Entrevista

24/05/2017


Fala galera, como entrevistado de hoje, trazemos o João Bernartt fundador e CEO da Chaordic. João entrou na automação no primeiro semestre de 1998 e se formou em 2002, logo depois fez mestrado na automação e durante o mestrado participou de um desafio da Netflix onde surgiu a Chaordic. Nessa entrevista, João fala um pouco sobre a experiência pessoal, profissional, futuro, linguição além de dar muitas dicas para todos os graduandos!

  • Por que escolheu automação?

    Antes de entrar na universidade eu sabia que queria fazer engenharia. Achei que a engenharia mais interessante seria a automação por ter uma abrangência maior. Eu poderia ter noções da parte elétrica, mecânica, informática, controle e robótica.

    Algo que me atraiu foi a dificuldade. Na época, era o curso mais difícil de entrar na UFSC. Era mais difícil que medicina. Então, se existisse uma engenharia que fosse mais difícil que automação, eu teria feito a outra engenharia pelo desafio de passar. Os 10 primeiros que passavam em automação, na época, estavam entre os 20 melhores do vestibular.

  • Gosta ou gostava de estudar?
    Sempre gostei e continuo gostando.
  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Nós sempre estudamos muito. Isso era algo que só quem estava na automação aprendia: Você não conseguia estudar, dependendo da matéria, de um dia para o outro. Isso não existe. Você vai pegar uma prova de Mecânica Geral, Controle, Sistemas Lineares, as provas do Júlio, Circuitos, se você estudasse um ou dois dias antes, você não faria a prova. Você tinha que ficar uma semana antes estudando.

    Eu geralmente não prestava muita atenção nas aulas, eram raras as aulas que eu prestava atenção e gostava, mas eu sempre estudei muito sozinho em casa. Então, a minha forma de consumir o conteúdo e aprender na universidade, sempre foi uma etapa sozinho de estudos e uma etapa junto com os colegas fazendo exercícios.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...?
    Eu me envolvi com várias atividades extracurriculares. Eu ajudava o Centro Acadêmico, não era quem puxava, mas sempre estava envolvido. Já a empresa júnior, entrei no segundo semestre e só fui largar quando saí da universidade. Também fui monitor de física e fiz estágio na Fundação Certi praticamente o curso inteiro. Em paralelo a isso também fazíamos bastante festa, bebíamos, aliás, a minha turma que organizou o primeiro Linguição da Automação.
  • A pergunta que todos fazem, IAA (Índice Acadêmico) importa?
    Eu acho que IAA não importa. Muito mais você ter uma experiência mais completa na universidade, em termos de atividades extracurriculares, de você poder absorver uma série de outras experiências, do que você ficar o dia inteiro trancado no quarto para ter um IAA super alto. Eu tenho certeza absoluta que o IAA não importa.
  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?
    Sim, mas não para o Engenheiro de Controle e Automação em específico, mas para qualquer engenheiro. Para alguém fazer engenharia, ele precisa gostar de matemática, física, e, hoje em dia, no mínimo, entender os princípios básicos da informática. Não que ele precise programar, mas ele precisa entender o que é uma estrutura de dados, um algoritmo, um cálculo numérico.
  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Na minha época o que foi mais complicado foi Mecânica Geral. Era uma matéria da física sobre entender o universo e calcular/modelar isso. Foi a matéria que eu mais gostei e foi a mais difícil. Circuitos e Sistemas Lineares com o Júlio também foram difíceis.

    A dificuldade nas matérias do Júlio eram que: a matéria poderia ser complexa caso o professor quisesse, no caso, ele sempre queria. Ele não falava o português direito, então você não entendia direito o que ele falava e na prova tinham 3 questões que demoravam das 7 horas da manhã até às 13 horas da tarde.

    Por um aspecto era muito legal, porque te forçava a ficar concentrado por um período extenso de tempo e isso te cria casca. Eu não me arrependo de nada. Eu gostava de ser desafiado.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?
    Informações de mercado, não, mas bolsa e estágio, sim. Quando fui morar na França, eu morei na casa do Jean Marie por um mês. Ele não só conseguiu um estágio na Airbus, como me acolheu na casa dele. Na minha época os alunos eram muito amigos dos professores. Eles sempre ajudavam muito a conseguir bolsas, a maior parte delas eram os professores que arrumavam.
  • Você acredita que os professores te prepararam para o que? Para o meio acadêmico, para a indústria…

    Como era tudo muito difícil, os professores não aliviavam, maioria dos professores eram como o Júlio. Você sofria muito, mas isso te preparava, não para uma profissão específica, mas para dificuldade, para o desafio de entender um problema, focar e resolvê-lo.

    Acredito que isso deveria continuar. Ser um curso muito difícil da galera passar, continuar e terminar, porque isso vai formar bons profissionais.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    A minha turma que inventou o Linguição da Automação. Nós que organizamos a primeira edição em 2002.

    A festa não era grande, mas o desafio era outro. Ninguém, naquela época, iria numa festa de alguém da automação. Esse era o desafio. Todo mundo era muito nerd. O restante da universidade via a automação como os caras nerds, esquisitos, que sem dúvida, não tinham condição de atrair gente para uma festa.

    Só que tinha um grupo chamado “Guerreiros da Automação”, e esse grupo tinha música, hino. Eram os caras mais surreais e eles conheciam muitas mulheres.

    A estratégia pensada para festa dar certo, era a seguinte: Comida e bebida barata, já que ninguém tinha grana, música animada e trazendo as mulheres nós vamos conseguir trazer os caras. O primeiro deu certo, mas deu apenas umas umas 300 pessoas e não deu lucro, porém teve uma repercussão muito positiva e deixamos um legado que dura até hoje. Começou meio dia, teve futebol à tarde com os professores e a festa começava à noite.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?
    Eu acho que você precisa ter uma formação "T Shaped". O que é uma formação "T Shaped"? O "T" significa a ideia de ter uma visão ampla, mas que você se aprofunda em algo. Se você fica raso em tudo, de fato, você não vai conseguir entregar nenhum tipo de resultado. Mas se você tiver uma visão ampla das coisas e se aprofundar em algo, que é o modelo "T Shaped", você vai ter vantagem competitiva para alguém que é só o "I", que só tem a verticalização de um conhecimento e que não tem uma abrangência.
  • Você acha justo o piso salarial de um engenheiro quando ele sai da faculdade?

    Acho que essa pergunta é inválida. Dependendo do cara pode ser muito, dependendo do cara pode ser pouco. Não é o curso somente que faz o seu salário, é o que a pessoa consegue entregar de valor naquela companhia. A responsabilidade pela sua formação não pode ser colocada só na universidade. Você não pode ser apenas o que a faculdade te proporcionou. Você precisa se transformar para ser um bom profissional durante esse período. Talvez, por isso, IAA não seja tão importante.

  • Você acha que o engenheiro de controle e automação saído da UFSC está pronto para enfrentar o mercado de trabalho?
    Não sei como está hoje, mas na minha época, todo mundo que se formava se dava bem onde quer que fosse. O cara tinha apanhado tanto que ele sempre se destacava.
  • Quando e porquê você decidiu que área seguir depois de formado?

    Durante a graduação eu não direcionei muito para a área de informática. Eu, por exemplo, apesar de ter uma empresa de software, eu nunca gostei de programar.

    Meu PFC foi feito na França, em um projeto do Jean Marie na AirBus. Lá eu comecei a entrar para o mundo do software. Na volta do PFC, comecei a trabalhar como engenheiro na Fundação Certi e também iniciei o mestrado.

    Demorei muito para concluir o mestrado, já que queria fazer algo prático e tinha o pensamento de que da minha pesquisa criaria a minha empresa. Quando descobri o que eu gostaria de fazer, nascia a semente da Chaordic.

    Participei, junto com a minha equipe, de um desafio da Netflix, para melhorar a performance do sistema de recomendação de filmes. Começamos a ir super bem. O resultado do meu mestrado foi a participação no desafio e o resultado que alcançamos lá. Logo em sequência conseguimos transformar isso em produto. Construí a empresa. Alavancamos 1 milhão de reais em 4 editais de fomento e consegui colocar o time para trabalhar dentro da Certi. E assim nasceu a Chaordic.

    Eu sempre quis ter a minha própria empresa, por isso entrei na empresa júnior. Eu abri uma outra empresa durante a universidade de vending machine de café. A primeira máquina de café dentro da UFSC foi minha. A máquina de café da BU foi minha até alguns anos atrás.

  • Como você se vê daqui a alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?
    Eu acredito que vou continuar trabalhando como empresário, na área de internet, principalmente associado à "Data mining" e "Information Retrieval". Nada muito diferente com o que trabalho hoje.
  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?
    No meu caso, eu deveria ter me aprofundado mais na área de ciência de computação, porque seria mais útil pra mim hoje. Não que o curso, em si, deveria ter uma ênfase na área de informática.
  • Teria alguma dica (pulo do gato) para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Assuma a responsabilidade pelo seu sucesso e pelo seu insucesso. Não fique com essa de: O curso não me preparou, o mercado está ruim. A realidade é essa. Não tem coisa mais fácil de transformar você num cara que não vai ser feliz profissionalmente, do que você não assumir responsabilidade do seu sucesso. Você é o principal responsável pelo seu sucesso.

    Não coloque a culpa de eventuais fracassos temporários no externo. Coloque em você, para você aprender. Não tem ninguém com sucesso que não falhou, que não trabalhou pra caramba. Geralmente quem assume a responsabilidade pelo seu fracasso, aprende. E da próxima vez não fracassa novamente.

  • Do que você lembra do currículo quando estudou, quais sugestões você daria para complementar ou alterar?

    Hoje eu daria mais ênfase em informática, os fundamentos da computação, porque o mundo está, cada vez mais, dependente da informática. Da mesma forma com que a Matemática e a Física são os fundamentos para as disciplinas da engenharia, eu diria que, hoje, a computação, nos seus termos fundamentais, seria uma terceira perna.

    Você não vê um engenheiro que não esteja fazendo o seu trabalho na frente de um computador ou dentro de um software complexo. Então, como você vai ter que fazer o seu trabalho de engenharia dentro de uma ferramenta digital, você precisa entender como ela funciona. Você precisa entender mais profundamente sobre a teoria da computação para ser um engenheiro, e isto é diferente de saber programar.

    Olha só que interessante, lembrei agora, hoje na reunião de manhã, eu usei conhecimentos que eu tive na aula de redes pra convencer um cliente sobre a arquitetura de software, estava explicando as 7 camadas da internet pra ele.

  • Das matérias, qual você achou irrelevante para o mercado de trabalho?
    Isso eu acho que é muito particular. Cada um tem a sua história no mercado de trabalho, mas acredito que todas as matérias seriam relevantes se fossem dadas direito. Todo conhecimento é válido. Se eu pudesse alterar alguma coisa, não daria tanta ênfase em controle, me aprofundaria mais nos conceitos da ciência da computação. Já sobre o método pedagógico eu mudaria tudo.
  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    O meu conselho para um calouro seria o seguinte: Tenha clareza do que você gosta e do que você não gosta de fazer. Do que você gostaria de entregar como resultado do seu trabalho pra sociedade. Sei que isso é difícil com 17 anos, mas busca tentar enxergar o que de fato você ama, o que você não ama, para não direcionar a tua vida para uma coisa errada.

    Tenha consciência daquilo que você faz bem e daquilo que você não faz bem. Quais são seus pontos fortes e pontos fracos. Entenda também quais as oportunidades e ameaças dentro do teu cenário. Tenha essa visão ampla do que está acontecendo no mundo. Tenha disciplina, você só vai aprender e evoluir se você tiver disciplina.

    Quando escolher um caminho, depois de fazer todas essas avaliações, tenha clareza que o caminho não vai ser fácil. Você vai enfrentar dificuldades. Vão ter decepções. Você vai errar. Você vai falhar. Mas se aquilo que você acredita é algo forte dentro de você, continua, que em algum momento, você vai chegar lá. Você precisa ter comprometimento, resiliência, que se você trabalhar direito, se desenvolver, e se o seu objetivo for verdadeiro, você vai chegar lá.

Mensagem Final aos estudantes

Vocês nem começaram a vida de vocês. Vocês estão na universidade, vivendo a melhor fase da vida, podendo fazer bagunça, sem responsabilidade. Tudo para aprender, todo o caminho para escrever. Não cabe desmotivação nessa fase da vida de vocês. Não existe isso.

É o momento para vocês acharem que podem conquistar o mundo. Vocês podem errar. Vocês podem mudar. Não se vitimizem. "Ahhhh, o curso não me preparou, o mercado não está bom." Esquece isso. Existe um monte de curso profissionalizante que você pode fazer.

Praticamente todo mundo que está se formando na universidade fala inglês. Vocês podem morar em qualquer lugar do planeta. O mundo é muito grande e está cheio de problema para se resolver. Vocês foram treinados, justamente, para resolver problema.

Não cabe desmotivação, com 22 anos, saindo de uma universidade federal. Se vocês estão desmotivados, quem que vai estar motivado? Vocês precisam sair com uma confiança gigante.