Entrevista

18/10/2017


Essa semana entrevistamos o Eduardo Bonet, formado em 2015.1 e atualmente morando e trabalhando em Amsterdã - Holanda no Booking.com. Eduardo falou o que pensa sobre trabalhar em uma grande empresa e seguir carreira nela, além do que qualquer um necessita fazer durante a faculdade para se dar bem no mundo de desenvolvimento mobile!

  • Como é seu dia a dia?

    Eu sou Android Developer, ou seja, desenvolvo o aplicativo Android da Booking. Sou um dos outros 60 desenvolvedores Android da empresa. Meu dia de trabalho é um pouco diferente, porque aqui na Europa, pelo menos aqui na Holanda, não é comum horas extras e coisas assim. Chego perto de 9 horas ou 10 e 18 horas já acaba. No Android, nossa função é basicamente acompanhar os usuários e os problemas que eles estão tendo, implementar e testar novas funcionalidades. Existem sistemas bem completos para metrificar tudo o que o usuário faz no aplicativo. Tudo que a gente altera no aplicativo é encapsulado em um experimento e conseguimos ver certinho o que estamos efetuando. Eu sou responsável por essa parte, de coletar informações que são usadas pra identeficar se uma mudança no app é realmente útil ou não.

  • Com o que a Booking trabalha? Como funciona?

    A Booking é originalmente de Amsterdã e foi fundada aqui há 20 anos. Até esse momento, faz parte de uma empresa maior, que é chamada PriceLine. São várias empresas que fazem parte desse grupo, Rentalcars, Kayak. A Booking lida somente com acomodações e por enquanto é só isso mesmo. Agora começamos com transporte também, do hotel para aeroporto e alguns mais específicos. A Booking é bem global, tanto em disponibilidade de hotéis quanto em linguagens disponíveis. Um diferencial bem grande do nosso aplicativo é que ele está disponível em 43 linguagens diferentes. Isso significa que tudo muda, inclusive a direção de leitura do texto, ordem de como os elementos aparecem. Essa parte é bastante desafiadora.

  • Por que você escolheu a Booking?

    Não tinha um motivo muito forte para escolher a Booking em si. Submeti o currículo no famoso "Vai que". Acabei tendo oportunidades para ir para outros lugares, mas a Booking ajudava muito no processo de mudança para fora, não só pra mim mas como pra minha esposa também. Foi por isso que escolhi tanto o Amsterdã quanto a Booking. Não conhecia direito Amsterdã, e não sabia muito o que esperar, mas é muito legal de morar por aqui.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Eu fazia Engenharia de Computação na UTFPR, em Curitiba. Queria um curso de computação, porque eu gostava. Também queria uma engenharia, porque na época eu imaginava que o título de engenheiro poderia eventualmente valer um pouco mais. Eu queria computação e queria engenharia, mas não tinha Engenharia de Computação na UFSC. Eu vi a Engenharia Mecânica, Elétrica e a de Automação era a que chegava mais perto. Foi por isso que fui para Automação da UFSC.

  • Por que você não pensou em outros lugares que tinham Engenharia de Computação ou Software?

    Eu queria mesmo era estudar em Florianópolis, parecia um lugar legal para morar.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu dormia nas aulas, muito.. (risos) Eu tive dois momentos bem distintos na minha faculdade. Nos primeiros 5 semestres, eu fazia uma bolsa de iniciação científica com o professor Rômulo. Entrei na primeira fase e sai quase na quinta já. Eu trabalhava com análise de sistemas de tempo real, bem a matéria dele. Eu estudava bastante e me preocupava muito com IAA nessa época, mas já sabia que queria trabalhar com computação. Depois disso, na quinta fase, eu fui fazer ciências sem fronteiras, fiz parte da primeira turma do programa. Lá fora eu mudei meu curso, fiz Ciência de Computação. Vi bastante mobile, programação e IA para compensar o que eu não tinha no curso no Brasil. Quando eu voltei eu sabia que queria trabalhar bem mais com computação do que engenharia, só não valia mais a pena trancar o curso para fazer Ciência de Computação. Eu foquei no mínimo possível da Automação, só para passar mesmo, e consegui fechar o curso sem reprovar nenhuma vez. Só fui passando nas matérias, focando ali no 6, e enquanto isso fazia muita aula online, muito Coursera. Eu fazia de 3 a 4 cursos por vez, meus últimos 5 semestres foram todos baseados no Coursera. Escolhi justamente para suprir essa falta de computação que tinha no curso da Automação. Junto a isso eu fiz vários estágios. Eu ganhei bastante base com isso. A partir do sexto semestre tentava sempre fazer dois estágios, de 20 horas, por vez. Trabalhei por um ano em uma startup. No final da nona fase eu já estava trabalhando remotamente fulltime pra Tuneduc, uma startup de educação em São Paulo. Em Florianópolis, trabalhei na “AllNighter”, que tinha um sistema que ajudava os professores a dar aula, tornar a aula mais dinâmica. E também trabalhei na MyReks, que é uma empresa de recomendação social, no Celta, onde fui um estágiario em ciência de dados.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Organizei o 24० Linguição que eu trabalhei. Foi uma ótima experiência, fiquei no Caixa, com ar condicionado o tempo inteiro. Fiz o app do linguição junto com o Peralta também.

  • Qual foi sua trajetória após sair da faculdade?

    Comecei meu TCC no início de 2015 junto com a Tuneduc, fazendo um sistema que previa a nota do aluno da prova do ENEM , o Quero Minha Nota. Em 2016 eu sai dessa empresa e entrei no mestrado da computação da UFSC. Meados de agosto eu não estava mais gostando do mestrado na computação e queria migrar para o mestrado na Automação. Em agosto ainda, eu recebi a proposta da Booking e em outubro me mudei pra Holanda. Não foi uma trajetória muito longa, faz 2 anos que me formei.

  • Como está o mercado no futuro, para quem tá saindo da faculdade agora.

    Pra quem sabe programar é bem tranquilo começar. Android é uma área fácil de entrar e um ano estudando já tá pra ter um nível bem legal. Android é mais focado (não precisa aprender várias coisas pra fazer um projeto), é mais tranquilo no começo aprender. O mercado está muito bom para desenvolvedores, nacionalmente sempre tem vagas abertas, pode não pagar bem, mas é fácil achar emprego. Pra sair do país é muito fácil porque programação não possui regulamentações locais como acontece com medicina e advocacia por exemplo, e a língua oficial da profissão é o inglês basicamente.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    Desde o início eu sabia que aquela história de piso de engenheiro não acontecia no mercado pra quem saia da faculdade. Eu sai da faculdade e ganhava um pouco mais do que a média de desenvolvedor porque eu trabalhava remoto pra SP. Em Floripa o salário é ok, você consegue sobreviver tranquilo, é mais baixo que a média nacional, mas tem muita startup, que normalmente pagam pouco e que às vezes ainda pagam com ações ou algo do tipo. Deve ter umas 3 ou 4 empresas grandes mesmo que da vontade de trabalhar. Mas agora, se você sai do país, a história muda totalmente. O salário de desenvolvedor geralmente é muito alto comparado a outras profissões.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Ficar aqui por um bom tempo, morar na Holanda é muito bom. No Brasil eu trabalhava muito, tinha semanas que eu trabalhava 16 horas por dia e isso causou bastante problemas de saúde, tive alguns ataques de stress por causa disso. Daí vir pra cá e ter uma vida mais balanceada com o trabalho foi muito bom. É ótimo morar aqui, e a cerveja Holandesa/Belga é a melhor do mundo de longe (me desculpem os alemães) (risos).

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    Pra mim, obviamente foi a parte de computação, mas o propósito da automação não é formar um desenvolvedor. Se você quer ser um desenvolvedor, o mais certo é você procurar por fora. Acho que a maior lacuna que eu tive na época era a falta de optativas. No curso que eu fazia fora quando você chegava no final do curso tinha uma ou duas matérias obrigatórias só, o resto era tudo optativa.

  • Teria alguma dica para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Uma das coisas que eu sinto falta de Floripa são os grupos de tecnologia, os meetups. Meetup de Android, Data Science, Python... Eu conheci gente muito legal nesses grupos e que inclusive deram dicas para outros trabalhos, estágios ou ajudando um ao outro em profissão,. O meetup mais interessante que eu participava era o de Data Science que reunia muita gente diferente, pessoal do governo, de empresas, da universidade...

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    Considerando os cursos de engenharia, tirando Ciências da Computação, nós temos várias matérias de programação, principalmente no começo do curso, as disciplinas de programação são bem boas. Algoritmos, Estrutura de dados com o professor Max foi bem bom, Introdução a programação foi bem legal também. Considerando a parte de programação, nós temos bastante coisa. Com relação à matemática e física, se não gostar, passar no curso vai ser MUITO complicado.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Teve. Eu peguei rec em várias matérias que normalmente são fáceis, como Eletricidade Industrial. Realimentados foi difícil com certeza, a maior parte das matérias da automação foram desafiadoras. As de computação geralmente não são difíceis por si só porquê é mais trabalhoso do que difícil. E as de física pra mim foram complicadas, a parte de mecânica dos sólidos, fenômenos de transporte, processos de fabricação mecânica foi difícil para decorar todos os detalhes.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Todos os professores sempre me ajudaram bastante, sempre tive uma boa relação com todos eles, pelo menos no DAS eles sempre foram muito amistosos comigo. O Rômulo sempre me ajudou muito, foi o meu mentor desde o começo da faculdade. No final eu falava muito com o professor Werner, quase comecei a fazer mestrado com ele. O professor Max me ajudou bastante também no começo. O Rômulo sempre tentou algo pra eu ir pra fora, pro exterior, fazer mestrado também. Com relação ao Ciência sem Fronteiras, como fui da primeira turma, foi mais por interesse próprio. Eu fui pra Rose-Hulman Institute of Technology, uma escola minúscula, no meio do nada, mas é uma escola muito boa.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Eu acho que a proposta do engenheiro de controle e automação é isso. O curso dá uma visão superficial de muita coisa mas esse é o objetivo do curso em si, como ele foi pensado. Quando ele foi planejado, queria-se dar uma visão mais ampla pra que você trabalhe com outras pessoas. O engenheiro de controle e automação, pelo menos na minha visão, não é uma pessoa cuja formação permita com que ele consiga discutir detalhes técnicos com um engenheiro mecânico, ou elétrico, ou de software tranquilamente, então ele está numa posição coringa. Eu acho que ter uma visão ampla é interessante por que querendo ou não quando a gente sai da faculdade a gente não mexe com nada que a gente vê a fundo, então se tu vê um pouquinho de cada coisa e deixar que o aluno se especialize é o ideal. Na minha época isso era problemático porque a gente não tinha matérias optativas, só tinha uma carga fixa para tudo e isso era bem chato por que não permitia que a gente se especializasse no que a gente quisesse. No sétimo, oitavo semestre você já sabe o que você quer, então fica maçante ter matéria repetida. Na parte de computação, essa visão geral ajudou no sentido de como analisar um problema. De tentar ver tudo em volta, ver o que está realmente acontecendo, o que está gerando tal problema, ajudou bastante. Mas teve muita matéria que eu acho que perdi muito tempo. Matérias que eu usava pra dormir, pra poder estudar mais outras coisas em casa.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Me arrependo de ter começado estágio muito tarde. Mesmo assim, começar um estágio antes de realimentados é complicado. Talvez ter focado mais em computação mais cedo, não sei. Meu maior orgulho foi meu PFC, o "Quero Minha Nota!". Foi um produto que ultrapassou Duolingo em downloads e fez bastante sucesso.

  • Das matérias, qual você achou irrelevante para o mercado de trabalho?

    Todas que eu não lembro nem o nome (risos). Abelardo 1 e 2, IAM, três matérias praticamente iguais. Essas matérias ligadas mais à Indústria, pro mercado que eu estou hoje são irrelevantes, e eu já sabia que elas seriam irrelevantes na época, então foi pura perda de tempo.

  • Que recado você passou para seu irmão quando ele entrou na automação?

    Por que você fez isso? (risos). Eu não forcei ele, ele pesquisou e foi por vontade própria, achou legal (risos). Mas a minha recomendação para os calouros é identificar o que você gosta de fazer o mais rápido possível, pra você correr atrás disso e esquecer das matérias que não te ajudam nisso, e focar num 6 ou 7 nelas, só passar é o suficiente. Mas também não é deixar de estudar pra tirar 10 pra ficar jogando, é pra você aproveitar o tempo, mudar o foco e gastar energia naquilo que vai te levar ao teu objetivo.

Mensagem Final aos estudantes

O curso é abrangente por ser a proposta inicial dele. Mas a gente tem recurso suficiente pra estudar qualquer coisa que a gente queira por fora (cursos online por exemplo). Então se você acha uma área legal, qualquer que seja na real, você consegue achar lugar para se especializar nessa área e focar naquilo que te faz sentir melhor.