Entrevista

20/06/2018


Sair do Paraguai para estudar no Brasil, fazer a graduação e o mestrado na UFSC, realizar o doutorado na Noruega e hoje trabalhar na IBM Research-Brasil, essa é a trajetória do nosso entrevistado de hoje: Andrés Codas. Confira mais sobre a caminhada dele na entrevista abaixo!

  • Por que escolheu automação?

    Desde o ensino médio no Paraguai eu queria estudar fora do meu país, e eu sabia que o curso de automação na UFSC era muito bem conceituado além de um dos primeiros no Brasil. Como todo calouro, eu não sabia muito sobre o curso, mas eu era muito forte em matemática, física e tinha uma certa fascinação por robótica naquela época, então foram os robôs que me chamaram também. Eu já tinha uma certa ideia que ia ser um pouco disso aí. Eu gostei da ideia abrangente do curso, conversei com um pessoal que já estava em Florianópolis e me recomendaram o curso, e assim apliquei a UFSC e passei. Entrei por um convênio, ou seja, não fiz a prova do vestibular, mas fui selecionado.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Teve um antes e um depois (risos). Eu fiz o PAM, que foi bem puxado, mas muito bom, principalmente para quem quer seguir em uma área mais acadêmica. O PAM constrói uma bagagem muito boa. As matérias mais difíceis da automação, como sinais e sistemas, ficam bem mais fáceis depois de fazer o PAM. No fundo não só se estuda cálculo, mas se demonstra o cálculo. Então a minha rotina era bem puxada, comia as pressas no RU para depois estar resolvendo problemas, e assim acabei me enturmando pouco com a galera da automação no início. Durante aquela época já fiz um pouco de iniciação científica também. Além disso, eu basicamente fazia as matérias da grade e em todos os horários vagos estava no laboratório. Pela noite até rolava confraternizações na UFSC mesmo, e bebia cerveja pelo menos duas vezes na semana. No próprio laboratório existiam essas interações, era muito bom.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Eu acho que o IAA é importante, mas ainda mais importante é o relacionamento que você tem com seu grupo de trabalho. Eu tinha sim um bom IAA, e isso me ajudou a obter uma vaga de mestrado com bolsa. O diploma da UFSC e seu desempenho na universidade vai ajudar você a obter seu primeiro emprego, o primeiro passo depois de se formar. No meu caso foi o mestrado, então o bom desempenho durante o curso me fez dar o segundo passo. Depois de concluir o doutorado, já ninguém olha mais para a graduação, mas o que realmente fica são as relações interpessoais e de confiança. Eu tenho certeza que todas as pessoas que me conheceram durante a graduação me recomendariam para atacar qualquer desafio, pois sabem do meu comprometimento.

  • Quais matérias achou mais complicado na faculdade?

    As mais difíceis para mim eram aquelas de decoreba, como processos de fabricação de metais por exemplo. Eu me ferrava em tudo que não contava com matemática e física (risos). E no fim nem foram de grande proveito para mim.

  • Existe algo que mais se orgulha na faculdade?

    Eu sinto muito orgulho por minha turma, os meus colegas são pessoas íntegras e minha experiência dentro do curso não teria sido a mesma se eu não estivesse com esse grupo de pessoas. Sou muito feliz por ter feito parte desse grupo, e se tivesse que voltar naquele momento, passar por tudo isso de novo, eu faria mil vezes. Então principalmente me orgulho das amizades que fiz no curso.

  • Você chegou a participar da organização do Linguição da Automação? Como foi essa experiência pra você?

    Participei sim, na época que minha turma era responsável era uma política que toda a organização era por conta dos alunos, sem empresas externas para ajudar na festa, e espero que continue assim. Não lembro exatamente qual foi meu papel, mas era basicamente ser um braço pra tudo. A maior responsabilidade com certeza vai pro organizador geral, mas mesmo assim todo mundo sai aprendendo alguma coisa de gerenciamento de projetos. Aí também se constroem muitas relações que vão ser importantes depois de se formar. Conheci muita gente indo pro trote, linguição, e que no fim contribuíram também de alguma forma na carreira.

  • Como foi sua trajetória após a faculdade?

    Segui na área acadêmica, com mestrado e doutorado orientados pelo Camponogara, na área de otimização. Na verdade, chega uma hora que você vai estudando otimização, mas tudo se mistura com controle dinâmico. No mestrado o tema a ser estudado é bem delimitado, mas no caso do doutorado tive mais liberdade de propor. Acabei misturando métodos de otimização e controle preditivo. O mestrado foi na UFSC e o doutorado na Noruega, mas continuei em colaboração com a UFSC. Eu ainda colaboro com o Prof. Eduardo em projetos de pesquisa, então se tiver alguém com interesse em trabalhar na IBM no RJ para fazer o PFC, a gente pode conversar. Vai depender de arranjar uma bolsa aqui e encontrar interesses comuns, além de ter a indicação do Prof. Eduardo.

  • Qual é a tua área de atuação na IBM hoje e quais são as responsabilidades por aí?

    Eu trabalho no desenvolvimento de algoritmos de controle para reservatórios de petróleo. Nesse processo você precisa injetar água em alguns poços para empurrar o petróleo para outros poços que serão produtores. Temos que conseguir programar como o campo vai ser operado. Se aplica controle ótimo em diferentes horizontes e tempo. A IBM investe muito com inovação e pesquisa para este fim. A minha pesquisa tenta integrar as camadas de controle regulatório, supervisório, e de ciclo de vida do reservatório, para otimizar a produção, aumentando o fator de recuperação e minimizando o petróleo que fica embaixo, permitindo uma maior rentabilidade daquele campo.

  • Como surgiu a oportunidade de trabalhar na IBM?

    Foi durante o mestrado. Minha história de pesquisador é meio estranha. Nunca quis ou pensei em ser doutor, sempre quis sair da universidade e trabalhar direto em alguma empresa. Como eu fui pra França e não quis ficar lá, acabei não aplicando para muitas empresas do polo petroquímico ou como muitos dos meus colegas. Aí eu voltei, logo comecei o mestrado e fui procurando onde trabalhar. Enquanto eu fazia o mestrado, a NTNU da Noruega deu oportunidades para alunos da UFSC e finalmente gostei da ideia de morar lá. Como o centro de pesquisa lá era financiado por 20 indústrias, também vi o doutorado como uma oportunidade de contratação depois. Uma dessas empresas era a IBM, por acaso. Bem no momento que eu me formei, a crise do petróleo estava no auge. Era bem na época que eu estava entregando doutorado, e então essas empresas disseram pra mim que não poderiam contratar. Comecei a procurar emprego, estava tudo um desastre, chegava a escrever duas, três aplicações por dia. Durante esse tempo apliquei a uma vaga na IBM, passei por alguns processos de entrevista e depois de 11 meses estava dentro. No meu caso o processo foi bem longo, então às vezes é preciso começar com antecedência. O que eu faço na IBM hoje cai exatamente na expertise que trouxe do doutorado, então foi uma oportunidade muito condizente com a minha formação, o que ajudou para ser contratado.

  • Pode explicar um pouco como funcionam as divisões da empresa?

    A IBM tem quase 400.000 empregados. Existe uma divisão de consultoria, que trabalha com produtos já consolidados. Eles visitam os clientes e procuram como a IBM poderia ajudar eles. Na parte de pesquisa, a gente trabalha com protótipos, ou seja, começamos projetos do zero. Buscamos o que gostaríamos de entregar para o mercado, além do que já existe, publicamos nossa pesquisa em periódicos especializados e fazemos patentes sobre produtos novos desenvolvidos pela gente.

  • Existem outros ambientes de pesquisa da IBM no Brasil?

    A IBM no Brasil tem três laboratórios de pesquisa, e eu poderia trabalhar em qualquer um deles. Estamos no Rio de Janeiro, São Paulo e Hortolândia (perto de Campinas). Aqui temos um foco muito importante de negócios, com um pessoal de consultoria muito forte. Em São Paulo a IBM é gigante, com todos os executivos da américa latina que lideram a IBM na Argentina, Chile, Colômbia.. E Hortolândia tem todo o ramo de desenvolvimento. Tem muita gente que sabe muito de código lá, então é um lugar super interessante para trabalhar também. Tem outros escritórios da IBM espalhados pelo Brasil, para atender os clientes locais, mas os três citados anteriormente são onde tem laboratório de pesquisa.

  • Como estão as oportunidades no mercado de trabalho hoje, contando de alguém que já enfrentou as crises econômicas?

    Hoje vejo que estamos melhorando, saindo de uma crise. Vamos dizer que agora está normalizando, caminhando na direção certa. Não chega nem perto do boom que foi 2012-2013, mas não perca a esperança. Basta trabalhar, se comprometer com as relações interpessoais, aplicar as vagas, e sempre contar com as atividades extras além do curso. E acho que mestrado é sempre uma boa opção, pois estende o conhecimento e especializa em algo, dá um diferencial.

  • Como você se vê daqui à alguns anos? Pretende continuar nesta área? Fazer o que da vida?

    Acho que fico mais um tempo na IBM, e depois de muito trabalho nas pesquisas aqui, o que eu espero é ver esse trabalho em campo de fato. Muito ainda está no papel e no código, mas quero participar da implementação em campo dessas metodologias. Aqui temos o suporte inteiro da empresa para fazer isso possível, então é um lugar super interessante para se trabalhar. Já temos empresas interessadas nas pesquisas, então a partir do momento que fecharem as propostas pretendo assumir a parte de produção também.

  • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

    Para mim a visão ampla do curso foi muito favorável, mas é preciso uma certa complementação sim! É preciso colocar um pouco de foco e conseguir complementar em uma certa área de atuação. Nenhum cliente ou empresa vai chegar pedindo um sistema de controle teórico. Sempre se trata de um processo, seja químico, elétrico ou mecânico. Normalmente o que acontece é algo do tipo "tenho essa fábrica com alguns sensores e quero aplicar sistemas IoT para melhorar minha produção", e você tem que usar conhecimento de domínio e controle de processos para ter um retorno econômico, usando as teorias sistema de controle, automação, otimização, que aprendeu na faculdade. É nesse momento que ter esse conhecimento mais abrangente é muito bom. O curso dá uma pincelada básica de muita coisa, então é importante se aprofundar em algumas delas. É aí que entra a importância das iniciações científicas, pet, neo, projetos de pesquisas, estágios... Também desse jeito já podemos ir criando um vínculo profissional.

Mensagem Final aos estudantes

Minha dica para todos é aproveitar esse tempo com o máximo de aprendizado, fazer amizades dentro da universidade, que depois vão te conectar ao mundo profissional. Na medida que a gente vai fazendo o curso, conhecemos pessoas e construímos relações profissionais, e isso vai determinar nosso futuro. A automação por si só não é um fim. Faça alguma atividade extra acadêmicas, seja iniciação científica, pet, estágios, pois isso com certeza vai servir depois.