Entrevista

09/05/2018


Já imaginou trabalhar em uma das maiores companhias de jatos comerciais do mundo? Quer saber como é? Nosso entrevistado de hoje nos mostra os caminhos que ele percorreu durante e após a faculdade e como chegou até lá. Confira a entrevista do Guilherme Althoff!

  • Por que escolheu automação?

    A gente é muito imaturo pra escolher um curso de graduação. Eu me lembro que em 98 (quando me formei no terceirão) e praticamente não mexia com computador, poucas pessoas tinham acesso a internet . Eu sempre gostei da área de exatas. Pensei comigo: "bom, deixa eu entender o que esse pessoal faz nesse curso aí". Eu tinha um grande amigo que cursava automação; ele me deu muitas dicas e incentivos. O curso também tinha uma questão interessante na época que era ser o curso mais difícil de entrar. Obviamente que não foi por isso que eu escolhi, mas foi o desafio a mais que motiva também. Mostra que o curso é atraente pra bastante gente boa. Bom, mas daí esse meu amigo me incentivou bastante, me deu algumas dicas e na época eu estava em dúvida entre civil e automação, mas felizmente não fui pra civil, porque não teria sido uma boa escolha (risos), hoje consigo ver isso. Na época esse meu amigo, o Fábio Chaves, era bolsista do projeto Roboturb e ele até me abriu as portas pra participar desse projeto de iniciação científica.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu não era um cara muito festeiro, marcava presença em uma ou outra festa. Participei do Linguição da minha turma (criamos a logo atual do Linguição, turma que formou em 04.1). Era de estudar bastante, mas me divertia também. Foi um período bom da minha vida, com certeza.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...?

    Basicamente fiquei nessa iniciação científica que meu amigo abriu as portas, no projeto Roboturb, por uns 2 anos, e depois eu comecei a fazer estágio. Trabalhei em micro empresas daqui, uma chamava Brame Automação (que acredito que exista ainda hoje), depois trabalhei numa que se chamava Brasmap, que depois que eu saí mudou de nome e virou AQX ou AQTECH, não tenho certeza. Em todas essas oportunidades trabalhei com desenvolvimento de software embarcado.

  • Como foi seu PFC?

    Na época do PFC eu queria ir pra fora do Brasil, investiguei algumas oportunidades e daí um dos meus colegas, hoje professor do DAS, o Fábio Baldissera, foi fazer o PFC na Alemanha, uma oportunidade que conseguiu com o professor Cury na época. Como ele fez um trabalho muito bom lá, o pessoal confiou na indicação e acabei indo pra lá pra dar continuidade no bom trabalho que ele fez. Foi uma boa experiência pessoal. A experiência internacional traz uma bagagem enorme, tanto pessoal quanto de preparação pra vida. Você consegue abrir a cabeça, sai de uma visão bastante limitada de mundo e vê como é o mundo lá fora.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Creio que o IAA não é tão importante no momento em que se vai para o mundo corporativo. O que importa mais é o quanto que você absorveu e o que consegue transformar aquilo que se aprendeu como conhecimento em habilidades para por em prática. Eu, por exemplo, quando vou contratar alguém não peço IAA da pessoa. Talvez para uma carreira acadêmica seja um pouco mais relevante, pra quem vai querer fazer um mestrado, doutorado. De qualquer forma, a nota não é um dos fatores importantes que olhamos na hora de avaliar alguém para contratar. Eu tive um bom IAA, mas o que fez a diferença era o conhecimento absorvido, e não a nota em si.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Ajudei a organizar este único evento que participei, foi com o pessoal que formou em 04.1. Foi muito legal! Me diverti à beça!

  • Como surgiu essa oportunidade de ir para a Embraer?

    Antes de entrar para Embraer trabalhei um pouco na Siemens, em Curitiba, com desenvolvimento de software para centrais telefônicas. Foi quando fiquei sabendo que havia um processo seletivo para o Programa de Especialização em Engenharia da Embraer (até hoje parece que poucos sabem por aqui que a Embraer tem esse programa). Todo ano a empresa faz um recrutamento no Brasil inteiro (pré-requisito é ter até dois anos de formado ou até dois anos de concluído o mestrado). O processo seletivo é bem rigoroso, tem bastante candidatos. Na época que a empresa lançou esse programa, ela precisava de muitos engenheiros e são poucos engenheiros aeronáuticos que se formam no país. Hoje devem ter umas três ou quatro universidades, além do ITA, sendo que no ITA muitos formandos vão para a área financeira e não para a indústria. Então a empresa decidiu criar sua própria universidade, um programa de mestrado profissionalizante em engenharia aeronáutica. Eu fui da turma 7 desse programa em São José dos Campos, que hoje deve estar na turma 25 ou 26. São umas 60 pessoas que entram por ano nesse programa que, obviamente, não é a única porta de entrada para trabalhar com engenharia na Embraer, mas é uma das principais. Então fiquei sabendo do programa, me inscrevi, fiz a prova e fui aprovado. Teve uma dinâmica, uma entrevista e então um ano e meio de curso. O primeiro semestre é o básico, de fundamentos, que todo mundo faz junto. Na segunda fase você já escolhe uma carreira, que pode ser aerodinâmica, estruturas, sistemas hidro-mecânicos ou sistemas eletro-eletrônicos. O último semestre é reservado para um projeto em equipe, no qual projetamos um avião com base numa especificação de alto nível. O aluno não entra como funcionário Embraer durante o período do curso, entra contratado por uma fundação, mas usa toda a infra-estrutura da empresa. Nesse um ano e meio, os alunos têm uma série de matérias no ITA e também de profissionais da empresa. Durante o curso, recebem uma bolsa para dedicação exclusiva para esse mestrado profissionalizante. Saí desse programa com diploma de mestre pelo ITA e, depois disso, entrei para trabalhar na engenharia, onde já estou por quase 12 anos.

  • Pode contar um pouco mais do teu dia a dia hoje? Quais são suas responsabilidades na empresa?

    Posso tentar (risos), são várias responsabilidades. Meu cargo é supervisor de engenharia na Embraer e hoje sou responsável pelo escritório de engenharia que temos aqui em Florianópolis, que foi inaugurado ano passado, e ainda responsável por um projeto de desenvolvimento tecnológico na área de sistemas eletrônicos embarcados, numa parceria com a fundação CERTI. A abertura do escritório aqui foi algo que veio em função dessa parceria. Minha rotina é um acompanhamento do que está sendo desenvolvido no projeto e a gestão funcional da equipe. Temos uma relação muito próxima com a CERTI, com parte da equipe co-localizada no prédio deles, e a outra parte no escritório da Embraer no CELTA. Eu fico um pouco lá e um pouco cá, estou sempre entre esses dois ambientes. E também sempre conversando com o pessoal de São José dos Campos e BH, discutindo sobre o projeto e as questões relacionadas aos planos futuros.

  • Com quais áreas você trabalhou dentro da empresa?

    Meu histórico, desde os estágios, graduação e iniciação científica sempre se manteve na área de software embarcado. Entrei na área de desenvolvimento tecnológico, uma área em que aumentamos a maturidade da empresa em alguma tecnologia que hoje ela ainda não emprega nos produtos.

  • Você chegou a participar de algum projeto de aviões diretamente?

    Fiz parte, sim! Começamos a trabalhar nesse processo de desenvolvimento de software embarcado aeronáutico no desenvolvimento tecnológico. Passei alguns anos nesse projeto, que tinha um escopo maior do que só a parte de software, mas no fim foi essa parte que realmente se aproveitou em um produto que vai para o mercado.

  • É muito difícil construir um avião?

    O processo de desenvolvimento aeronáutico é bastante rigoroso do ponto de vista de requisitos, tudo tem que ser rastreado, ter controle das modificações, então, é bem interessante nesse sentido. Tudo o que você muda no projeto requer um registro do motivo da modificação, tudo tem um responsável, todo responsável deve ser treinado e ter as evidências para isso. Existe também uma outra área dentro da empresa que é independente e que faz o controle da qualidade do que você está fazendo. É bem bacana. Na minha área de desenvolvimento de software você tem que interagir muito com áreas, incluindo o pessoal que faz o algoritmo de controle, que conhecem um pouco mais da aerodinâmica e do comportamento dinâmico do avião. É um ciclo bem longo. Para se fazer um avião, são em média 5 anos, desde kick-off até a entrega do produto. A Embraer é benchmark no tempo de desenvolvimento de avião na indústria!

  • Você acredita que Floripa é o lugar certo para a empresa?

    A gente está aqui porque tem uma capacidade técnica identificada na CERTI que complementa a nossa. Hoje temos escritórios de engenharia em São José dos Campos, BH, Melbourne (EUA), Évora (Portugal) e aqui. A CERTI não era o único instituto que identificamos como potencial para tocar esse projeto, mas foi quem ganhou a concorrência e para minha sorte viemos para cá. Juntou uma questão pessoal com profissional, foi perfeito. Quando surgiu a oportunidade achei que estava sonhando. E eu participei de toda essa estruturação de uma filial, que foi um desafio grande e totalmente novo, bastante diferente dos desafios dos projetos de engenharia aeronáutica.

  • Para você como foi essa volta para Floripa?

    Como falei anteriormente, foi como um sonho. Sempre imaginava, brincando, que a Embraer poderia vir para Floripa, e de repente apareceu uma oportunidade como essa, em uma área em que eu poderia me inserir bem. Voltar para perto da família e dos bons e velhos amigos foi muito bom. Do ponto de vista profissional, foi interessante porque peguei uma nova equipe para liderar além de mudar um pouco a tecnologia em que estava desenvolvendo. Começamos em sete engenheiros e hoje somos em 10.

  • Você acha justo o piso salarial de um engenheiro quando ele sai da faculdade? Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    A gente acaba tendo uma noção do que o mercado está pagando e obviamente estava mais ou menos dentro das expectativas, nunca é o que a gente quer, mas estava dentro do que eu imaginava ser razoável para um engenheiro que estava começando.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Precisamos fazer dar certo o que estamos fazendo neste momento e o ambiente corporativo nos coloca muitos desafios. Minha expectativa é que a gente consiga fazer o escritório crescer e obviamente crescer junto e abrir espaço para outras pessoas também se juntarem a nós. Essa é a expectativa que eu tenho hoje.

  • Teria alguma dica (pulo do gato) para alguém recém-formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    A Embraer no Brasil é uma das poucas empresas em que você vai poder trabalhar com tecnologia de ponta e com uma gama muito grande de áreas de trabalho. Você pode trabalhar com simulação, aerodinâmica, estruturas (estou fugindo um pouco da automação), mas tem também áreas como desenvolvimento das leis de controle para avião, não só de controle de voo, mas controle de outros sistemas (ar condicionado, freio, etc). Então é um prato cheio para quem quer trabalhar com engenharia, sem dúvida, é uma empresa que hoje tem mais de 5.000 engenheiros, é realmente interessante. Para ir bem no processo seletivo precisa ter uma bagagem bem técnica e desenvoltura na dinâmica e na entrevista, que é onde entram os aspectos comportamentais que eu comentei. Essa própria iniciativa do Alumni, de contato que você está fazendo já ajuda nesse sentido.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Acho que alguns professores acabam ajudando sim, querem contribuir com os alunos de forma que possam ter boas oportunidades, o que foi o meu caso. Mas eu senti falta de ter algo mais estruturado para viabilizar contatos, pois o que acabava fazendo a diferença era a iniciativa individual de cada um.

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    Existe uma disciplina que foi batizada de Systems Engineering (normalmente não é traduzido para o português), que é uma sistematização do o desenvolvimento de produto considerando o contexto de uma organização. Ela vai além da parte técnica, com o objetivo de apresentar como se organiza um desenvolvimento em etapas, como se escreve e valida especificações, desdobramento de requisitos em design, implementação, verificação, e como isto se relaciona com recursos sua organização tem para aplicar em seu projeto, abordando uma visão mais prática de como funciona um desenvolvimento. Portanto, por ser um Departamento de Automação e Sistemas, seria um item necessário para o currículo, podendo até ser interessante uma reformulação do mesmo como um todo, para tentar seguir um fluxo baseado nesta disciplina. Existe um instituto que se chama Incose que determina um padrão de como fazer o desenvolvimento de sistemas, além de existirem normas que determinam como fazer um processo de Systems Engineering, incluindo as etapas de especificação, fazer projeto, implementação, teste, entrega e suporte ao longo do ciclo de vida. O que tivemos mais próximo disso no curso foi na área de Engenharia de Software, porém, bem pequena a abordagem, com uma matéria muito focada, sem mostrar a dimensão real que este assunto poderia ter no curso. Ter cadeiras nesta linha seria um diferencial para a Engenharia de Controle e Automação da UFSC.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Me orgulho do desempenho que tive, de ter feito bons estágios e construído uma "bagagem" que permitiu consequentemente ter uma boa carreira. Me arrependo talvez de não ter aproveitado muito as iniciativas de empresa júnior, pois hoje vejo que isso agrega muito principalmente pra quem tem o interesse de empreender ou de assumir cargos de liderança dentro das organizações.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Eu acho que às vezes a gente chega com uma expectativa muito alta, e acaba se frustrando com algumas coisas. Então uma dica é tentar baixar um pouquinho a expectativa e tentar explorar ao máximo as oportunidades que o curso oferece, porque nem todas as matérias vão ser interessantes, nem todos os professores vão ser legais, mas vamos aproveitar o que tem de bom e realmente se dedicar. Tem que botar um gás na época que a gente está cheio de energia, mas também não deixar de viver a vida. Acho também que a oportunidade de compartilhar esse momento da vida com pessoas diferentes, fazer amigos e aproveitar é algo importante também, tentar fazer um bom equilíbrio. E essa dica de explorar oportunidades que são menos técnicas e mais voltadas a atitudes e comportamentos no ambiente corporativo.

Mensagem Final aos estudantes

Acho que o curso dá uma bagagem técnica muito boa e abrangente, o que eu acho bom, porque na verdade por mais que você tente aprofundar alguma disciplina ao longo da graduação, quando vai para o mundo real vão ter algumas coisas que são específicas da organização, da maneira como ela trabalha, então você vai ter que aprender alguma coisa. O curso está te dando uma base e você vai ter que procurar o que você vai precisar na hora da vida real. Ele te entrega um conhecimento e aí o que eu acho que faz a diferença na hora de você ir pro mercado são as coisas que não são técnicas. O técnico é o básico, você tem que ser muito bom no técnico. Um inglês excelente, segunda língua, esse é o básico. O que vai fazer a diferença é a capacidade de comunicação, de relacionamento interpessoal, liderança. Na engenharia em geral, temos na média um comportamento mais introvertido, então sempre tem esse desafio de se relacionar com as pessoas da melhor forma. Então esse diferencial nós temos que buscar em empresa júnior, organização de eventos, participação em congresso, leitura de livros, cursos online, etc. É um “delta” que você vai ter que buscar por conta própria, mas depois vai ser um diferencial quando for entrar para o mercado.