Entrevista

13/09/2017


Da engenharia para o emprego do sonho de muitos profissionais, nosso entrevistado de hoje é Eduardo Zen Cerny, estrategista de contas para o Google Brasil. Conheça o mindset dessa gigante, bastidores do processo de seleção, e todo o caminho que o Zen traçou para chegar até lá, que passa por cursar duas faculdades em paralelo, estágios, intercâmbios e claro, um ótimo Linguição.

  • O que faz um estrategista de contas?

    Eu trabalho na área de vendas, no que está relacionado a parte de anúncios, que é responsável por gerar 90% da receita do Google. Estou num time que dá suporte aos anunciantes. Meu trabalho é entender muito de produto, das soluções de AdWords, para tentar otimizar o desempenho dos anúncios e maximizar o retorno para o anunciante.

    É uma função muito analítica, pois preciso analisar uma série de métricas e indicadores para dar boas recomendações aos anunciantes. Fazendo um paralelo dá para pensar em uma consultoria, pois tenho que fazer análises e dar recomendações de como eles podem melhorar seus resultados.

  • Você busca ativamente os anunciantes ou eles que buscam o Google?

    Eu trabalho com o atendimento aos grandes anunciantes brasileiros, então já são clientes que anunciam há algum tempo. Trabalho com uma vertical/indústria específica, e escolhemos alguns clientes para ter um atendimento dedicado (cerca de 2 a 3 clientes), enquanto com os outros fazemos algumas sessões ocasionalmente.

  • Escritório Google daqui cuida só do Brasil ou América Latina?

    Só do Brasil. Para a América Latina, tem um escritório na Argentina que é maior e alguns menores em outros países. São Paulo é bem focado em vendas. Então trabalhamos bastante com os anunciantes e existem também áreas que cuidam de Google Play e Youtube, por exemplo.

    Engenharia do Google aqui no Brasil está em Belo Horizonte (MG). É o polo pra quem quer seguir uma carreira técnica na automação. Lá tem muita gente trabalhando em produtos do Google para o mercado brasileiro ou algumas adaptações. Por exemplo, fizeram uma parceria com o Einstein aqui de São Paulo e os engenheiros cuidaram de toda a parte do algoritmo de busca para que, quando alguém fizesse alguma busca aqui no Brasil sobre algum sintoma de doença, aparecessem algumas indicações de qual doença poderia ser. Então, se tem mais confiança de que aquele diagnóstico é mais correto do que um resultado qualquer na internet, pois tem uma parceria de um hospital de renome. Além disso, muita localização de produtos também. Porque, muitas vezes, o que funciona pros Estados Unidos não se aplica 100% aqui. Então tem que ser feito algum tipo de adaptação. Belo Horizonte é um escritório com 100 ou 150 pessoas trabalhando lá, só com engenharia, e está crescendo. Então há bastante oportunidade pra quem está se formando e tem interesse em trabalhar nessa empresa.

    O Google vai ser exigente na entrada. Então, se está no começo do curso, comece a adquirir experiências e habilidades que você vai precisar. Para que consiga passar pelas entrevistas e consiga trabalhar nessa empresa assim que sair da faculdade.

  • Processo seletivo é o mesmo em São Paulo e Minas Gerais?

    É parecido. Aqui, numa vaga de vendas, vão olhar 4 critérios: liderança, habilidade cognitiva, experiência relacionada ao cargo e Googliness (critério cultural). Se você aplicar para uma vaga voltada pra Engenharia, terão mais etapas avaliando seu conhecimento de programação. Vão passar algumas tarefas e você tem um tempo para desenvolver e apresentar.

  • E perguntas como "se você fosse um objeto, qual seria?"?

    Fizeram no passado. Mas já faz alguns anos que não é feito mais esse tipo de pergunta. É um processo bem equilibrado. Não tem nenhuma pergunta que foge muito das experiências, de quem você é, de que forma resolveu alguns problemas ou de coisas relacionadas ao trabalho. Nada dessas perguntas sensacionalistas (risos). Normalmente querem saber a sua forma de “quebrar” um problema e encontrar uma solução através disso.

  • Quantos funcionários possui no escritório de SP?

    Em SP são mais ou menos 700. São os últimos 4 andares de um prédio. O escritório aqui é legal, tem sala de video game, ping pong, tem dois restaurantes... São pequenas coisas que fazem a diferença pra você ser mais feliz. Eu chego todo dia de manhã aqui e tem um café-da-manhã enorme (de hotel) me esperando. Almoço aqui, não preciso sair e gastar dinheiro. Final da tarde hoje tinha açaí. Muitas vezes eu fico pensando no momento que eu tava me formando. Eu achava muito legal o trabalho que um consultor faz, gosto muito de estar no nível mais estratégico do negócio e o que eu posso impactar esse negócio, mas ao mesmo tempo se eu for colocar tudo na balança, não sei se vale a pena. Já conheci gente da consultoria que já bateu 90, 100 horas na semana trabalhando. Dificilmente eu faço 50 horas numa semana. O Google preza bastante pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

  • E a propaganda do jeito Google de se trabalhar, existe mesmo?

    Você tem total flexibilidade e liberdade sobre os horários; se quiser parar no meio do dia e chamar um colega pra ir jogar ping pong, por exemplo, tá tudo bem. Você tem todas as refeições na empresa e tudo à vontade. Tem academia, médico e várias outras coisas à disposição. A empresa coloca tudo isso para que você se sinta bem enquanto está lá. Cada um tem que saber gerir seu tempo para atingir suas metas e objetivos. É uma questão de bom senso. Mas uma coisa muito forte no jeito Google de ser, além da estrutura, é todo mundo se ajudar o tempo todo, independente da quantidade de trabalho. Todo esse ambiente te dá uma tranquilidade maior para você fazer um bom trabalho. E também existe um incentivo muito grande pra você equilibrar sua vida pessoal e profissional.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Eu fiz um intercâmbio de um ano na Alemanha pelo Rotary e quando voltei para o Brasil a inscrição do vestibular já estava aberta. Eu nunca tive ideia do que eu queria fazer. Então imprimi a lista dos cursos e comecei a riscar todos aqueles cursos que eu sabia que não fariam sentido pra mim. Sobraram algumas engenharias e administração, muito pela minha afinidade com matemática. Eu gostei da ideia do curso de administração (que acabei cursando em paralelo na UDESC), mas acreditava que a formação de engenharia seria mais interessante para minha carreira no futuro.

    No final, fiquei entre Mecânica e Automação. Tinha um amigo na mesma situação e conseguimos marcar uma reunião com o professor Augusto. Eu tinha receio que automação seria muito específico e isso poderia me limitar no futuro, mas o professor Augusto me mostrou que, na verdade, a automação era um curso muito mais amplo e abrangente, e isso acabou sendo decisivo na minha escolha.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...?

    Quando eu entrei na administração alguns colegas da UDESC que já faziam engenharia falavam de grupos como NEO, PET e Autojun e me interessei por esses grupos. Já na segunda fase, ainda calouro, tentei o processo seletivo do NEO e acabei não passando. Achava o NEO uma oportunidade diferenciada, principalmente pelo estágio nas empresas. Na terceira fase tentei de novo e também não consegui. Então comecei a procurar outras coisas para fazer e trabalhei nos feedbacks. No final da terceira fase consegui uma vaga no LabMetro, fiquei um ou dois meses. No início da quarta fase tentei o NEO de novo e consegui entrar, então sai do laboratório pra me dedicar pro NEO, onde fiquei até me formar e pude fazer estágios na WEG e na Embraco e também na BMW, na Alemanha.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Durante o dia, ou eu estava na aula ou estava no NEO. O NEO tem bastante flexibilidade e isso me permitia aproveitar bem o período do dia. À noite eu ia para a UDESC fazer as aulas na administração. Você tem que saber aproveitar o tempo que tem. Quando eu fazia tudo isso, conseguia cumprir tudo e ainda ter tempo pra outras coisas. Depois, quando terminei a faculdade, tinha mais tempo livre, mas parecia que conseguia fazer menos coisas. Então quanto mais coisas que você tem pra fazer, mais consegue render e dar conta do recado. Não foi algo que me atrapalhou pra sair, estudava no fim de semana apenas quando precisava mesmo. Fui dando meu jeito e consegui chegar lá.

  • Você saiu da faculdade e foi para o Google ou trabalhou em outras empresas antes?

    A história é até um pouco curiosa. Eu estava fazendo estágio de férias pelo NEO e um dia chegou um email sobre o programa de estágio do Google. Depois dele nunca mais chegou nada parecido. No email dizia que estavam abertas as inscrições para o programa de estágio no Google, mas eu já estaria formado na época, então não sabia nem se conseguiria fazer o estágio. Além disso, a gente acha que é impossível passar no processo seletivo no Google, mas eu pensei que não tinha nada a perder.

    Me inscrevi com o objetivo de pelo menos aprender com o processo seletivo, pois não sabia para qual área iria depois de me formar mas, provavelmente iria fazer processos de trainee ou consultoria. Então, fui fazendo as etapas do processo e passando. Só então comecei a levar mais a sério e acabei entrando.

    Como fazia duas faculdades, Automação na UFSC e Administração na UDESC, consegui postergar minha formatura na Udesc e fazer o estágio. No final, foi um email que veio 'meio do nada' e acabou dando certo e estou aqui até hoje.

  • Como foi levar as duas faculdades e as atividades extras como NEO?

    Enquanto não participava do NEO, era mais fácil de ter uma rotina mais disciplinada para estudar. No começo da faculdade, quando a galera ainda estava começando, eu já estava num ritmo mais acelerado por conta do outro curso. Quando eu entrei no NEO foi um semestre muito puxado, talvez o mais puxado na faculdade, então eu fui soltando um pouco as matérias da administração e focando na Automação e no NEO, pois sabia que essas experiências seriam mais importantes para a minha carreira.

  • Área técnica sabia, mas talvez não era o mais indicado. A área do Business você consegue fazer muito melhor né?

    É, fiz alguns projetos que eram bem técnicos, trabalhando com placas eletrônicas, por exemplo, e eu sabia que tinha capacidade pra resolver aqueles problemas, que o curso tinha me capacitado pra aquilo, mas eu não me via fazendo esse tipo de atividade pro resto da vida.

  • Você comentou que trabalhou na Embraco e na BMW, fez o PFC em qual dessas empresas?

    O estágio do final de curso (obrigatório) eu fiz na BMW, na Alemanha, onde fiquei num departamento de impressão 3D. Foi uma experiência impressionante trabalhar na parte de P&D de uma empresa como a BMW. Eram mais de 8 mil pessoas só para pensar e desenvolver os carros que a empresa vai lançar nos próximos anos. E o PFC eu peguei um estágio na Embraco, na área de Pricing, escrevi sobre o projeto e apresentei ele como projeto de fim de curso.

  • IAA importa? Você é um caso fora da curva porque fez duas faculdades ao mesmo tempo, e teve bastante atividades extracurriculares... o que você achou mais importante? As experiências profissionais e extracurriculares ou boas notas nas faculdades?

    Eu li a entrevista do Bruno e acho que ele foi muito feliz na colocação dele. Penso que IAA depende muito do que você quer fazer. Se você quer seguir na área acadêmica, emendar um mestrado, ou de alguma forma você vê que vai ter alguma utilidade pro seu futuro, o IAA pode ser importante, mas não diria ainda que é o mais importante.

    Como eu sabia que eu queria seguir uma carreira profissional e não acadêmica, pra mim o que mais importava era a experiência profissional, poder experimentar coisas diferentes pra entender o que eu queria fazer e até mesmo o que eu não queria fazer no meu futuro. Pra mim, muito mais que saber o lado técnico profundamente, o importante é você ter capacidade de aprender e resolver problemas. Outro desenvolvimento que valorizo muito até hoje é a habilidade de se relacionar com as pessoas dentro das empresas. Então ao longo da faculdade foquei muito em ter boas experiências profissionais que me proporcionassem essa evolução, ao invés de focar em ter um IAA excelente.

    Mesmo assim, como o Bruno comentou, pode ser que no futuro esse meu IAA possa vir a ser importante, pois tenho planos de fazer MBA fora do país nos próximos anos. Para mim, o MBA é uma troca de experiência muito rica.

    Mas se você quer entrar numa empresa como o Google, confesso que quando vim fazer estágio e nas entrevistas, eles até pedem para mandar o histórico, mas nunca ninguém me perguntou nada sobre as minhas notas. Portanto, se você quiser trabalhar em uma empresa, foque em mostrar que você é um bom profissional e que vai poder ajudá-la de alguma forma. Se quiser ir pra uma área acadêmica, aí o IAA acaba tendo um peso um pouco maior.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade?

    Realimentados com certeza, que fechei com 5,75 com uma forcinha do Julio. Mas uma das matérias que mais estudei foi Sinais 2 com o Bira. São as matérias que mais exigem do pessoal. Lembro também da minha segunda fase, que foi extremamente complicada, pois peguei professores super exigentes em várias matérias... comecei tirando 3 ou 4 em algumas provas, e aí tive que estudar bastante pra recuperar.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Vi alguns colegas fazendo projetos com os professores, mas eu sempre achei que foi algo muito pró-ativo do lado do aluno e não do professor. Então, você está no começo do curso, quem sabe desde a primeira fase poderia estar vendo alguma coisa diferente, aprendendo, e eu não sabia exatamente quais eram as oportunidades que eu tinha à disposição. Eu gostaria muito que isso fosse mais pró-ativo por parte dos professores. Vi em algumas situações quando o aluno estava indo melhor na matéria, o professor chamava no final da aula e oferecia uma oportunidade em algum projeto que ele estava trabalhando, por exemplo, mas mesmo assim foram momentos raros.

    Penso que o departamento poderia divulgar mais as áreas de pesquisas e pensar o que um estudante que está na primeira, segunda, terceira fase pode fazer pra se desenvolver bem. E do outro lado, o que um aluno que está mais avançado no curso pode fazer.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Participei, do 24º. Fui responsável pelo Financeiro, trabalhei no dia também... foi uma experiência muito legal. Você começa o curso e sabe que não vai se formar com metade da galera que entrou, por causa de um negócio chamado Realimentados e Sinais 2 (risos), e aí a gente chega na organização do linguição sabendo que vai se formar, querendo que a festa dê certo, portanto acaba sendo motivo de uma união muito forte no curso. Foi muito bom pra se aproximar ainda mais do pessoal, além de ser um desafio bem grande, pois eu nunca tinha participado mais ativamente de nenhuma outra organização do Linguição. Aprender tudo do zero, como se organiza um evento pra 5 mil pessoas e fazer tudo dar certo no dia, é um baita desafio.

    Teve uma hora que eu consegui sair um pouco do bar, na hora da festa, pra olhar e ver o que construímos e pensei "caramba, tem 5 mil pessoas aqui!". Foi muito legal, pois nosso esforço deu certo, além de ser um aprendizado. Acho que todos devem participar de uma organização do Linguição.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Acho que o fato de ser amplo, se você não tem um foco direcionado do que você quer trabalhar, pode ser bom, como foi pra mim. Pois eu vi um pouco de tudo, hoje eu entendo de controle, entendo um pouco do lado de automação e como as coisas funcionam, mas gostei muito quando vi um movimento no curso para ter mais flexibilidade, criando mais disciplinas optativas. Eu passei um ano fora e quando voltei sabia que não queria controle, mas ainda tinha outras matérias de controle pela frente no curso, então eu não ia tão motivado pra essas aulas. Acho que seria muito legal dar mais flexibilidade e permitir que o aluno tenha mais disciplinas optativas e menos obrigatórias no final do curso.

    Se a gente for olhar para o mercado de trabalho hoje, pelo menos onde eu estou inserido, uma das coisas que mais está fazendo diferença é quem sabe de verdade Inteligência Artificial, Machine Learning, e por aí vai. Esse mercado está superaquecido, e quem souber disso hoje tem o emprego garantido. Porém, no curso tive contato com essa área bem superficialmente, de uma forma muito teórica, na nona fase, já quase saindo da universidade. Não conseguimos trabalhar esse assunto de uma forma mais aprofundada e num contexto aplicado, então seria muito legal se essas matérias aparecessem bem antes no curso, pro aluno já ver se isso faz sentido pra ele e poder seguir com outras disciplinas pra ir se aprofundando na área. Quem sabe esse assunto hoje, quando se forma pode virar um engenheiro do Google, Facebook, Amazon ou de muitas outras empresas que hoje estão focando nesse assunto, inclusive brasileiras.

    Portanto, eu acho muito interessante a ideia de flexibilizar o curso. Infelizmente não tive contato pra saber como está sendo feito agora, mas achei uma ótima iniciativa.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Muitas vezes eu refleti se eu tinha escolhido o curso certo, se eu não deveria ter focado em uma só faculdade. Mas, isso foi algo que me fez saber o que eu gostava. Porque quando entramos no curso ainda não temos tanta maturidade. Então não me arrependo, mesmo fazendo muitas coisas ao mesmo tempo. Foi algo muito rico, sinto que tenho muita bagagem. No final valeu a pena pois consegui me posicionar bem e em uma empresa que acho muito legal, que tem valores muito condizentes com os meus.

    Me orgulho de ter dado conta de ter sido um bom aluno e, ao mesmo tempo, ter aproveitado a faculdade pra ter as experiências profissionais. Acho que isso é uma coisa que faz muita diferença pra qualquer pessoa. Tive muitas experiências em áreas diferentes, desde programação até business.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    Na verdade, superou as expectativas. Eu pensava em ir para consultoria. Entendo que é uma remuneração bem "agressiva", mas vejo que o Google não está muito atrás disso. Estou numa empresa que, além do salário, me dá uma série de benefícios que não aparecem no salário diretamente, mas que fazem toda a diferença no dia-a-dia. O Google dá vários auxílios, desde plano de saúde e previdência privada, até a internet da minha casa e um auxílio para fazer esportes. Também ajuda com qualquer curso que você queira fazer, mesmo que não tenha a ver com o trabalho. É uma série de benefícios difíceis de mensurar, mas que fazem toda a diferença.

    Acho que, mais do que o salário que você vai sair ganhando, você tem que pensar se está tomando uma decisão que faz sentido com seus objetivos de vida e de carreira. Então, talvez no começo, não vão te contratar como engenheiro. Talvez você ainda precise ganhar mais experiência pra ajudar a empresa. Mas, pense que esse é o primeiro passo e, quem sabe, você terá oportunidades cada vez melhores.

  • A carreira no Google é bem estruturada?

    Os cargos são bem estruturados. Cada vaga que abre tem um nível e esse está muito atrelado à experiência de mercado. É uma carreira que foge um pouco dos padrões que a gente tá acostumado. Não é aquela carreira em que você começa e vai subindo, vira gerente, depois diretor etc. É uma carreira que você mesmo vai construindo. Comecei em uma certa área, mas a empresa sempre incentiva a aprender tudo de uma área e depois trocar para continuar aprendendo em outra função. Então hoje sou estrategista de contas, mas amanhã posso ir pra uma área mais comercial ou analítica, ou posso resolver que quero trabalhar na área técnica. Então, tenho total flexibilidade para ir rotacionando, respeitando a oferta de vagas em cada área. É uma carreira muito lateral. Na verdade até em espiral, pois você vai ganhando experiência de forma lateral para que depois, se quiser, assumir posições mais estratégicas dentro da empresa.

  • Como você se vê daqui a alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Eu gosto de trabalhar em empresa. Nunca tive o sonho de empreender. Não é uma coisa que passa muito pela minha cabeça hoje. Meu planejamento atual é ficar mais alguns anos no Google, talvez trocar de função aqui dentro pra ter uma nova curva de desenvolvimento. Mas, permanecer aqui por mais 2 ou 3 anos e, se achar que tenho bagagem suficiente, tentar fazer um MBA fora. Na volta, não sei. Vai depender muito da experiência que eu tiver lá fora. Uma das coisas que eu tenho vontade é de ter um cargo de gerência. Ter um time para que eu possa ajudar com a carreira das pessoas, conversar com elas sobre como estão se saindo, ajudar a se desenvolverem. É uma experiência que eu tive no NEO, tanto como gerente de projetos como líder de grupo, e que achei que foi muito rica pra mim. Então, gostaria de fazer isso de novo.

    No Google, isso é uma coisa muito interessante. Porque, enquanto em muitas empresas o gerente tem um papel mais decisório, aqui vejo os managers com muito mais foco em cuidar da carreira das pessoas mesmo. Tenho conversas semanais com meu chefe, por exemplo, onde discutimos as coisas que estou fazendo, o que eu posso fazer para melhorar, o que estou pensando da minha carreira. E essa é uma experiência que gostaria de ter em algum momento pra ver se é algo que eu realmente quero da vida ou não.

  • Como você comentou, a gente não vai mais com vontade pra algumas aulas. Talvez a vontade de querer estudar acaba se perdendo, pois queremos trabalhar, ir pra uma empresa, ver resultados acontecendo, ganhar dinheiro... você acha que é essa pegada de começar uma experiência em trabalhos que causa esse desânimo?

    Eu senti isso também quando voltei do estágio fora do país. Pois lá eu só trabalhava e não fazia nenhuma matéria, e aí comecei a entender como era a vida trabalhando. Realmente dá essa sensação de não querer ir pra aula, queria só ficar trabalhando no NEO e nos meus projetos... se eu tivesse matérias que eu pudesse escolher e que fizessem sentido pra mim no momento, com as decisões profissionais que tomei, eu poderia ir pra uma aula super motivado, com um objetivo claro.

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    Eu tinha algumas matérias obrigatórias relacionadas à administração na automação, mas nenhuma era levada muito a sério. De alguma forma temos que mostrar pros alunos de que essas matérias não estão ali só pra ocupar uma carga horária, que isso realmente importa, mesmo que ele queira seguir uma carreira mais técnica e ser um engenheiro de controle, por exemplo. Ele tem que pensar no impacto daquilo que ele tá fazendo pra empresa, pra sociedade e por aí vai. Acredito que tem que mudar a maneira como elas são expostas, a forma como os professores encaram e como os alunos valorizam elas. Uma das vantagens de ter feito o curso de administração, pra mim, é justamente ter uma visão mais ampla do negócio.

    Além disso, acho que uma coisa que falta no curso é olhar um pouco pra fora, ver o que está acontecendo fora do mundo acadêmico. E independente da sua escolha, eu reforço o ponto de experiência profissional. Acho que todo mundo tem que sair um pouco, mesmo querendo seguir carreira acadêmica. Incentivo todo mundo a ter pelo menos uma experiência fora e sentir como é uma empresa, pois agrega bastante. Eu gostaria muito de ter tido mais professores que tiveram experiências em diferentes empresas, resolvendo problemas aplicados. A questão do Machine Learning é um exemplo. Na minha opinião deveríamos ter notado essa tendência e ter se construído um currículo mais condizente com essa nova realidade.

  • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

    Queria que alguém me falasse pra correr atrás dessas experiências. Então conversem com os alumni, com quem já está no mercado de trabalho. Acho que isso foi uma coisa que fez uma grande diferença pra mim, pois eu tive contato com alumni no NEO. Essas conversas ajudam a entender que talvez esse caminho não seja pra mim, mas que aquele outro é um pouco mais interessante... Se eu fosse conversar com um calouro da primeira fase, eu iria passar meu contato e falar pra não terem medo de me mandar mensagem, de perguntar, pois as pessoas são super abertas pra conversar essas coisas. Afinal todo mundo já esteve na mesma fase que vocês. E até se não for uma pessoa da automação, mas for uma pessoa que você admira, tenta conseguir o contato dessa pessoa e conversar com ela. Muitas vezes dá certo. Eu tive um gerente na Embraco que fez exatamente isso. Ele simplesmente via empresas que gostava e dava um jeito de conseguir o email das pessoas, do gerente, do presidente etc. e escrevia pra eles falando que gostaria de entender um pouco mais sobre a empresa, como funciona e muitas vezes a pessoa respondia o email dele.

    Então, são duas coisas que eu gostaria que me falassem. Uma é pra ir atrás dos alumni, conversar com eles. Você aprende muito sobre você mesmo quando faz esse tipo de conversa. E a outra é buscar experiências profissionais desde a primeira fase, testar coisas diferentes enquanto está na faculdade, pois depois fica muito mais difícil.

Mensagem Final aos estudantes

Acho que no início da graduação a galera tá muito focada em IAA, em passar nas matérias, só que quando você for para o mercado de trabalho o que mais vai valer é você ter uma história legal pra contar. É já ter passado por diferentes situações e saber como lidar. Eu acredito muito nessa questão de ter experiências e acho que às vezes o pessoal demora muito pra ligar esse alerta. Não esperem chegar no estágio do final do curso pra buscar isso. Aproveitem as oportunidades desde o início da faculdade e lembrem que qualquer experiência é válida. Explorem coisas diferentes e descubram o que vocês realmente gostam de fazer.