processo de construção das ideias da veterinária. Atualmente ele está nos Estados Unidos como pesquisador e terminando doutorado. Porém, quem administra a empresa diariamente somos nós três. Eu sou o CEO e Diretor Administrativo/Financeiro. Além disso, gerencio a parte de produção dos equipamentos, envolvendo compra de insumos, fabricação, expedição, etc. O Jonatas é o nosso Diretor Comercial e de Marketing. É responsável pelas vendas, relação com representante, inbound marketing, etc. Ele também gerencia nossa telemedicina. O Gabriel é o nossa Diretor Técnico. É responsável por todo o nosso desenvolvimento, tanto pré-lançamento, quanto pó-lançamento, como correção de bugs e evoluções nas soluções. No início, quando começamos, tecnicamente éramos complementares. O Jonatas desenvolvia software, eu hardware, e o Gabriel atuava mais em integração software/hardware. Hoje em dia, nosso desafio é passar o que aprendemos para a equipe, sempre esperando que eles sejam infinitamente melhores que nós (risos).

  • Como está o mercado no futuro, para quem tá saindo da faculdade agora.

    Acredito que o mercado tenha melhorado para quem está se formando. Florianópolis por exemplo tem se destacado com empresas novas de tecnologia surgindo. O que abre bastante as opções para recém formados. Para quem quer empreender, as coisas também estão melhorando. Nosso ecossistema obviamente está ainda muito longe do que encontramos no mundo (Vale do Silício por exemplo), mas existe bastante oportunidade de soluções locais que possibilitam crescer e alcançar os mercados de fora. O importante é saber que o caminho é árduo. Se a ideia é retorno financeiro rápido, então sugiro concurso ou emprego. O que me desmotiva em “ser empregado” é ter um teto, de salário. Pois basicamente vendemos horas de trabalho, e isso é finito. No empreendedorismo é diferente. Os risco são altíssimos, mas não temos teto. O limite depende de mim. Mas é uma montanha russa.

  • Durante a graduação, o empreendedorismo já te chama atenção?

    Não tanto. Tínhamos oportunidades, por exemplo, de entrar em empresa júnior ou Pet, mas nunca me chamou atenção, pois pelo o que eu ouvia, continuava sendo uma coisa acadêmica.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Me vejo com a InPulse atuando no mercado médico, com a veterinária sendo nosso trampolim. Para parte médica o desafio é grande, mas é esse nosso objetivo. Temos tecnologia para isso, visto que é muito mais difícil desenvolver para a veterinária. Tente pedir para um animal ficar completamente parado por 3 minutos, por exemplo.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Sempre tive apoio. Mas eu era bem próximo deles. Era bem próximo do Ubirajara e Eugênio. Não era muito próximo do Júlio, pois não me envolvia muito com petróleo.Por ser próximo do Ubirajara, consegui estágio na 4ª fase. Depois fiquei estagiando até o final, mas sempre com projetos com o Ubirajara. Participei de projetos com levitação magnética, por exemplo. Sempre dentro de laboratórios e acompanhando a turma de controle.

  • E o PFC, foi na área de controle? Laboratório ou Empresa?

    Sim, na área de modelagem e controle. Fui para um laboratório dentro da universidade de Toulouse, onde trabalhei com Modelagem e Controle de Robôs Paralelos. O projeto tinha por objetivo fazer com que o robô conseguisse atingir uma aceleração de 100 vezes a aceleração da gravidade. Na época, elaboramos uma estratégia de controle que atingia 30 vezes, o que era muito acima do conseguido anteriormente, Infelizmente não conseguimos implementar fisicamente no robô antes de eu voltar para o Brasil. Quando entrei nesse laboratório, já haviam passado alguns estagiários de outras partes do mundo, e todos haviam “empacado” no controle. Acredito ter deixado uma boa imagem dos brasileiros na França (risos).

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Olha, relaxa por enquanto. Não que seja muito fácil (risos), mas é no sentido de escolher o que fazer. Se dedique e se permita passar pelas experiências que automaticamente você vai identificar o que gosta ou não gosta. Nosso curso é muito amplo. Podemos atuar em muitas áreas, como, mercado financeiro, consultoria, robótica, automação industrial, e por aí vai. Se puder ter a experiência de empresa e academia, ótimo. Mas independente de qualquer coisa, se dedique!

Mensagem Final aos estudantes

1)Comprometa-se! Não precisa saber tudo, basta ser comprometido.2)Para quem quer inovar: Inovação = Nota Fiscal emitida!