Entrevista

03/08/2017


Bernardo de Castro transformou sua vontade de abrir o próprio negócio em uma empresa tecnológica no ramo da agricultura alguns anos depois de sair da universidade. Nessa entrevista ele fala um pouco sobre a história da Arvus, junto com mais dois outros sócios, também da automação. Acompanhe e inspire-se!

  • Para começar, pode nos contar um pouco sobre o que é a Hexagon, e o que a empresa faz?

    Hexagon é um grupo sueco de tecnologia da informação que adquiriu a empresa que fundei junto com dois colegas da automação, a Arvus, em 2005. A Hexagon em si vem investindo em diversas áreas da tecnologia da informação, começou na área de metrologia, por volta dos anos 2000, e teve um crescimento bem rápido via aquisições, em um ritmo alucinante de aquisição, quase que uma por mês, durante quase 20 anos. Hoje a Hexagon é um aglomerado de em torno de 150 empresas, todos com o foco da tecnologia da informação, direcionadas à algumas verticais, como metrologia, geosistemas (GPS, topografia, medição a laser), softwares (focados em CAD/CAM, segurança pública, óleo e gás). A uns 5 anos atrás ela escolheu algumas verticais para investir, e uma delas foi a agricultura, portanto eles adquiriram mais duas empresas nessa área, e uma delas foi a Arvus, tornando a Hexagon Agriculture, divisão de agricultura dentro da empresa, a qual hoje sou presidente, uma combinação de três operações diferentes vindas das adquiridas Leica (já fazia parte do grupo anteriormente), Arvus e a ILab Sistemas. Assim eu venho trabalhando para fazer a sinergia entre as três para crescerem de acordo com o plano da Hexagon.

  • Como surgiu a Arvus, em 2005?

    Eu tinha me formado no fim de 2002, eu já tinha o contato com a agricultura devido a minha família trabalhar com isso, mas a ideia veio de um tio meu que era gerente de uma fazenda em Goiás. Ele tinha um problema que era a necessidade de fazer aplicação de insumo localizadamente, bem o começo do que se chama agricultura de precisão no Brasil. Uma grande fabricante de insumos, fertilizantes, começou a vender serviços de consultoria, fazendo amostragem do solo das fazendas, analisando quanto se precisaria de insumos para aplicação, e já vendia o produto. Entravam nesses serviços as tecnologias novas como mapas de aplicação, porém não haviam máquinas que utilizassem automaticamente estes mapas, ou seja, era necessário regular manualmente. Portanto, em uma conversa em família no fim de ano, ele me contou e me convidou para ver como funcionava lá na fazenda, e eu já tinha muita vontade de fazer alguma coisa, e na época chamei o Gustavo e o Antônio Emydgio para construir uma ideia, porém o Antônio não quis e logo depois o Adriano veio se juntar. A ideia veio no fim de 2003, e em 2004 eu levei a ideia a sério, escrevi um plano de negócio, mandamos para incubadora. No início ficamos numa sala alugada em um apartamento do Fabiano, um amigo, eu e o Gustavo, que tinha experiência em eletrônica, com a ideia de montar um protótipo. Enquanto isso o meu tio conseguiu um "financiamento" para custear este protótipo.

    O modelo de negócios inicial era after market, ou seja, vender direto ao consumidor, através de algum parceiro local. Atualmente a estratégia é vender para os fabricantes, aí nem sempre se enxerga a marca Arvus, nem Hexagon.

    Nesta época, o Gustavo estava terminando o curso e propôs de fazer deste projeto o PFC dele, sendo que eu fui o orientador. A empresa foi ficando mais séria, a gente mais envolvido, porém não haviam recursos, então nós dois continuamos trabalhando em paralelo; o Gustavo na Reason Tecnologia e eu na CERTI.. Mais tarde eu saí da CERTI e fui fazer um mestrado na metrologia com o professor Albertazzi, assim poderia me dedicar mais na Arvus. A ideia era fazer meu projeto de mestrado baseado na empresa mas não consegui, e só fui terminar em 2007, quando a empresa já tinha uma receita, quando fechamos um contrato com a Votorantin Celulose e Papel, fugindo da nossa ideia de vender direto aos agricultores. Esse projeto com a Votorantin era de silvicultura de precisão, com o mesmo conceito do nosso produto, até mais simples, pois eles estavam mais focados em gestão das operações/controle de estoques, ou seja, saber se foi aplicado corretamente os insumos. Abraçamos a causa, fizemos um projeto piloto, onde nós tivemos que nos sustentar indo para Pelotas-RS diversas vezes para testar e validar o produto, isso durante um ano. O rapaz que entrou em contato conosco hoje é o nosso Gerente Florestal, que cuida dos negócios dessa área a qual é uma das nossas principais. No fim das contas, na demonstração do produto em campo, quando deu tudo certo, o gerente deles nos chamou para conversar e disse que não poderia comprar os equipamentos, e sim alugar, pois era o modelo deles. Então tivemos que fazer as contas, sendo que eles precisavam também do suporte. Modelamos isso e este modelo de negócio existe até hoje, com 100% de receita recorrente, sendo o nosso diferencial para os concorrentes. Quem concorre com a gente neste setor ainda não conseguiu entrar nesse mercado muito por causa desse modelo que implementamos. Hoje estamos introduzindo isso nas áreas de cana de açúcar e no exterior.

  • Em Florianópolis esse ramo, foi bom?

    Sempre fomos muito questionados em relação a isso, e sempre exploramos bem a mão de obra boa daqui, além da incubadora ajudar muito de início.

  • Quando e porquê escolheu automação?

    Minha mãe e meu pai são médicos, meu irmão mais velho fez medicina, porém sempre fui mais das exatas, gostava da matemática. Não queria Engenharia Civil e Automação me chamou a atenção. Na época tinha curso PUC em BH, na USP e na UFSC. Acabei passando aqui na UFSC e vim pra cá.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Aproveitei bem, fazia muito de muita coisa. Comecei a fazer estágio na CERTI já na segunda fase, sempre fiz estágio lá, rodando em várias áreas diferentes.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    Não, só na CERTI, da 2a fase até a 9a. Entrei na Incubadora da CERTI que é o CELTA, na parte de administração, ajudando as empresas, depois fui para área de negócios e posteriormente para produtos. Acompanhei um pouco de longe a Autojun, mas nunca cheguei a participar dela.

    Sempre gostei muito de esporte, e como já praticava natação eu continuei fazendo na UFSC, como Polo Aquático também, inclusive ainda jogo as vezes. O Gustavo, como era meu calouro, eu o conheci mais no Polo do que na Automação.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Acho que a correlação do IAA com sucesso na carreira profissional é nula. Passaram por aqui uns 10 engenheiros de automação, e eu não sei o IAA de ninguém, nunca olhei, pra mim não faz a menor diferença. Não é critério. Acho que o IAA poderia servir para dar indícios do perfil do profissional, isto até poderia ser importante em um processo seletivo ou direcionamento de carreira.

    O mestrado que eu consegui na área de processamento de imagem foi devido ao tema do meu PFC que foi nessa área e não teve muito a ver com a nota.

  • “Quem quer ser engenheiro de controle e automação precisa gostar muito de física, matemática e programação”. O que você pensa sobre isso? Na sua opinião é verdade?

    Acho que tem que ter um viés de "nerd" mesmo, para fazer tantos cálculos e físicas tem que gostar. Isso não quer dizer que você vai trabalhar com isso na prática para o resto da vida, no entanto a forma de pensar que se constrói ao estudar esses conteúdos vão ser essenciais. Hoje, como executivo, eu uso muito deste modelo mental para tomada de decisão e, queira ou não, tendo a privilegiar pessoas que trabalham assim. Em um ambiente em que as decisões são baseadas em fatos, o engenheiro se sobressai pois tem uma capacidade analítica mais evoluída.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade? Possui alguma história engraçado com algum professor?

    Mecânica geral, foi um pouco de ingenuidade minha. Você vai aprendendo a estudar durante a graduação e matérias mais difíceis vão aparecer com o passar dos semestres porém você já entendeu como que precisará estudar. No começo do semestre eu já achava que não ia conseguir passar.

  • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

    Vi, embora acredito que não usei tanto dessa ajuda que os professores davam. Eu procurei meus estágios de forma mais independente porém vi vários amigos conseguirem o apoio que precisavam.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Não, eu estava fazendo estágio na Suíça durante o período do primeiro linguição.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Eu concordo com isso e acredito que seja um ponto positivo do curso. Acho que os estágios cumprem o papel de aprofundar o conteúdo de forma mais prática. Outros cursos vão te aprofundar mais no conceito, na teoria, o estágio que vai te dar o viés prático.

  • Existe algo que se arrependa na época de graduando? Há algo que você mais se orgulha?

    Acho que não. Eu gostaria de ter participado da Autojun porém acho também que isso poderia ter comprometido a dedicação do estágio ou de outras atividades como o Polo aquático, por isso que não me arrependo.

  • Como está o mercado no futuro, para quem está saindo da faculdade agora?

    Em Floripa, o mercado de TI em maneira geral está muito aquecido, porém mais focado em software. Em engenharia de controle em si, em Floripa o mercado é fraco e acabamos dependendo da economia do país que está ruim.

  • Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    Foi menor do que as minhas expectativas, porém eu estava como bolsista em um projeto de 2 anos e sabia que isso seria um período transitório.

  • Você acha que o engenheiro de controle e automação saído da UFSC está pronto para enfrentar o mercado de trabalho? Acredita que há que complementar o conhecimento em alguma área diferente?

    O curso em si não forma o engenheiro pronto, isso vai do graduando aproveitar bem os estágios e PFCs para conseguir um bom nível de maturidade. Nenhum curso sozinho vai te formar completamente pronto para o mercado de trabalho sem esse esforço adicional do formando. Mas isto não quer dizer que o recém-formado não tem espaço. Ninguém contrata um recém-formado para resolver os problemas mais críticos da empresa, as duas partes tem que estar cientes que ele vai levar tempo e muito suor pra completar a formação, ganhar experiência e responsabilidades.

  • Você notou alguma lacuna muito grande na formação do ECA? Qual a melhor maneira de completar essa falha?

    Tinha falado aqui algo sobre matérias das humanas… acho importante. O engenheiro (e estudante de engenharia) se acha muito onipotente e precisa conhecer outras áreas pra não fechar demais a mente. O engenheiro não é onipotente e o conhecimento de outras áreas pode evitar que isto seja descoberto na prática ou mesmo que isto passe a se tornar ignorância. E isso é importante não só para a carreira, mas também pra vida pessoal.

  • Teria alguma dica para alguém recém formado que queira seguir na mesma área que você, se dar bem?

    Para empreender, não é legal empreender sozinho e sem experiência. Você vai pagar muito caro por essa lacuna.

Mensagem Final aos estudantes

São, talvez, os 5 anos mais importantes da vida inteira, o cara ainda é adolescente e tem a mente flexível mas também é importante começar a ganhar responsabilidade e saber o que vai fazer, ou seja, tem que ser 5 anos muito intensos, tem que aproveitar para estudar o suficiente, trabalhar, estagiar, fazer atividades sociais (fazer amizades, ir pra festas), não se preocupar se está estressado com fazer muita coisa, faz tudo o que tu puder porque se não der conta disso agora não vai dar conta na vida inteira, fica sem dormir mas faz. E pro cara que está se formando, tome riscos, leve mais na cara - esteja receptivo aos riscos que lhe aparecerem, valerá a pena.