Entrevista

04/07/2018


Diego é o nosso entrevistado dessa semana e ele traz uma nova visão para o Alumni. Atualmente trabalha como doutorando em Neuroengenharia na Universidade de Freiburg - Alemanha e na entrevista nos conta sobre sua trajetória e sobre a área de biomedicina. Confira!

  • Por que escolheu automação?

    Eu acho que em parte foi por ser uma área mais nova, ligada a tecnologia que eu sempre gostei muito. O principal motivo foi o fato de que na automação a gente vê coisas de várias áreas. Eu tinha passado pro ITA também, em engenharia eletrônica. Cheguei a conhecer lá, mas me pareceu muito focado em uma área específica. Já em Floripa, e no próprio curso, eu teria uma amplitude maior. E por estar dentro da UFSC já se consegue ter contatos com outros laboratórios e pessoal de várias áreas. Outro motivo certo também era pela vontade de vir para Europa, fazer um estágio, talvez depois do curso, e eu vi que principalmente na automação e mecânica, se tem bastante contato com Alemanha e França.

  • Em que momento da vida você decidiu seguir na área biomédica?

    Foi uma área que eu sempre gostei e me despertou interesse. Desde o vestibular eu via a opção de fazer medicina. Gostava da área de biologia também, e me despertava muito interesse em como poder ajudar as pessoas nessa forma. Acabei me identificando mais com o jeito de pensar do engenheiro, que parte das leis da física e matemática. Por mais que esses sejam sistemas que a gente não conhece toda a dinâmica, já é possível prever as coisas em níveis bem mais concretos. Na primeira fase, na matéria de introdução a computação, fiz um joguinho de cirurgia, já inspirado na medicina. Mais para frente no curso, teve uma palestra do Miguel Nicolelis, cientista brasileiro mais famoso na área de neurociências e biomédicas, que me marcou muito. Ele falou dos projetos dele na parte de interface e cérebro-máquina, e assim eu descobri o quanto queria trabalhar mais na área de neurociência e explorar de fato esse campo.

  • Em algum momento você chegou a pensar em mudar de curso?

    Nunca quis mudar, nem mesmo para medicina, por exemplo. Dentro do próprio curso eu percebi que poderia adquirir conhecimentos e ferramentas que iria aplicar em várias áreas. Tanto que desde o começo já consegui estágios que eram mais ligados à biomédica, e no meu PFC também, e essas oportunidades logo do começo já me mostraram que era possível interagir nas duas áreas. E é realmente o que eu gosto mais, e sempre partindo do ponto de vista da engenharia, que me identifico mais. Essa forma de pensar do engenheiro de querer resolver problemas e encontrar soluções com as ferramentas que a gente tem. Cheguei a fazer outros vestibulares no terceirão, mas sempre vi a automação como objetivo final.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Fiz o PAM junto com o Marcelo Ueda (entrevista publicada em março), ali nos primeiros 2 anos. Tive até que atrasar algumas matérias da automação para encaixar na grade horária, e desde a segunda fase também sempre fiz estágios extracurricular. Assim que terminei o PAM, comecei administração na Esag. Entrei para Esag em uma época de greve na UFSC, que não sabíamos direito quando iria voltar. Aí fiquei estudando para o vestibular nesse meio tempo, passei e sempre pensei que poderia me ajudar bastante na hora de empreender. Durante a semana estava basicamente sempre estudando ou trabalhando, com a vantagem de ser de Floripa, contando sempre com o apoio da família e dos meus pais por perto no dia a dia, o que me ajudou bastante. Eu tentava aproveitar um pouco mais no fim de semana.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...?

    Lembro que na época da primeira fase fui atrás da Autojun e alguns projetos assim, mas acabei me envolvendo mais com estágios em empresa e na Certi também, com toda a parte de desenvolvimento que carrega essa ideia de estar desenvolvendo produtos novos já aplicado a empresas. Como eu não imaginava que iria seguir uma parte mais acadêmica de mestrado e doutorado, depois senti até um pouco de falta por não ter sido bolsista e me envolvido com a iniciação científica durante a graduação. Por outro lado, ter tido as visões de empresa e depois da Esag também ajudou para esse impulso no empreendedorismo. Inclusive, me deu até mais vontade de ir para área de mestrado e doutorado mais tarde.

  • Como foi sua trajetória nos estágios?

    Eu entrei mesmo na área biomédica na segunda fase, quando fiz um estágio na Pixeon, naquela época ainda na incubadora da ACATE. Eles trabalham com software da área médica, em gestão de redes de imagem médica e hospitalar. Fui um dos primeiros estagiários e hoje eles são os maiores da América Latina na parte de imagens médicas. Depois disso, fiz estágio na Certi em televisão digital, que na época estava iniciando no Brasil.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Eu lembro que para as oportunidades dentro da UFSC sempre pediam um IAA mínimo como um dos critérios. Vejo que dentro do ambiente acadêmico não existe muito outra forma de selecionar que não seja por nota. No meu caso, sempre tentei manter boas notas, mas nunca me preocupei com a nota em si. Foi mais por consequência de fazer bem as matérias que acabei ficando com IAA alto. Nunca senti nem que ajudou ou atrapalhou. Acho que temos que ter alguma coisa a mais. Eu sempre tive facilidade com provas, o que me ajudou muito com a questão de notas, mas se você não se vê dessa forma, talvez seria legal buscar outras coisas. Meu currículo foi muito mais determinado pelas experiências fora da UFSC. Desde pequeno queria aprender programação e era interessado nisso, e assim uma coisa foi puxando a outra. E independente do IAA bom, sempre buscar as oportunidades dentro da universidade, principalmente pra quem não segue muito essa área acadêmica, para então buscar algum outro diferencial.

  • Como foi sua trajetória após a faculdade?

    Depois do PFC, voltei para onde estava na fundação Certi, e no fim não vi muita oportunidade ali. Na época eu estava desanimado, e abriu um concurso para Secretaria da Fazenda na área de TI em Florianópolis. Como eu tinha o conhecimento de TI da automação, mais a parte de economia, contabilidade e tributária da Esag, a oportunidade encaixou super bem no meu currículo. Exatamente um ano depois da formatura foi quando eu fiz o concurso, passei para a área de TI como auditor fiscal, com carga horária de 30h por semana, e consegui terminar a graduação na Esag. Depois disso segui com novos projetos no tempo que eu tinha livre. Montei uma startup com um colega da Esag, onde fiquei por um ano. Aí parti para a ideia da startup na área biomédica, que eu achava mais interessante, e desde então estou envolvido. E o que foi muito bom é que eu conheci minha esposa, que é engenheira, na Esag também.

  • Quais são suas atividades hoje?

    Estou na University of Freiburg como doutorando em neuroengenharia. Meu projeto é desenvolver um sistema de controle de neuroestimulação para tratamento de epilepsia. Os sistemas que existem hoje tentam detectar quando a pessoa está iniciando o ataque epilético, e ativam um estímulo pré-determinado para tentar bloquear o ataque. A nossa abordagem é a de buscar prevenir em vez de interromper, pelo monitoramento de sinais que indicam a probabilidade de ocorrência de um ataque, e controlar eles de forma contínua para tentar reduzir essa susceptibilidade. Essa aplicação de estudos de medicina com controle está no pré-clínico ainda. E estou atuando em duas startups, que são bem relacionadas.

  • Pode nos contar um pouco mais sobre seu trabalho nessas duas startups? Como elas surgiram?

    Uma é a Medical Harbour, que começamos com um software de imagens médicas de reconstrução a partir de imagens de tomografia e ressonância, que são várias fatias, e montar elas em um modelo 3D. No final de 2014 fui numa feira de 3D printing enquanto estava na Califórnia, depois participamos da Campus Party em SP em 2015 e a partir daí começamos a trabalhar com a impressão 3D. Primeiro para os médicos analisarem, e agora já fazendo implantes. Hoje estamos em parceria com integrantes do laboratório de biomecânica da UFSC, que já tem toda a experiência na área de avaliação de implantes e próteses. A Medical Harbour desenvolveu o software e conforme avançamos em trabalhar com impressão 3D, juntamos com esse laboratório para desenvolver outros tipos de implantes, como os articulados de mandíbula, joelho, quadril, que precisam de uma parte de análise mecânica de resistência bem mais complexa. Isso acabou se tornando outra empresa, que chamamos de Customize.

  • Como aconteceu essa colaboração com laboratório da UFSC?

    Com o pessoal da biomecânica foi através da incubadora do CELTA. Ao mesmo tempo que a gente entrou lá com a Medical Harbour, uma parte desse pessoal entrou com a MSC MED, que é uma empresa de consultoria para grandes fabricantes na área de implantes. Conversamos bastante. Éramos a empresa que estava desenvolvendo os implantes e eles aplicando consultorias, por isso aproveitamos a ligação nos projetos e se tornou uma parceria bem certa. Floripa tem um ecossistema bem bom para empreendedorismo e tecnologia, e para quem quer empreender são motivações importantes. Nessa parte de contatos, por exemplo, ali no CELTA, em vez de nós termos que ir atrás, quem procura a gente muitas vezes são as próprias empresas interessadas.

  • A Medical Harbour atua internacionalmente?

    Sempre tivemos atuação internacional, tanto no software como na área de implantes. E acabou que, pelo CELTA também, encontramos um programa na Suíça que busca empresas inovadoras, principalmente nos países do BRICs, para abrir uma sede na Suíça e conseguir captar vantagens do governo suíço para investir em pesquisa e produção. Conseguimos isso e agora estamos começando com a sede aqui, para iniciar com vendas, produzir e fazer pesquisas na Europa.

  • Como é a relação entre o CELTA e alunos da UFSC?

    Acho que tem bastante oportunidade para quem tem interesse. O fato de ser aluno da UFSC acaba facilitando, porque tem muita gente da UFSC que já fica por ali, já se conhece e aparece uma tendência natural a facilitar a entrada.

  • Teria alguma dica (pulo do gato) para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Acho que o principal é encontrar o que gosta e tem interesse, por mais que não seja a área que você vai seguir no final. É sempre bom encontrar oportunidades para motivar e ir atrás de coisas fora da aula, ir além. E buscar iniciativas que vão te colocar em contato, apresentar as oportunidades e estar tecnicamente mais ativo, com a prática que a gente não enxerga nas matérias. Não dá pra esperar parado que as coisas aconteçam.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Em questões de estágios, acabei procurando as melhores oportunidades sozinho mesmo, até porque eu tinha um interesse mais específico, então fui atrás de indicações. Tive apoio do departamento em outros sentidos, principalmente lidando com a questão da grade horária que era bem complicado. Teve um semestre em que tivemos iniciativa com um colega da turma de tentar juntar o projeto de algumas disciplinas, em algo maior. Numa dessas, quisemos montar uma geladeira com compressor e válvula de expansão variáveis, para no final realizar controle multivariável. Foi um projeto bem ambicioso e que no final não conseguimos apresentar tudo que queríamos. Mas o departamento ajudou com material, estrutura, e o projeto ajudou para duas disciplinas. Depois também, para fazer o PFC fora, eu precisava histórico em inglês autenticado e outros documentos, que foram todos providenciados.

Mensagem Final aos estudantes

Busque encontrar o que te motiva! Vá atrás das oportunidades, que é o segredo para terminar o curso e encontrar um caminho para conseguir fazer o que gosta de verdade.