Entrevista

15/08/2018


Confira!

  • Por que escolheu automação?

    Essa pergunta é bem difícil, porque depois que você já está aqui e vê tudo o que aconteceu, você se lembra das decisões do passado e percebe que não sabia de nada (risos). Eu vim pois o curso e o mercado de trabalho me pareciam interessantes, mas era uma ideia muito vaga. Não tinha uma fonte real do que fazia um engenheiro de controle e automação, mas parecia legal. Pelo menos não parecia algo tão específico. Acho que já vim imaginando que teria várias possibilidades, e acabei parando em uma área que gosto bastante.

  • Chegou a fazer curso técnico antes de entrar no curso?

    Não, realmente aprendi o que sei durante o curso e nos estágios. Entrei sem nem saber direito o que era uma linguagem de programação, assim já dá para ver que realmente não é um pré-requisito. O que percebo, até pelas minhas experiências, é que tem gente com diversos históricos, desde muito focadas na parte acadêmica até quem buscou muitas áreas diferentes. As suas experiências são como um canivete suíço, basta saber o que você quer fazer com aquilo.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu não saía muito. Praticamente o curso todo fiz atividades extras. No início dei monitoria particular, depois entrei na Autojun, e então segui para os estágios. Isso já ocupava bastante tempo. Além de tudo, durante boa parte do curso fiz estágio numa empresa que não era perto da UFSC, então entre deslocamento, estágio e disciplinas os dias passavam bem rápido. A vida era basicamente só isso. Hoje talvez eu fizesse diferente, a mentalidade que tenho hoje é bem diferente da que eu tinha.

  • E o grupo das Automacats, já existia?

    As Automacats surgiram quando eu estava no meio da graduação, se não me engano na primeira reunião eu estava na terceira fase. No meu semestre só tinha eu de menina. Até tiveram algumas disciplinas que eu fiz com meninas de outras fases, mas no geral era só eu. Acabei não formando muito um grupo com elas, as reuniões das Automacats eram mais esporádicas, mas sempre contando umas com as outras.

  • A tua turma 04.1 era muito unida?

    Acho que sim. Eu sinto que fiquei um pouco de fora, estava sempre na correria entre aula e estágio, e talvez por ser a única mulher ou porque eu sou um pouco reservada mesmo. Os meninos eram bem unidos e a turma ficou bem inteira no final, teve alguns que foram ficando, algumas desistências, mas se você pegar o número de formados são muitos da turma original.

  • Em algum momento pensou em mudar de curso?

    Várias vezes isso passou pela minha cabeça (risos). Mesmo depois de formada, pensei em seguir outros caminhos. É super normal pensar em outras coisas, existem as dificuldades durante o curso e às vezes eu me perguntava se valia a pena a vida naquele ritmo. Tudo isso só me fez ver que os caminhos são vários. Você pode mudar de ideia uma vez, depois mudar de novo e tudo bem, não tem problema com isso.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Como essas atividades contribuíram depois?

    Fiz parte da Autojun, e isso contribuiu bastante para melhorar o relacionamento interpessoal, e aprender a lidar com problemas de trabalho e resoluções de conflitos. Antes da graduação eu estava muito imersa em terceirão e vestibular, e de repente me deparo com pessoas diferentes, vivendo outros contextos e de alguma forma temos que trabalhar em equipe. Abriu uma pequena porta de como iria ser o mercado de trabalho.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Vou te dizer que pro mercado de trabalho as notas não fizeram diferença nenhuma. Eu me importava muito com isso, mas hoje vejo que deveria ter me importado menos, porque realmente não vejo que tenha feito diferença. Eu era bastante dedicada! Tive notas baixas também, pois realmente existem matérias bem complicadas, mas acho que se tivesse tido outras notas, não teria mudado muita coisa. Nos trabalhos que eu tive, não acredito que isso tenha sido algo definitivo na minha contratação. Inclusive já entrevistei candidatos, principalmente estagiários, e particularmente nunca olhei nota. O que vale no fim das contas é o dia a dia, como a pessoa vai lidar com as demandas.

  • Qual matéria mais te chamava atenção? Sempre gostou de programação?

    Eu já gostava bastante da área que estou hoje, sim! Durante os estágios foi muito bom ter disciplinas da área de programação e desenvolvimento de sistemas. Gostava bastante da parte de automação industrial, mas não cheguei a trabalhar diretamente com isso. Controle eu achava interessante, mas nunca foi o meu foco de atuação. No meu PFC isso acabou aparecendo um pouco, mas nada tão focado quanto a parte de desenvolvimento de software mesmo.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Na nona fase todo mundo ajudava um pouco, mas eu não fiz parte da organização. A gente sabia o que estava acontecendo na organização, e no dia da festa todo mundo trabalhou. Hoje as coisas estão numa proporção gigantesca! O que a minha turma organizou já foi bem grande, e foi muito maior se comparado ao primeiro que eu fui (que se não me engano foi a segunda ou terceira edição) e que era só o pessoal do curso, alguns amigos, e no meu semestre já foi tipo “De onde vieram todas essas pessoas?”. Hoje dá pra ver que está ainda maior.

  • Quais suas responsabilidades dentro da Khomp?

    Eu trabalho com telecomunicações, especificamente com SBCs virtuais, que são dispositivos de software para redes de voz. Sou responsável por um produto dessa linha, o que inclui desenvolver software também. Está tudo relacionado, desde pensar no produto, ter alguma interação com o cliente, com o suporte técnico e também com a equipe de desenvolvedores. É basicamente gerenciar as tarefas da equipe, priorizar o que tem que ser feito, fazer essa ponte entre comercial e desenvolvimento e estar de olho no mercado, para ver o que melhorar.

  • Como é seu dia a dia hoje?

    O cargo de desenvolvedora não é a toa, pois tem a parte de sentar e programar também. Acaba não sendo a maior parte do tempo, por conta das outras atribuições. A rotina é bem dinâmica e vai sendo determinada pela demanda das atividades que já citei na outra pergunta.

  • A empresa surgiu na mesma base que trabalha hoje?

    A empresa surgiu com foco no mercado de Telecom, mas com produtos para um segmento mais específico. Hoje temos várias outras frentes aqui na empresa. Essa em que eu trabalho é de aplicações para Telecom, mas temos frentes também de IoT, inteligência artificial... Tem várias coisas acontecendo por aqui, o pessoal que entra geralmente tem bastante ocupação.

  • Quais experiências te fizeram chegar até aqui?

    Desde a quinta fase eu já fazia estágio na área de desenvolvimento de software. Trabalhava no Laboratório de Telemedicina, com C++, e depois disso surgiu uma boa oportunidade para estágio numa empresa de Telecom, que eu gostei bastante. Desde então sempre trabalhei com VoIP e SIP, e a experiência que fui adquirindo foi me direcionando para as próximas oportunidades. Fiz outras coisas, como o PFC em uma área diferente, mas acabei voltando por conta da experiência para a área de Telecom.

  • E mercado de futuro para quem está saindo da faculdade agora, você acha que a perspectiva é boa ou melhor ir para o mestrado?

    Nos locais em que eu já trabalhei, a graduação foi o suficiente. Claro que, quando você já está trabalhando em algo específico, e você busca uma especialização, isso conta muito. Mas eu vejo que, para entrar numa empresa nova, ter um conhecimento muito específico talvez não ajude justamente porque na empresa você precisa se adaptar, o que conta não é o que você aprendeu na graduação ou no mestrado, é como as coisas são feitas naquela empresa. Acho que para quem sai da graduação com essa abertura de aprender coisas novas, o mercado tem uma perspectiva boa. A gente às vezes cria expectativas, pensando que vai ser desde o começo especialista numa área e a realidade não é bem essa. A gente pensa isso por ter feito um ótimo curso, mas você só vai mostrar que é bom no dia-a-dia, na prática. Eu vejo as pessoas se decepcionarem um pouco com esse começo assim que termina a graduação porque tem que começar de baixo, e o caminho você vai fazendo depois, ao longo dos anos.

  • Como avalia o mercado de trabalho de Floripa? Está favorável?

    Para a área de desenvolvimento de software acredito que o mercado esteja bom sim. Estou no ramo de Telecom desde a época de estágios na graduação, desde a sétima fase. Acabei fazendo algumas coisas em outras áreas, mas sempre voltei para essa que foi onde acabei adquirindo mais experiência. Aqui há algumas opções de empresas grandes nessa área. No geral existem várias empresas de desenvolvimento de software por aqui, para diversos segmentos de mercado e linguagens de programação. Eu vejo o mercado em Floripa como bem favorável nesse quesito.

  • Na relação salarial, como foi para você quando saiu, bateu um desespero ou foi o que você esperava? Deu para sentir a realidade nos estágios?

    Durante os estágios em empresas a questão salarial foi legal, acho que melhor do que se eu fosse bolsista na universidade. Mas ao fim da graduação, para ser efetivada, tive que baixar um pouco as expectativas. Quando você está começando, a não ser que a empresa já te conheça de algum estágio, ninguém sabe muito bem como vai ser, então é uma aposta que os dois lados fazem. É um mercado que tem bastante mão de obra disponível, mas às vezes é difícil achar um desenvolvedor que realmente se encaixe na função, porque pode ser que saiba outras linguagens, ou tenha afinidade com outras outras áreas.

  • Como você se vê daqui alguns anos? Sua perspectiva é continuar na empresa, continuar em Floripa, voltar pra cidade natal…

    Voltar para minha cidade natal acho que não. Eu já trabalho aqui em Floripa há bastante tempo, meu marido trabalha aqui também, temos filhos aqui. Meio que criamos raízes. Mas uma coisa que a vida me ensinou é que nada é permanente. Hoje eu penso assim, mas pode ser que algum dia as coisas mudem. Já mudei de ideia e de planos algumas vezes e se precisar mudar de novo não terá problema. No momento estou gostando muito do trabalho que estou fazendo, do papel que desempenho aqui dentro, a empresa está crescendo e tem uma perspectiva boa. Hoje eu tenho objetivos e planos de mais curto prazo.

  • Tem alguma dica para alguém que também tenha interesse na área de desenvolvimento de software?

    Eu vejo que o que mais conta de fato é ir agregando experiências, estágios na área para descobrir se é o que você gosta, até pra testar o mercado. Nos estágios você tem menos responsabilidades do que depois que você é efetivado. Pode aproveitar para observar as pessoas ao seu redor, como elas trabalham, e você pode se perguntar se quer seguir essa carreira, trabalhar como essa pessoa, ter um dia-a-dia com um trabalho parecido... Outra dica é não se restringir apenas às proximidades da UFSC e laboratórios de pesquisa, porque há empresas legais para se fazer estágio na Grande Florianópolis. Às vezes numa empresa, na prática, você consegue ver a relação com o que você está estudando e o conhecimento é absorvido muito mais facilmente, porque você viu o propósito daquilo.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Na minha época foi bom, mas não sei dizer como está hoje. Na época era mais por contato, sorte de talvez você conhecer alguém que soubesse de alguma vaga, não tinha uma divulgação centralizada dos estágios. Acho que essa seria uma iniciativa legal.

  • Como surgiu a oportunidade do PFC?

    Na época existia um vínculo da UFSC com a universidade RWTH em Aachen, e frequentemente tinham vagas de estágio para estudantes brasileiros. Foi assim que a oportunidade surgiu para mim e quis ir. Na época eu estava fazendo estágio numa empresa de Telecom, e estava nos planos voltar para lá quando eu retornasse ao Brasil. Tive proposta de continuar em Aachen para fazer mestrado, mas acabei optando pelos planos no Brasil. Fiz meu PFC em metrologia óptica, e na UFSC também surgiram oportunidades de seguir nessa área, mas não quis seguir na área acadêmica. Gostei muito do trabalho, foi bem específico e diferente dos meus trabalhos anteriores, mas ainda na área de desenvolvimento de software.

  • Você chegou a fazer mestrado?

    Não, fiz algumas cadeiras do mestrado do DAS, mas senti que a distância entre o mercado de trabalho e a vida acadêmica é muito grande. Eu trabalhava em outra empresa na época, e foi bem impactante fazer esse paralelo. As disciplinas eram bastante teóricas e eu buscava uma relação com o meu trabalho, com as coisas na prática. Além disso, foi bastante complicado conciliar a carga horária do trabalho com as disciplinas e decidi não prosseguir.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Pra mim foi bom, justamente porque me deu essa possibilidade de trabalhar com várias coisas, e no mercado de trabalho eu vi que você vai acabar aprendendo é no dia-a-dia mesmo. Eu achei muito bom saber que existem todas essas possibilidades, qual é mais ou menos o caminho, e com isso você aprende a se virar. A partir do momento em que você escolhe o foco, você tem essas ferramentas para ir atrás, não precisa necessariamente sair com uma grande bagagem do curso, porque você vai aprender é com a prática. Por exemplo, eu trabalho com telecomunicações aqui, mas se eu for para outra empresa de telecomunicações, o que eu vou ter que aprender é diferente do que é feito aqui, é uma outra forma de fazer as coisas, é outro produto, outro código, outra cultura da empresa. Então eu acho muito difícil que a pessoa saia de um curso que seja muito específico completamente preparada. Nem o específico nem o genérico vão te preparar totalmente, vai partir mais de você, de se interessar e realmente ir aprendendo conforme for precisando. Então voltando à pergunta, eu vejo como isso como uma característica positiva.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Eu acho que me orgulho e me arrependo da mesma coisa. Eu lembro de ter sido focada, de ter conseguido concluir o curso com boas notas, de ter feito bons estágios, de ter conseguido seguir um caminho. Ter tido um objetivo e ter ido atrás dele. Mas eu vejo que por ter estado muito focada eu deixei passar algumas coisas. Às vezes eu penso: “Poxa, talvez eu não precisasse ter ligado tanto para as notas e trabalhos, ter feito tudo tão certinho, talvez eu pudesse ter aproveitado mais, saído mais, faltado uma aula”. Na época eu via isso como o fim do mundo, mas hoje tento levar a vida de forma mais leve, eu era muito regradinha na graduação. Se você já é assim, e o curso te leva a ser assim, então você só está reforçando uma característica. Precisou que acontecessem algumas coisas na minha vida para eu perceber que não é bem assim, tem outros caminhos para se chegar no mesmo lugar. Cada um chega no seu tempo, do seu jeito. É questão equilíbrio, acho que isso faltou para mim, eu estava muito focada numa coisa e deixei outras de lado.

Mensagem Final aos estudantes

Tem muito mais na vida e no próprio mercado de trabalho do que apenas aquilo que vemos na graduação. As aulas são importantes, as provas são importantes, os professores, os trabalhos também, mas não é só isso. Há várias coisas que você pode fazer, no mercado de trabalho especificamente, que aparentemente não têm nada a ver com o curso, mas se você encontrar uma relação com o que você estudou, você vai se destacar justamente por conta desse background que você teve. Então se fosse para resumir em uma mensagem, eu falaria para estar sempre aberto às oportunidades e procurar fazer o que gosta. Testar, fazer estágio, ir atrás de coisas para realmente descobrir se você gosta daquilo. Quando você faz algo que gosta, é muito melhor do que fazer só porque o curso ofereceu essa oportunidade ou porque parece ser o caminho óbvio a ser seguido. Existem vários caminhos possíveis. Entenda que a sua história é somente sua, não precisa ser igual à história do seu colega. Ela não vai ser melhor nem pior, será somente a sua história.