Entrevista

21/06/2017


Fala pessoal! Essa semana entrevistamos o Grégori Daminelli, para trazer sua experiência vivida na LATAM, o que pensa sobre trabalhar em uma grande empresa e seguir carreira nela, além do que qualquer um necessita fazer durante a faculdade para se dar bem em uma grande empresa no futuro!

  • Para começar, pode nos contar um pouco sobre qual é o seu trabalho hoje?

    Trabalho em uma linha aérea. Na área de Supply Chain, que realiza todas as compras aeronáuticas, minha área é a última etapa dentro do processo de compras antes da área financeira. O que fazemos é garantir que o processo de compra foi bem executado e que as faturas recebidas dos provedores coincidam com suas ordens de compra e possam contabilizadas e pagas no prazo. Além disso, somos o principal ponto de cobrança para todos os provedores aeronáuticos (algumas centenas). Buscamos garantir que a sua lista de faturas por receber seja igual à nossa lista de faturas por pagar.

  • Quais conhecimentos você aplica na prática no dia-a-dia?

    Desde que eu me formei eu sempre trabalhei na TAM, mudei várias vezes de área, mas eu sempre trabalhei com melhoria de processos. Então eu assumi essa área com esse foco, de buscar implementar melhoria de processo, gestão de filas, balanceamento de carga de trabalho na equipe, colocar algumas ferramentas LEAN para fazer com que o fluxo de pagamentos seja o mais suave e melhor possível. Isso acaba envolvendo conhecimento de TI, sistemas corporativos, gestão de processos, às vezes até programando um pouco.

    Usamos softwares de Business Intelligence (BI) para cruzar relatórios de diferentes sistemas, o que sempre relembra muitos conhecimentos vistos na universidade. Em qualquer área que passei, mesmo tendo automação raramente como um foco primário, ela está sempre como plano de fundo, aportando e acelerando trabalhos de diferentes tipos. É background para tudo.

  • Como você entrou na TAM (agora LATAM)?

    Eu estava fazendo estágio na Embraco. Na verdade sofri várias reviravoltas nessa época de PFC e formatura. Eu tinha uma vaga de PFC na Whirlpool na Itália e ia trabalhar com controle por algoritmos genéticos, software de otimização para novos produtos, bem engenharia de controle e automação mesmo (risos). Uma semana antes de viajar pra lá, já com passagem comprada, descobri que não havia cumprido algumas etapas para o visto de estudante e por causa de burocracia de imigração não foi possível ir, e tive que mudar de planos. Com ajuda de contatos e amigos, fui fazer PFC na Embraco, em uma área de S&OP (Planejamento de Vendas e Operações). Meu PFC acabou mais ou menos quando estourou a crise de 2008 e por isso a Embraco, alguns meses antes de terminar, já havia anunciado que as contratações estavam suspensas, que não iriam contratar nenhum estagiário... Comecei a buscar processos trainee e coincidiu de encontrar uma vaga, para engenheiro, em um grupo de trabalho para estruturar a unidade de negócios de manutenção aeronáutica da TAM em São Carlos/SP.

    Eu comparei com outros processos trainee (geralmente mais genéricos) e não tive dúvida de que isso era mais interessante. Então eu me formei no dia 20 de setembro, e no dia primeiro de outubro já estava trabalhando na TAM.

  • Você achou positiva a associação entre a TAM e a chilena LAN?

    Sem dúvida. Lógico que no processo de associação muita gente ficou insegura, com dúvidas por não saber o que iria acontecer. Mas acredito que isso aconteceu nos dois lados (Chile e Brasil). Após o momento inicial, quando o pessoal começou a aprender a trabalhar junto, melhorou. Nota-se que iria ser muito mais difícil cada empresa trabalhar em separado, principalmente no momento de crise em que o Brasil está, muito pior do que aquela de 2008. A LATAM está presente em quase todos os países da América do Sul e possui operação de carga em Miami, então a vantagem de um grupo desse tamanho é que se um mercado estiver ruim, tal como uma "carteira de investimentos", um compensa o outro e você consegue crescer pelo conjunto.

  • Como você descreveria sua carreira na empresa?

    Minha carreira na TAM é bem diferente de explicar. Eu entrei numa área de controle de gestão, comecei a fazer projeto de melhorias de processo, passei a liderar processos de TI, virei coordenador de TI, migrei para SP para uma área de controle de operações aéreas, comecei a fazer pesquisas operacionais, trabalhando com estatística, banco de dados de voos, buscando melhorar pontualidade de voos, projetos de melhorias in loco em aeroportos, depois fui pra uma área de gestão de projetos (PMO de entrada de serviços de uma frota nova) e depois vim para a área de gestão de pagamentos. Todas muito diferentes entre si, mas o fio da meada que junta todas elas, é a vontade de inventar soluções para os problemas como eles se apresentam.

  • A escolha de mudança de área constante foi sua ou a LATAM faz com que seus colaboradores transitem entre as áreas?

    Acho que estou acima da média na troca de áreas. Mas, de qualquer forma, toda empresa oferece esse tipo de oportunidade. Se você "cavar”, você encontra. E aí vai depender dos teus objetivos de carreira.

    Você pode colocar na cabeça que você quer aprender um pouco de cada área funcional de toda a empresa. Aí você mesmo vai medir quanto tempo é suficiente para ficar em cada uma delas para aprender o que você precisa e um dia falar assim: “Agora eu posso abrir minha Startup tranquilo, porque eu sei fazer a gestão das finanças de uma empresa, eu sei vender, eu sei fazer suporte técnico, eu sei fazer a gestão de custos, etc”. Você aproveita a experiência corporativa para fazer o que você quiser fazer mais para frente.

  • Você pensa em utilizar esses conhecimentos de áreas distintas para abrir uma Startup?

    Isso está entre as possibilidades. Eu gosto de trabalhar com um leque de oportunidades, não ficar só com uma opção fixa. Sempre jogando com três, quatro coisas que eu poderia fazer e nunca deixar a porta fechar.

  • Você acredita que fazer uma boa universidade é diferencial para recém formados?

    A galera vai olhar sim para a universidade de onde você veio. Isso é chave. Principalmente as empresas mais disputadas. Elas têm muito mais candidatos por vaga e, obviamente, elas vão fazer um processo seletivo com mais filtros. Imagine que você é uma enorme empresa e você recebe 500 currículos de recém formados, que não têm experiência profissional, para apenas uma vaga. Como você filtra “currículos vazios”? Filtra pela qualidade da universidade. Se muitos currículos vêm de universidades com 5 estrelas no MEC, 4 estrelas já não serve.

    Na hora que você começar a trabalhar a sua universidade vai ter uma importância decrescente durante os próximos dois anos. Depois que você está trabalhando uns dois anos, tanto faz a universidade de onde você saiu. O que importa é o resultado que você foi capaz de entregar. Aí você já não tem mais a desculpa: "Aahhh, mas eu sou recém formado". Você precisa ter um currículo com resultados entregues. A partir daí, está na sua mão inventar o que você quer fazer.

  • O mercado está buscando mais profissionais seniores ou há espaço para recém formados?

    O mercado está em crise, tem bastante desempregado. Tem mais oferta que demanda de mão de obra. É fundamento da economia: quando isso acontece, o preço do “produto” cai. Então, ainda mais em uma crise, a empresa buscará entregar mais resultado com o menor custo.

    É óbvio que se tiver um engenheiro com 5 anos de experiência comprovada disposto a trabalhar pelo salário de um recém formado, aumentará a competição. Porém, ainda sim tem empresa que prefere pegar um cara do zero e desenvolver ele do jeito que a empresa trabalha. Isso dá espaço para todo mundo coexistir. É claro que a competição vai ser maior, não estamos no Brasil em uma situação de pleno emprego, mas há espaço para os dois perfis buscarem o seu espaço simultaneamente.

    Tem que lembrar também que boa parte da turma não ficam no Brasil. O Brasil está em crise? Paciência, é só olhar para fora e mandar currículo para outros lugares. Se você tiver vontade de buscar posições em outros países, você consegue. Eu mesmo, consegui um estágio na Itália sem nenhum tipo de acordo. Fui inventando os contatos até chegar nos caras. Acabei falhando na burocracia que eu não conhecia, mas possível é.

  • Como você vê o mercado para quem está saindo da universidade agora?

    Na prática as pessoas seguem as oportunidades que se apresentam. Porém, comparar indústria ou banco, por exemplo, são gostos e áreas totalmente diferentes, depende muito de cada pessoa seguir seu desejo. Não sei dizer o que é melhor para cada um, mas poderia sugerir que ninguém busque ir para o setor público fazer concurso. Acho que isso é uma fase que já “morreu” no Brasil, vai levar muito tempo pra voltar a valer a pena, os anos de concurseiros foram os anos 2000.

  • Você sentiu um choque cultural ou até um choque entre as gerações X, Y, Z?

    Sem dúvida a questão da geração está bastante presente. Uma é o nível natural de maturidade, é óbvio que uma pessoa de 30 anos vai levar mais a sério certos temas do que uma pessoa de 21 anos. É impossível não ser assim. Ainda que a sociedade fosse a mesma ao longo do tempo, a maturidade já seria suficiente para gerar conflito de geração. Pessoas solteiras, sem filho, morando em apartamento dividido, tem uma rotina que não se compara com uma pessoa casada, com filhos, que precisa voltar logo do trabalho para ajudar a organizar as coisas em casa.

    Além disso, tem uma diferença de quão preparadas as pessoas chegam para o mercado de trabalho quando elas se formam. Não no sentido técnico, mas no sentido comportamental. A sensação é que as pessoas chegam cada vez mais esperando um "vídeo game" do trabalho. Esperam chegar lá com um sistema de pontuação super avançado, de meritocracia super clara. Que vai estar na parede uma tabela de quem está na frente todo dia. Vai esperar que o trabalho gere bonificações espontâneas, que geram prazer ao trabalhar. No mundo real isso dificilmente acontece. Na prática, o normal é ter que penar muito para fazer as coisas acontecerem. É lógico que o sorriso no rosto é sempre uma opção. Você pode estar no pior dos ambientes, numa pressão do caramba, numa crise do caramba, o sorriso no rosto é quase um compromisso moral, se você quiser sorrir, você vai sorrir.

    Tem gente, que é recém formada e reclama: "Aahhh não posso trabalhar de bermuda, então não me sinto motivado". Todo mundo sonha com o escritório Google. Você pode botar milhões de objetos coloridos na sua mesa, o trabalho que precisa ser feito ainda será exatamente o mesmo. Se você não trabalhar, se você não render, não ser produtivo no trabalho, tanto faz você estar de calça jeans, pijama ou terno e grava, tanto faz se a sua mesa é "clean" ou cheia de bichinho de pelúcia. Você pode estar mal humorado, com sono ou você pode estar com um belo sorriso no rosto. O trabalho está lá e ele é exatamente o mesmo para você fazer. Tem muita gente nova que chega para trabalhar e não absorve isso. Ter esse compromisso, esse senso de realidade já ajuda bastante.

  • Hoje há uma tendência do funcionário precisar estar sempre disponível, o tempo inteiro. É importante traçar uma linha entre o profissional e o pessoal?

    Quando eu me formei eu achava sinceramente que existia essa divisão, mas na prática ela não existe. Essa linha não existe nem para relações interpessoais. Você não vai conseguir dizer: "Essa pessoa é um colega de trabalho e esta outra pessoa é um amigo". Não dá. A sua vida é uma só. Se você trabalha demais, você não vai ter vida. Se você só vive, você não vai trabalhar e não vai ter o que comer.

    Então, você tem que ter essa consciência de que você é um só e você tem que fazer um pouco dos dois. Acho que a tendência é ter na mão ferramentas que permitem misturar um pouco mais as coisas, de uma forma mais simples. Por exemplo, 20 anos atrás, como você levaria trabalho para casa? Não existia nem computador. Não tinha como levar. Só se você trabalhasse em escritório, você levava uma maleta de papelada pra casa, mas se você trabalhasse na linha de produção, o que você iria fazer? Você ia levar o torno e a fresa para casa? Não dava. Hoje em dia muito mais gente trabalha em escritório e é tudo informatizado, então você pode pegar o notebook, colocar na mochila e levar pra casa ou mesmo ter o e-mail corporativo e vários aplicativos no celular.

  • Você acha justo o piso salarial de um engenheiro quando ele sai da faculdade? A questão salarial influenciou para sua escolha de trabalho?

    Nem todo mundo que se forma sai contratado como engenheiro, muitos são contratados como analista. O piso salarial de engenharia se aplica a cargos de Engenheiro, e as empresas costumam restringir esse tipo de cargo quando precisa de alguém que possa assinar como responsável técnico perante o CREA, muitas vezes concentrando esse poder em poucas pessoas.

    O salário não está garantido por você ser formado em engenharia. Esquece o piso, ele não significa praticamente nada. Na verdade ele acaba restringindo as empresas capazes de contratarem as pessoas como engenheiro.

    Óbvio que ninguém quer um salário baixo, mas o ponto chave do primeiro emprego é adquirir experiência, quebrar a barreira da teoria pura, do “estudar o que é” para o mundo do “como se faz”... e isso é muito sensível ao ambiente em que você entra primeiro. Entrar num ambiente bem estruturado, com pessoas muito mais seniores, onde se pode aprender muito o dia todo, conta muito mais que o salário. Se você entra em um lugar em que você já é o cara mais experiente, será mais difícil crescer, não vai ter em quem se espelhar para se desenvolver. Este é um ponto chave. Quem está se formando precisa buscar experiência prática, ser desafiado e aprender o máximo possível, não importando tanto o salário.

  • O que é tornar-se profissional pra você?

    Durante o primeiro ano de trabalho, tinha coisas que eu tentava fazer como se fosse teoria, estava no mesmo ritmo universitário. O problema surgia e eu ia atrás de estudá-lo, portanto eu sabia descrever muito bem o problema, discorrer sobre as possíveis formas de resolvê-lo, mas de fato não sabia como materializar a solução.

    Caiu a ficha quando tive que assumir que ninguém mais resolveria meus problemas: tinha que assumi-los como “meus filhos”: Daqui pra frente é mundo real primeiro, a teoria está aqui como ferramenta para auxílio. Se a teoria não se encaixa com a realidade, é preciso estudar mais da realidade que da teoria.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Eu espero ainda trocar algumas vezes de áreas e se conseguir de países também, acho que isso agrega muito ao desenvolvimento pessoal. Mudar é sempre desafiador, mas tem suas recompensas.

  • O que o levou a escolher Automação?

    Eu não sei explicar bem, mas nas oitava série eu decidi que eu ia fazer automação (risos). Vi que ia ser difícil passar e comecei a estudar mais do que a média desde a oitava pra passar logo e não ficar fazendo cursinho. Eu me identificava com o perfil de mecânica, elétrica, gostava de ficar montando e desmontando as coisas... Foi meio que natural, meio que instinto.

  • Durante a graduação, depois que fez algumas matérias, você acabou tendo uma ideia diferente do que você pensava?

    Eu acho que ninguém acerta 100% na escolha. Pra você ter essa visão clara do que fazer, você deveria ter feito o curso antes e isso é impossível. Teve duas coisas que eu achei fantástica: 1) A mais importante de todas, a turma. Eu tive muita sorte de estar em uma turma muito unida que mesmo estando nos piores dias da faculdade, com provas e trabalhos, a galera se juntava e se ajudava, um explicava pro outro e depois ia encher a cara junto.

    2) Enxergar várias oportunidades de trabalho depois do curso. Ninguém antes de entrar na faculdade sabe que curso escolher e ninguém que está na faculdade sabe com o que vai trabalhar depois de formado. Na verdade você nunca sabe o que vai acontecer daqui 5 anos da sua vida. A ideia de controle total, de que vai saber exatamente o que vai fazer, o que vai escolher, é uma ilusão da juventude.

    A história da sua vida vai ser sempre uma mistura entre as coisas que você quer fazer e as oportunidades que vão aparecendo. Você tem que ter um norte, mas não pode ser "duro" ao ponto de escolher cada etapa, cada passo que você vai fazer na sua vida. Se não a frustração é certa.

    Uma coisa que eu fui descobrindo aos poucos no curso e que achei muito interessante, é que existe uma espinha dorsal: a Engenharia de Controle, o motivo pelo qual o curso foi desenvolvido pelos fundadores. Em torno, se desenvolvem linhas de conhecimento que você aprende ao decorrer do curso todo: informática, engenharia mecânica, produção, elétrica, materiais, química... Então você tem uma abertura e uma introdução a muitas engenharias e isso te permite uma flexibilidade muito maior quando você se forma para trabalhar em diferentes áreas.

    O essencial de um engenheiro é ser um resolvedor de problemas e quanto mais ferramentas você tiver na mão, mais flexível você vai ser para se adaptar às necessidades do ambiente e inventar a solução mais adequada para cada tipo de problema.

  • Como era seu dia a dia no curso? Aproveitou bastante da vida universitária?

    Acho que estudar pra caramba é o normal. Todo mundo precisa fazer bastante disso. O que eu fazia de diferente era passar bastante tempo na empresa júnior, a Autojun. Eu entrei logo na segunda fase e fiquei até quase o final do curso. Consegui aproveitar bastante. Muito do espírito colaborativo da Autojun eu uso até hoje. Uma coisa muito legal foi ter feito o 5º ENECA, que foi o maior ENECA organizado até hoje (o segundo maior foi o primeiro, também organizado pela UFSC). Além disso, é claro, fazia festa com a galera também!

  • Você comentou que participou da Autojun, quais conhecimentos adquiridos lá te ajudaram no mercado?

    O que mais me ajudou foi o período de estudo e prática em gestão de projetos. Foi um tema que eu comecei a estudar e pôr em prática. E muito disso eu acabei reutilizando várias vezes em diferentes momentos. É lógico, tiveram vários temas que eu tive que voltar a estudar e aprofundar de outra forma, mas o ponto de partida foi a experiência que eu tive na Autojun.

    Uma curiosidade da época que eu estava aí: os grandes feitos da Autojun na época foram eventos e não projetos técnicos. É até curioso porque a Autojun tem muita energia, muita dedicação, mas falta alguém com mais experiência prática, para sair da teoria e da boa vontade e conseguir fazer as coisas saírem do papel. Isso eu tive que aprender depois com estágios.

  • Saber resolver problemas é uma qualidade que o curso traz ou é algo que você buscou por fora?

    Eu gosto da analogia do cinturão do Batman. Ele tem um monte de ferramenta e sabe usar cada uma no momento certo. E eu acho que o curso dá muito disso. Você não vai virar especialista em nenhuma coisa em específico, mas você vai conhecer onde está cada coisa.

    Você ganha a sua caixa de ferramentas e sabe que quando um problema se apresenta você pode rapidamente recordar as ferramentas que aprendeu e falar assim: para esse problema eu acho que o mais adequado é esse tipo de abordagem.

    A vantagem do curso é a interdisciplinaridade, é o fato de conhecer um pouquinho de cada engenharia e conseguir atuar como um integrador. O professor Augusto gostava de falar bastante disso, conhecendo um pouquinho a linguagem de cada engenharia você consegue conversar com todos os diferentes engenheiros e buscar um ponto em comum que seja a melhor solução para cada problema.

  • Você acha que o curso poderia ter te preparado de uma forma melhor para o mercado de trabalho?

    Nenhum curso universitário é suficiente para nenhuma vaga de trabalho. Nada vai encaixar perfeitamente em nenhum posto de trabalho. Sempre vai ter bastante "gap" que você vai ter que correr atrás para preencher. Seja pela especificidade da empresa, seja porque as coisas mudaram, ou até mesmo porque a empresa está atrasada e o que você traz não se encaixa com o que a empresa pode oferecer.

    Não existe milagre. Sempre você vai ter que ir atrás e estudar o que faltar. Depois você vai trocar "n" vezes de posição de trabalho e em 100% delas você vai ter que voltar a estudar na transição.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçada com algum professor?

    Não tive o prazer de ter aula com o Júlio, pois quando estava na minha vez de fazer Realimentados ele estava em mais um pós doutorado na Espanha. Minhas experiências matérias mais difíceis foram com o Bira.

    Teve uma vez que eu estava em uma aula onde o professor distribuiu seu material (apostila) e estava dando aula, e um amigo que fumava estava meio distraído, brincando de acender o isqueiro, porém bem no canto da folha de material do professor. Aí o professor olhou pra ele e disse: -"Você tá botando fogo na minha apostila??? Não acredito!!! Falta de respeito na minha aula!!" (risos).

    Curiosamente, uma das matérias mais difíceis foi Introdução à Engenharia, na 1a fase. Você só entende a profundidade dessa matéria quando estiver quase se formando. Você olha pra trás e pensa: - “o semestre cobrou informática, conhecimento de hardware, engenharia mecânica, elétrica, telecomunicações, integração entre sistemas, instrumentação, produção... tudo estava naquela matéria, e mesmo não conseguindo entender tudo, a gente cumpriu o objetivo”. Quem lecionava esta matéria era o Jamma (Jean Marie) e o Cury.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Sem dúvida, tanto pro lado profissional, o professor Augusto (Bruciapaglia) era o que mais se destacava, ele organizava grupo de e-mails, vagas de emprego, além de ter muito contato na indústria. Ele postava o tempo inteiro sobre alguma vaga, de todos os tipos... eram 30 e-mails por semana em qualquer lugar do país ou exterior. Depois que ele se aposentou, esta lista rapidamente "morreu". Ainda existe, mas é pouquíssimo usada e não possui pessoas novas. O Rabelo foi meu orientador do PFC, e também faz um belo trabalho. A matéria de Integração dele é muito boa.

  • Você acredita que os professores te prepararam para o que? Para o meio acadêmico, para a indústria…

    Alguns são mais acadêmicos, como aqueles que emendaram graduação, mestrado, doutorado e são professores, naturalmente é mais difícil deles transmitirem o que é trabalhar em indústria. Ainda assim alguns deles trabalham como consultores ou resolvem alguns problemas mais avançados com algumas empresas, mas é diferente de ter a pegada industrial.

    Alguns professores focam bastante no lado comportamental, de ética, linguagem, vestuário, como faz o professor Rabelo, que se destaca nesses quesitos. Se você não sabe se adequar, falar sem gírias, usar vestimenta adequada, assumir o comportamento adequado ao ambiente, você não consegue vender nem 1 real. E isso é legal, pois o Rabelo é uns dos que mais chamam atenção para este quesito e penso que deveria haver mais professores fazendo o mesmo ao longo do curso. Pois no fim do curso você se enxerga um lixo (risos), e não deveria ser assim, no fim deveria estar mais estruturado do que no começo, e esta questão comportamental seria de grande auxílio.

  • Acha que esse comportamento, essa “auto estima”, influencia diretamente na carreira?

    Sem dúvida influencia, de alguma maneira você está sendo treinado para algo. A engenharia acaba focando muito no conhecimento técnico, e em muitas vezes, o que o engenheiro recém formado é deficiente é no lado comportamental, como não ter habilidade de negociação, não conseguir se comunicar bem. Nessas atitudes do lado mais humano, o engenheiro acaba pecando bastante. Sei que não é o foco do curso, mas a cobrança por esses comportamentos deveria ser mais explícita. Normas mais exigentes deveriam ser usadas para contribuir com este tipo de desenvolvimento dos alunos e recém formados.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Organizamos o 9º Linguição. Nós pegamos bem a fase exponencial, os Linguições anteriores deram 200 pessoas, o anterior 500, e o nosso 1200 pessoas até onde conseguimos controlar (risos). Ainda fazíamos no domingo à tarde. Na turma seguinte já foram 1500 pessoas ou mais...

    O legal é que a vontade se mantém a mesma: manter o esquema mais universitário possível, só com o pessoal do curso trabalhando na festa, instruindo seguranças a deixar subir nas mesas, tequila para as mulheres... é muito bacana que isso se mantém até hoje!

    Outras festas terceirizaram sua organização e logo depois deixaram de existir. O nosso lucro era de 5 a 6 mil reais… acabávamos “queimando” tudo pra fazer a festa mais louca possível, não visando o lucro.

    E tanto do ENECA quanto do Linguição, aprendemos a lidar com o desconhecido. Poderíamos ter dúvida de muita coisa, tínhamos certeza que muito iria acontecer sem a gente planejar, e sabendo disso, tínhamos que nos organizar para saber como iríamos lidar com isso na hora. “Vão acontecer zilhões de coisas não programadas, e as pessoas tem que estar 100% seguras que elas podem tomar e inventar decisões, e mesmo dando certo ou dando errado, os outros irão apoiar”. Assim as coisas funcionavam.

  • Do que você lembra do currículo quando estudou, quais sugestões você daria para complementar ou alterar?

    Vai na linha do que falamos, se exigisse mais sobre o lado de postura pessoal, apresentação, comportamento, linguagem, faria com que o aluno chegasse no fim da faculdade muito mais estruturado, mais próximo da exigência do mercado de trabalho. Mas isso não se deve a matérias, currículo, se deve ao ambiente. Se a universidade melhorar, ajudará aos alunos.

    Pouca gente incentiva o aprendizado do Excel, mas para engenheiros juniores é fundamental. Qualquer engenheiro deveria atingir nível avançado em Excel, se possível com programação em VBA e uso de ferramentas estatísticas. Ainda é a ferramenta mais facilmente disponível em empresas de qualquer porte, e ajuda muitíssimo.

  • Inglês é uma matéria que não aparece no curso mas é quase um requisito. Como você vê essa necessidade do inglês nos estudos e no profissional?

    Você pode fazer um experimento, pegar qualquer problema técnico: tente buscar uma resposta no Google em português e em inglês e compare os resultados. A proporção é de 20 mil respostas em inglês para 1 em português, é brutal a diferença. Quanto mais especializado o conhecimento, maior a diferença. A produção científica em português é quase irrelevante quando comparada à produção em inglês.

    Isto não é questão de currículo. É algo ainda mais profundo: se você não tem, não consegue conversar, ler artigos, buscar soluções de problemas e fica estagnado em várias situações. Portanto, inglês e Excel são pontos básicos que devem ser aprendidos por quem está na graduação.

  • Das matérias, qual você achou irrelevante para o mercado de trabalho? Tiraria alguma?

    Acho que não tiraria nenhuma. Pode haver matérias que nunca utilizei devido às áreas que segui. Algumas matérias que nao usei no profissional, usei em algo pessoal. É bom porque você cria referência para julgamentos. Você precisa de superfícies de contraste, ou seja, quanto mais coisas souber, mais claras serão suas comparações, logo será possível realizar um julgamento mais refinado. Não existem matérias descartáveis, você só vai descobrir o que é realmente chave na hora que você trabalhar. Como você não sabe o seu futuro, não é a hora de descartar absolutamente nada, é a hora de absorver.

  • Existe alguma coisa que acredita que esquecemos de perguntar e que seria interessante compartilhar com os alunos de engenharia de controle e automação?

    Sobre o Alumni: temos que desenvolver a colaboração de todas as gerações do curso, de graduados e graduandos. A gente tem um potencial fantástico em criar um ambiente de cooperação, como um clube de ex-alunos, que possa aumentar a troca de experiência, indicações a vagas de emprego, estágio, palestras, cursos... Muitas vezes preferimos contratar uma pessoa que fez o mesmo curso que a gente. O pessoal do ITA faz muito isso e todos se fortalecem, faz o pessoal crescer mais rápido, buscar oportunidade mais rápido. É um ponto que dá pra desenvolver muito. Talvez dar espaço para o pessoal compartilhar mais material, mais vagas, criar ambientes que se permita fazer encontro de todas as gerações (online ou presencial), existem várias formas de expandir este assunto.

Mensagem Final aos estudantes

Uma das maiores ânsias que todo graduando tem é a dúvida de se escolheu o curso correto ou não. Todos têm essa dúvida e ela consome muita energia. Como nenhum graduando conhece todos os cursos, se trocar de curso a dúvida segue sem resposta... Uma vez que você entrou, concentre-se em absorver o máximo de conhecimento possível e em abrir portas. Se você quer ter dúvidas, tenha perguntas produtivas. Quais oportunidades eu abro sabendo esse assunto?

Ninguém é dono do próprio destino, então é normal ter vários questionamentos. Eles naturalmente vão se desfazendo com o tempo, basta ter paciência, não deixar tomarem o primeiro plano, e seguir aprendendo o máximo possível!