Entrevista

05/10/2017


Ser executivo do melhor fundo de investimentos do país pode não ser uma carreira para um engenheiro de controle e automação. Porém, Fábio Akira, nosso entrevistado de hoje nos mostra os caminhos que ele percorreu durante e após a faculdade, justificando suas escolhas e acertos até chegar nos dias de hoje. Confira!

  • O que é ser um CFO?

    O CFO, ou diretor financeiro, em grande parte das indústrias, é o braço direito do CEO. É responsável por viabilizar financeiramente os projetos e o dia a dia da empresa, enquanto garante que a organização opera de forma eficiente e fazendo a melhor utilização possível dos recursos investido na empresa. Isso, obviamente, além das funções tradicionais de reporte e contabilidade. Esta é uma visão de alto nível. Os desafios específicos, no entanto, variam de empresa para empresa. Em algumas empresas, por exemplo, liquidez pode não ser um problema e a parte de captação e relacionamento com bancos passa a ter um peso menor. Outras podem estar em um momento de M&A intenso, e esta passa a ser a atividade principal. A missão varia de acordo com a indústria e o momento de cada empresa.

  • O que te motivou entrar no Pátria Investimentos?

    Antes do Pátria eu trabalhava na Rodobens, uma empresa de serviços financeiros e varejo automotivo baseada em São José do Rio Preto. É uma empresa que eu gosto muito e onde fui muito bem sucedido. Por motivos pessoais, precisei voltar para São Paulo. Como conhecia algumas pessoas que trabalhavam no Pátria, retomei os contatos e surgiram oportunidades, de modo que a conversa foi evoluindo e acabei recebendo uma proposta para trabalhar lá.

  • Quais desafios você encontra na sua carreira?

    Os desafios variam ao de acordo com seu momento de carreira. Talvez isso surpreenda os estudantes de engenharia, mas os principais desafios para um diretor de empresa tem pouco a ver com aspectos técnicos e muito a ver com pessoas e liderança. Boa parte do tempo é dedicada à estas atividades. Ser bom tecnicamente é um requisito, mas deixa de ser um diferencial ao longo da carreira. Se você não consegue montar e manter um time competente, alinhado e motivado, seu alcance e seu impacto na organização ficam muito restritos. É algo que você não aprende na faculdade e que você só começa a entender, de verdade, após alguns anos de trabalho.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    A minha escolha pela engenharia foi muita parecida com a de vários outros colegas meus, resultado de uma afinidade maior com a parte de exatas ainda no tempo do colégio. Por causa desta afinidade, a decisão de fazer engenharia era a que mais fazia sentido. Não foi uma decisão baseada em mercado ou oportunidades de carreira.

  • Por que especificamente Controle e Automação?

    A parte de robótica e sistemas automatizados me chamava atenção na época. O curso era um curso novo, com poucas turmas formadas, mas a minha afinidade com a área, o perfil do pessoal que entrava, o que faziam durante e depois do curso me chamaram atenção e fizeram que eu fosse para esse lado.

  • Qual o motivo de ter escolhido a UFSC?

    O curso tinha apenas 2 anos de turmas formadas quando entrei e a UFSC era pioneira na área de Controle e Automação. Apesar disso, a UFSC era reconhecida pela qualidade dos seus outros cursos de engenharia, o que me fez acreditar que esta qualidade também se aplicava ao curso de Automação. Além disso, havia uma questão pessoal, pois eu morava em Curitiba. Na época passei em outros lugares, mas decidi ir para Florianópolis.

  • Como era sua rotina na faculdade?

    Na época eu tinha uma namorada, inclusive estou casado com ela até hoje. Então eu passava muito tempo em Curitiba onde ela morava. Acabava participando mais do eventos da faculdade dela do que da UFSC, não participando tanto da vida social como os amigos da época.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Eu fiz estágio no LABMETRO, foi super interessante, fui bolsista por uns dois anos e também fiz projetos como consultor da Autojun. Acho que um dos pontos importantes durante a faculdade, mais do que a formação acadêmica, é a questão do que você faz além da sala de aula. O envolvimento com atividade extracurriculares, seja estágio, seja Empresa Júnior, essa vontade de fazer coisas diferentes tem muito valor na hora que você sai da faculdade.

  • Você fez algum estágio além do LABMETRO?

    Meu período na faculdade foi bem técnico, fiz meu Projeto Final de Curso na Embraco. Na minha época a faculdade era muito pouco conhecida por outros mercados, como consultoria, mercado financeiro e outras carreiras. Inclusive, algum tempo depois de formado fui trabalhar em uma consultoria (Gradus) e foi por causa da minha participação que eles decidiram começar a recrutar em Florianópolis. Durante o curso as carreiras mais comuns envolviam fazer graduação sanduíche na Alemanha, mestrado ou PRH, com um foco bastante técnico.

  • Qual foi sua trajetória após sair da faculdade?

    Iniciei minha carreira trabalhei como Engenheiro de Controle com sistemas hidráulicos na Embraer e fiquei lá por praticamente um ano. Nesse período tive o primeiro contato efetivo com consultorias e empresas do setor financeiro em São Paulo, pois fiz alguns cursos no ITA e estas empresas estavam frequentemente no campus recrutando engenheiros. Essa era uma diferença importante entre e UFSC e as universidades de São Paulo na época: enquanto em São Paulo as empresas estão frequentemente recrutando nas universidades, na UFSC ainda não havia alcançado esse ponto. Portanto, iniciei como engenheiro, tive contato com consultoria e fui trabalhar na Gradus, consultoria de gestão brasileira com foco em eficiência operacional em diversos segmentos. Trabalhei em projetos para as maiores companhias brasileiras, fiz projetos na Europa (Rússia, Ucrânia e outros), América Central e América do Sul nas mais variadas indústrias no período de 4 anos que fiquei na Gradus. Assim que saí da Gradus passei os dois anos seguintes fazendo MBA em Columbia. Fiz um Summer Internship na Booz & Company e quando retornei, após meu MBA, ingressei na Rodobens. Na Rodobens entrei na área de projetos, mas após um tempo me aproximei da área de finanças e acabei me tornando CFO da empresa.

  • Como está o mercado no futuro, para quem tá saindo da faculdade agora.

    Depende muito do que a pessoa quer fazer depois da graduação. Mas, de forma geral, acredito que sempre existem boas oportunidades. Quando estou contratando alguém, me preocupo muito com a atitude da pessoa e com ela conseguir demonstrar que tem essa curiosidade de continuar aprendendo e vontade de tirar seus planos do papel. Então, quando falei sobre a busca de estágio é justamente sobre esse ponto, pois mesmo o graduando tendo entrado em uma das melhores faculdades do Brasil, ele não pode se acomodar por achar que estará contratado assim que encerrar o curso. O graduando deve continuar melhorando, aprendendo e correndo atrás das coisas para que elas continuarem acontecendo. Acho que isso diz muito sobre a pessoa e faz diferença na hora que está procurando um emprego depois.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    Quando saí da faculdade eu optei por um trabalho que não tinha a melhor remuneração mas onde eu via as oportunidades mais interessantes como engenheiro. Trabalhar na indústria aeronáutica era um sonho antigo que me permitiria conviver com o que havia de mais fascinante na época.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Sim, vou continuar atuando nesta área. Acho o meu trabalho extremamente desafiador e gratificante, e acredito que isso só tende a melhorar.

  • Você já empreendeu em sua carreira ou pensa em abrir negócio próprio?

    Não tive uma experiência desse tipo como fizeram alguns colegas como o João (Chaordic) ou o Eric (Resultados Digitais), entre outros alunos da minha época. Admiro muito quem segue esse caminho, pois as incertezas são enormes. Não me vejo abrindo um negócio próprio.

  • Durante sua formação, você notou alguma lacuna no curso? Qual seria melhor maneira de completar essa falha?

    Acho que não. O curso tem uma formação bem generalista, acaba cobrindo vários assuntos e você sai preparado para lidar com qualquer campo de engenharia que queira trabalhar, considerando os campos de elétrica, controle e mecânica. É difícil dizer que seria melhor se aprofundar em um campo, pois os desafios de uma indústria aeronáutica, por exemplo, são muito específicos e não tem uma faculdade que possa te preparar adequadamente. Você vai saber os conceitos, saber do que se trata, mas na hora de sentar para fazer tem muito que precisa aprender ainda. Não acho que isso seja um problema de formação/currículo. Saímos muito bem preparados quando comparados com outros recém formados.

  • Muito dos graduandos não se identificam muito com a parte técnica do curso, o que você recomenda para esse pessoal?

    Hoje em dia, se for olhar onde as empresas recrutam para a área financeira ou mesmo administração de modo geral, os cursos de engenharia estão todos presentes. Não é incomum um programa de Trainee buscando administradores, contadores, economistas e engenheiros. Ou seja, ainda que você não se identifique com a parte técnica, você pode trabalhar em outras áreas onde os skills de engenheiro podem ser bem utilizados. Não considero que a engenharia restringe a áreas de atuação possíveis.

  • Em relação ao ensino oferecido pelos professores, considera que os alunos deveriam correr mais atrás para se aprofundar nos conhecimentos?

    Isso é algo bastante pessoal. Você vai ter gente correndo atrás e que vai se interessar, ou por afinidade ou por dedicação, assim como vai ter quem vai querer apenas passar na matéria. Para quem queria se aprofundar, os professores eram muito abertos e eram um ótimo recurso.

  • Existe alguma coisa que acredita que esquecemos de perguntar e que seria interessante compartilhar com os alunos de engenharia de controle e automação?

    Algo que não foi perguntado é quantas vezes pensei em desistir do curso. Foram muitas. Houve uma época que eu e outro colega de turma chegamos a ir na Medicina, dar uma olhada como era, cogitando mudar de curso. Tive um amigo que mudou. E nenhum caso foi porque Automação era difícil. No final, era porque éramos novos e realmente as dúvidas surgiam, afinal, o que pensávamos na época era que estávamos tomando uma decisão para a vida inteira, o que não é verdade. Apesar de todas as dúvidas, tenho certeza que tomei a decisão correta permanecendo no curso. Pessoal e profissionalmente, fez total sentido ter continuado.

Mensagem Final aos estudantes

Quando você está na faculdade, você acha que tudo o que você fizer ou deixar de fazer neste início de carreira vai impactar a sua vida para sempre. Que uma decisão errada vai te perseguir por toda a vida. Mas não é isso que acontece. Tenho uma amiga, por exemplo, que depois de mais de 10 anos de carreira resolveu voltar para a faculdade e nunca esteve tão feliz quanto agora. Então, a recomendação é se preocupar menos, experimentar e errar, e não parar de correr atrás daquilo que você deseja, porque muito provavelmente as coisas irão se acertar.