Entrevista

30/08/2017


Do petróleo ao café, mudar de estilo de vida é fácil? Elson o nosso entrevistado de hoje e ele nos conta toda sua história de trabalho de 12 anos no ramo petroleiro, conta suas aventuras nos diferentes lugares do mundo que teve que trabalhar e nos conta como foi todo seu processo de escolhas na universidade. Leia e se identifique com mais uma entrevista alumni!

  • Por que escolheu automação?

    Eu sempre soube que queria ser Engenheiro desde pequeno. No meu segundo grau, eu fiz escola técnica de eletrônica. E, quando eu saí eu estava entre Engenharia elétrica e automação. Então, entrei no site dos dois departamentos e vi a grade curricular. Os nomes bonitos das matérias da automação foram o que me chamou a atenção (risos).

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu era bem nerd. Gostava bastante de estudar. A gente se juntou em 4 amigos que sempre andavam e estudavam juntos. Aí acabou que nós 4 fomos selecionados pro PRH-34 e entramos juntos. Quando ia sair e fazer festa era nós 4 também. Na minha época não tinha nenhum bar por perto, então eu acho que ajudava (risos). Agora você tropeça, tem um bar.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Eu tinha bolsa na 4ª fase até me formar com bolsa do PRH-34 e isso me ajudou, pois tinha especialização na indústria de óleo e gás.

  • Foi isso que fez tu seguir a área de petróleo e gás?

    Não, não. Foi uma oportunidade que apareceu conversando e perguntando pro orientador. Foi meio que cair de paraquedas. Não tinha nada definido sobre trabalhar nesse ramo antes.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Eu botei no meu currículo bem destacado o meu IAA, foi 8,25 quando me formei. Me formei em 5 anos sem nenhuma recuperação. Só realimentados que acho que não conta (risos). Então, como o índice foi bom, eu colocava bem grande no meu currículo. Não sei se ajudou ou se viam isso. Mas, na época, eu pensava bastante no IAA.

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    Cara, acho que matemática e física sim. Eu, sinceramente, não usei integral depois de cálculo... Como posso dizer, eu fiz um ano de escola técnica, mais um ano de cursinho. Estava atrasado uns dois anos de idade em relação aos meus colegas. Eu tinha uma bolsa da ANP, mas é uma bolsa ainda, não é um salário. Eu tava ansioso pra ganhar dinheiro, minha família não tinha muitas condições financeiras. Talvez eu tinha a vontade de fazer mestrado e doutorado e seguir em pesquisa, que daí sim você usaria integral pra caramba. Isso foi meio assim, me formei engenheiro e po, cadê as integral, pra que tanta integral? Mas você precisa fazer... Até em campo, no petróleo, quando eles mostravam as ferramentas, eles mostravam como era feito o cálculo, então você tinha uma ideia do que tava acontecendo ali. Matemática e física é essencial, até pro engenheiro não chegar e falar besteira. Ter bons argumentos. Já programação eu não tive tanto na faculdade, no início o lego, algumas linguagens e só. Eu acho que deveria ter mais. Mas acho que é mais uma tendência hoje em dia né, todo mundo quer fazer um aplicativo, programar.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade?

    Realimentados, mas de maneira geral pra mim era programação. Eu tinha um computador, mas era bem ruinzinho. Não tinha muita coisa instalada no meu PC, sempre quando precisava de alguma coisa ia na casa do meu amigo. Então não tinha full time o computador e quando matéria envolvia algo com programação ficava complicado pra mim.

  • Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Teve uma vez, não foi engraçada, mas foi bizarra pra mim. Professor de Robótica deu uma tarefa pra fazer em casa. Ninguém fez, menos um cara. No dia da aula o professor começa a resolver essa tarefa no quadro e aquele que tinha feito começou a ler um livro, dormir naquela aula. Até que teve um momento que o professor começou a brigar com aquele cara, que ele não prestava atenção na aula dele, falta de respeito e tal. Daí o cara, que já tinha resolvido aquela tarefa em casa, começou a brigar com o professor, que aquilo era falta de respeito, que ele tinha mandado fazer o exercício em casa e chega na aula e começa a resolver pra quem não fez. Ele que já tinha feito tinha que ser obrigado a ver tudo de novo e não sei o que. O professor ficou indo de um lado pra outro, sem saber o que dizer. Foi muito estranho (risos).

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Tive muita ajuda do Professor Plucênio. Acho que fui o último a pegar estágio nessa UniControl, ele que trouxe os recrutadores pra UFSC da Schlumberger. Isso foi de grande ajuda. Até tempo atrás, eu pensei em voltar e fazer um mestrado, falei com ele, ficou super empolgado. Daí comecei a fazer as contas, se eu arrumar uma bolsa, falei com o Júlio, pensei, vou ter que arrumar outra coisa pra ganhar dinheiro e daí mudou um pouco os planos.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Minha turma a gente fez, mas foi no grêmio do RU, foi um dos primeiros, não lembro qual a edição. Eu e um outro amigo ficávamos na churrasqueira. Era bem pequeno mesmo, poucas pessoas. Sem comparação com hoje em dia.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Sim concordo, não sei se já ouviram, mas tem uma frase que fala que o engenheiro de controle e automação é o engenheiro Pato, a gente vê informática, eletrônica e mecânica, vê um pouco de cada. E a analogia com o pato é que ele anda, nada e voa, mas não faz nenhum dos três direito (risos). Eu acho bom pra quando você for fazer um mestrado, porque você tem mais opções de onde focar. Mas eu acho que às vezes falta um pouco de aplicação na indústria, saber como que tu aplica aquele cálculo do PID por exemplo. Saber o que é uma contatora, um relé... Essa parte deixou um pouco a desejar na faculdade.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando?

    Eu sempre lembro que eu queria ter ido pra Argentina assistir WRC (campeonato de rally). Eu e meu amigo íamos de carro e a gente ia na sexta e voltar na segunda. Não fomos porque eu ia perder um dia de aula. Olha como eu era nerd, não fui assistir um campeonato de rally que eu tanto queria porque ia perder um dia de aula. Isso eu me arrependo, não ia fazer diferença nenhuma! (risos)

  • Agora você é dono de um café, desistiu da automação?

    Cara, automação mesmo eu trabalhei quando eu me formei... Eu fiz estágio na décima fase na Unicontrol Automação, aí trabalhei no projeto de reforma da P-34 (plataforma de exploração de petróleo) quando ela estava ancorada em Vitória. Só que esse estágio tinha um problema sério, pagava pouco (risos). Só que eu tinha um amigo que se formou comigo e estava trabalhando na Halliburton, ele trabalha com explosivo, radiação, pressão e pagava bem... Falei, cara, me coloca nessa aí também, no dia que sair uma entrevista eu quero ir. Saiu uma entrevista aqui na UFSC, que quem trouxe foi o Professor Agustinho Plucênio. Ele era pesquisador do PRH-34 (programa de recursos humanos da Petrobras na UFSC). Quando eu fiz o PRH-34 ele era mestrando ainda do programa. Antes tinha trabalhado 15 anos lá e trouxe os caras da Schlumberger pra cá.

  • Como você entrou na Schlumberger?

    Eu já estava morando em SP e aí o professor Plucênio trouxe a entrevista pra cá, o recrutador veio, fez a palestra, a seleção inicial, aí eu vim de SP pra cá, fiz a entrevista, fiz a seleção e voltei pro meu trabalho... Tudo isso em fevereiro daquele ano mais ou menos, Março eles me chamaram pra Macaé-RJ pra fazer prova de inglês, dinâmica de grupo e aí 3 meses depois fiquei mandando email e não tinha nenhuma resposta sobre o processo. Em junho, estava em Vitória trabalhando na P-34 e recebi um email dizendo que fui selecionado pra trabalhar na base deles na Romênia... Eu nem sabia direito onde a Romênia ficava no mapa (risos), mas falei, vamos nessa, é isso aí. Pedi demissão de onde eu trabalhava porque era pra começar em outubro. Fui fazer entrevista em Brasília com o cônsul da Romênia (não era União Européia) e tinha passagem comprada pro dia 30 de setembro, pra no dia 2 de outubro assinar o contrato com a Schlumberger. Mas naquela semana da viagem, eu recebi um telegrama da Petrobras dizendo que eu havia sido aprovado e que era pra comparecer na unidade mais próxima pra eu fazer exame admissional... Daí eu pensei... Se fosse a um tempo atrás eu até aceitava, mas não ia recusar de ir para a Romênia, se eu quisesse entrar na Petrobras depois eu poderia sentar, estudar e fazer a prova de novo. Então decidi continuar indo pra Romênia.

  • Como é trabalhar na Schlumberger?

    Lá é um trabalho pesado, extenuante, mas sempre compensador. Eu sempre digo que cada fio de cabelo branco que eu tenho é uma hora que eu devia tá dormindo e estava trabalhando. Eles sabem o que fazem, eles contratam pessoal recém formado, novo, de preferência que não tenha trabalhado em outra empresa (por não pegar "mania" de outra empresa). Eles falam: pula! Você tem que perguntar que altura, não as consequências se aquilo ia machucar, ou ia cair... Eu morei na Romênia por 3 anos e não conheci direito o Leste Europeu. Quando estava lá eu fiquei noivo, ela foi lá pra morar comigo e fiz meu casamento em menos de 20 dias porque eram minhas férias.

  • Você casou enquanto estava na Romênia então?

    Sim, depois do casamento ela já foi morar comigo pra lá. A empresa entrou com o visto de reunião familiar, mas primeiro ela entrou como turista. Só que esse visto precisa sair, entrar e renovar ele a cada 3 meses. Era tanto trabalho que a gente não conseguiu sair, eu pedi pro meu chefe 2 dias de folga pra fazer isso e foi difícil eu conseguir esse tempo. No aeroporto a gente comprou a passagem pra Itália em cima da hora, chegamos lá sem hotel nem nada, passeamos por lá e voltamos pra Romênia.

  • Depois da Romênia, voltou pro Brasil?

    Sim, em 2008 deu a crise de petróleo na Europa, a empresa Petrom (que seria a Petrobrás de lá) foi vendida pra OMV (um grupo da Áustria). Esse grupo viu que os poços da Romênia davam pouco petróleo e resolveram reduzir das 51 sondas para apenas uma. Então quem tinha que demitir a Schlumberger demitiu e eu me mandaram de volta pro Brasil, pra Mossoró - RN. Aí eu vi que era feliz e não sabia (risos). Lá na europa eu trabalhava menos e ganhava bem mais (em dólar) e aqui eu trabalhava umas 10 vezes mais e ganhava bem menos e em real (risos). A Petrobras sempre contratava 3 empresas de prestação de serviço pra que não fique uma empresa com o monopólio. Só que em Mossoró eram duas, 60% do serviço pra Schlumberger e 40% pra Halliburton. Teve um período que a Halliburton perdeu a licença pra transporte de material radioativo, daí ficamos 100% com o serviço. Nesse período, a gente fazia o trabalho independente de quanto tempo demorava o trabalho. O normal de um trabalho era 24 horas, sair da base, chegar lá, montar, fazer perfil de poço, desmontar e voltar pra base. Depois que você entregava a papelada, o táxi te levava pra casa. Da hora que tu saia da porta da empresa até o taxi te trazer de novo, você tinha 8 horas até começar um novo trabalho. Então você tinha 8 horas pra comer, tomar banho, dormir, fazer o que quiser, antes de fazer um novo trabalho. Ficamos 21 dias assim. Eu chegava em casa e não sabia mais se era dia, noite, não sabia se tinha comido ou não. Mais perto do final o meu gerente foi transferido pra França, foi fazer vendas. E o gerente que ia substituir teve problemas com visto e não conseguiu vir. Daí fiquei 3 meses como gerente na base. Tinham 5 caminhões na base, 9 engenheiros e uns 20 técnicos. Os técnicos faziam só o serviço de avaliação de cimentação e explosivo. Então tinha 30 pessoas fazendo trabalho nesses caminhões 24 horas por dia.

  • O que era esse material radioativo que tinha no processo?

    Quando você fura um poço, na lama que sai tem indício se aquele poço tem petróleo ou não, daí você sabe a profundidade da broca, mas exato mesmo, você tem que descer o wireline, desce ferramenta sônica, ferramenta de resistividade, cada uma da uma medição diferente, porosidade, viscosidade... As ferramentas para medição de porosidade e densidade eram radioativas, então tinha que carregar uma fonte radioativa nela. Era uma fonte de Césio-137 e tinha uma fonte de Amerício Berílio, que ela emitia partículas alfa e dava a porosidade da formação. Por mais que era radiação era um trabalho seguro, a dose exposta anual era menos que você tirasse um raio-x de dentista por exemplo. Daí trabalhava com radiação e explosivo também.

  • Mexeu com explosivo também em campo?

    Depois que você desce a ferramenta e foi definido onde tem petróleo, a companhia desce um revestimento de aço e bombeia cimento entre a formação e esse revestimento, ficando com o anular - aço, cimento e a formação. Daí descem os explosivos para perfurar o aço e cimento, pra produzir petróleo. Então eu descia os explosivos também. Carregava explosivo, armava a espoleta e descia o explosivo.

    E o melhor explosivo que existe no mundo é desenvolvido pela indústria de petróleo. Se chama shaped charge, é um cone de liga de metal e atrás tem um explosivo HMX, RMX, um explosivo de alta densidade. E, quando explode, ele aplica uma pressão enorme no metal e derrete ele. Então, esse metal é projetado, perfurando o aço, cimento e mais um metro da pedra. Eu fazia a parte de poço aberto e poço fechado, quando tinha ferramenta de avaliação de produção, era com poço pressurizado em dez mil PSI. Então tinha equipamentos na ponta do poço para aguentar toda essa pressão. Tudo que tinha pra matar, tinha lá (risos).

  • Ocorria muito acidentes radioativos ou com os explosivos?

    Onde mais perde pessoas não é com explosivos ou radiação, mas sim acidente de carro. Então era muito sério fazer as viagens. Se fosse fazer a noite, com caminhão e fonte radioativa carregada, tinha que ligar pra um gerente de Rio de janeiro e pedir autorização. Tinha uma planilha para especificar se era estrada de terra, asfaltada, de dia, de noite, com explosivo ou com radiação, quantas horas dormiram - toda uma avaliação para o gerente aprovar ou não.

  • E como é trabalhar como gerente?

    Como gerente, tu tens um chefe em cima de ti, tem os funcionários que querem mais trabalho e os que querem menos. O problema de todo mundo é teu problema. Aqueles 3 meses como gerente foram os mais estressantes na Schlumberger.

  • E depois de Mossoró, continuou na área?

    Fui transferido pra Urucu. A base da Petrobrás no meio da Amazônia. Lá, todos os trabalhos são pela Schlumberger. Pra chegar lá, tu pega um avião em Manaus por uma hora e meia pra dentro da floresta. Daí o piloto aterrissa usando só a visão em um aeródromo, pois não tem a instrumentação de um aeroporto normal. Então, se estiver nublado, tem que voltar pra Manaus. Além disso, a sonda de exploração e todo o equipamento vai de helicóptero. Tinham que enviar desmontado para montar lá de novo. E tinha que ser um helicóptero especial para carregar o cabo e todas as outras peças, só o cabo tinha 7 toneladas. Lá foi uma experiência legal. Depois de um ano lá, queriam me transferir para a Colômbia.

  • Nunca para em um lugar né?

    Isso é uma política da Schlumberger pra evitar que haja máfia ou esquema de corrupção. Porque se tu estás num lugar a muito tempo, já vai conhecer o cara que fornece tal coisa e assim vai. Gerência é um ano, no máximo dois. Funcionário são dois anos. Ficam mudando para não criarem rede para fazer desvios. Transferem gerente todo ano. É uma empresa séria.

  • E a oportunidade na Colômbia, como ficou?

    Eu fui falar com o pessoal da Colômbia. Lá, falaram que faziam alguns trabalhos em zona das FARC. E eles querem roubar os explosivos que usamos para perfuração. Então, me falaram que tinha que levar os explosivos todos desmontados acompanhados, como escolta, um tanque de guerra do exército. Aí eu falei "cara eu não to gostando muito dessas conversas" (risos). Ele também me falou que, como é zona das FARC, teu uniforme não tem o nome da empresa, tu usa um uniforme azul, pra que não identifiquem quem é quem, se vem de fora ou não. E sempre tem um helicóptero no chão com o motor ligado para que, se o alarme soar (pela vigilância do perímetro), tu larga o que estiver fazendo e corre para o helicóptero. Na hora que entrar no helicóptero ele decola. Daí eu tentei negociar, mas eles não aceitaram.

    Então, pedi demissão da Schlumberger e fui pra Halliburton. Que era o mesmo esquema, mas era em Macaé - RJ. Aí nos mudamos para lá. Isso de 2012 pra 2013. Depois disso, começou todo esse negócio da Petrobrás e eu fui demitido da Halliburton. E fui trabalhar na Aker que era em Macaé também. Instalação de árvore de natal. Daí foi outro nível, era corrido e tinha stress mas era muito mais devagar. Parecia slow motion (risos). Foi muito mais sossegado, eu trabalhava lá embarcado de 15 em 15 dias. Daí a Aker perdeu o contrato e demitiu 80% da força de trabalho, incluindo eu.

  • E depois de tudo isso abriu o café?

    Depois disso, conversei com um amigo meu que tinha sido demitido alguns meses antes e ele falou que estava há 4 meses mandando e-mail e ninguém respondia nem sim nem não. Daí eu decidi que não ficaria assim, ou eu iria pro exterior e procurava alguém que eu já trabalhei junto, ou iria abrir nosso negócio. A piada era abrir um lugar e vender cachorro-quente. Mas a gente gostava mesmo de café então decidimos abrir um. Fomos atrás, no SEBRAE e vimos que tinha que ter um diferencial. Então fomos pra São Paulo fazer curso pra raposeiras, que é o café especial no Brasil. Visitamos quase todas as cafeterias lá pra pegar benchmark e estamos aqui há um ano. Mudamos de ouro negro né, do petróleo pro café.

  • Por que aqui em Florianópolis?

    Nossa família é daqui. Os pais dela são daqui, minha mãe mora aqui. Irmãos moram aqui também. Quando você tem filho pequeno, você quer que ele aproveite a família.

  • Depois de tudo isso, queria ficar no Brasil?

    Logo depois de ter casado, eu fiquei um tempo no Brasil como comentei e depois eu fui emprestado (interproject) pro Canadá. Minha lua de mel foi eu trabalhando lá (risos). Fui pra lá, fizeram os treinamentos comigo lá e todo o restante do pessoal já tinha ido pra campo. Lá no Canadá eles mais “mineram” o petróleo do que extraem, lá é raso, daí eles cavam, retiram a areia (oil sands), meio que refinam aquela areia. É um processo bem caro, mas a exploração eles fazem no inverno que congela tudo, você consegue levar o caminhão lá, perfurar, fazer perfil elétrico. Porque quando derrete você não consegue chegar lá, é um banhado, fica inacessível. Lá eles trabalham daí 24 horas, todos os dias no inverno. Cheguei lá fazendo trabalho em escritório e depois fui pra campo, foi o ponto mais ao norte que eu já fui na vida. Eu ia de camionete pra lá, via na janela a aurora boreal. Lá tem uma regra que quando chega a -40 graus, o trabalho tem que parar, mas nunca chegou a essa temperatura. O pessoal brincava que tinha um preguinho no final do termômetro pra nunca dar 40 graus negativos. A menor temperatura que eu peguei foi menos 38.

  • Como era o trabalho no Canadá? O que você fazia?

    A equipe de wireline é um engenheiro e dois operadores, o engenheiro controla a ferramenta do computador e os 2 operadores vão lá montar a ferramenta na boca do poço, você tem que ir montando em partes, de 3 em 3 metros, no final fica com 20 metros que você desce no poço. É um heptacabo, cabo de aço que dentro tem 7 condutores que você energiza, faz telemetria da ferramenta pelo cabo. Então, quem monta a ferramenta é o operador e quem controla é o engenheiro e quem carrega a fonte radioativa da ferramenta é o engenheiro. Daí tu tem que sair do escritório, carrega a fonte, desce a ferramenta no poço e volta pro escritório quentinho. Só que estava com falta de operador e nesse caminhão estava eu e mais um como engenheiro e um operador. Então a cada trabalho, um dos engenheiros tinham que trabalhar como operador. Pra usar a ferramenta, o normal é você montar a ferramenta, ligar, fazer alguns testes e calibração inicial e depois descer. Lá, de tão frio que era, na superfície a ferramenta não ligava. Tinha que descer ela no poço uns 200 metros, esperar um tempo pra que o calor do poço esquentasse e daí energizar a ferramenta. Depois que o serviço fosse feito, a gente tirava a ferramenta e ela tava suja, pra lavar tinha que ser com vapor de água. Pra lavar tinha todas as proteções, só que às vezes, quando batia o vapor, voltava e entrava por debaixo dos óculos e congelava o olho, não conseguia abrir ele, tinha que fazer força pra conseguir abrir... O serviço era punk (risos).

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Queremos mexer com café. Queremos iniciar a torra de café, então a gente vai iniciar contatos com fazendas, pegar o café lá. Se der certo, vou fazer meu mestrado, mas mais por ego do que por seguir na área.

  • Teria alguma dica (pulo do gato) para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Se você quiser ir para a área do petróleo, você tem que estar disposto a trabalhar muito. Desde que eu entrei na Schlumberger já existia aquela frase "Work hard, play hard". Hoje já existe em outros lugares também, mas acho que foi cunhada lá, justifica. Você tem que estar disposto a trabalhar. Uma outra visão que eu tinha era que chefe era vida boa, ah, ele só fica atendendo celular. Realmente, ele só fica atendendo celular, 24 horas por dia, resolvendo problema.

  • Por que café rei da montanha?

    Essa é ooooutra história (risos). Durante a faculdade, na quarta fase, fazendo mecânica geral, eu não tava entendendo nada, falei pro meu amigo: "Cara, vamo pedalar?" A gente começou a pedalar todo dia na beira mar antes de ir pra faculdade, fazíamos uma hora. Nas férias a gente ia viajar no pedal. A gente ia pra Curitiba, pra Lages e antes de me formar a gente foi pra Montevidéu de bicicleta. Foram 11 dias. Quando eu me formei eu parei, achava legal, mas não dava tempo. Doze anos depois quando a gente veio pra cá que eu comecei a pedalar de novo. Se você observar no Tour de France, tem a camisa amarela que é quem tá com menor tempo, camisa branca com destaque jovem, verde é o melhor sprinter e tem a camisa branca com bolinha vermelha que é o "king of the mountain", o rei da montanha, que é o que escala melhor a montanha. E o café, quanto mais alto ele é plantado melhor o café. O melhor café do mundo por exemplo é o blue mountain na Jamaica, ele é 2500m de altitude mais ou menos. Daí quando eu tava escolhendo o nome pra cá eu tava chutando uns nomes como: café do engenheiro, integral café, café do estudante... Mas eu cheguei um dia em casa do pedal, parei no strava e ganhei no segmento um "king of the mountain", daí falei, "ah, tá aí o nome, Rei da Montanha". Pronto, escolhi o nome da cafeteria (risos).

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Se esforce, mas pode faltar a segunda-feira... (risos). Brincadeiras a parte, estudem, mas não deixem de aproveitar e tentem fazer algo extra curricular.

Mensagem Final aos estudantes

Você se sente às vezes sobrecarregado, que não vai conseguir fazer, mas nada é igual do que depois que tu se forma, então aproveita a faculdade que é um tempo único na vida, depois não volta essa moleza.