Entrevista

11/04/2018


Chegamos a nossa 24° pessoa entrevistada. Hoje trazemos o relato do André Cordazzo, engenheiro de projetos que trabalha na Noruega na empresa DNV GL, uma das principais empresas de certificação do mundo. Nessa entrevista ele vai nos contar um pouco da escolha do curso, das suas experiências e como é viver num país nórdico.

  • Por que escolheu automação?

    Na época que estava me informando para entrar na faculdade, eu tinha a ideia que me daria bem na engenharia por gostar de cálculo, me identificava como nerd e ser engenheiro parecia ser uma extensão natural. A automação, até onde eu tinha lido, era um curso que era relativamente bom, com aquela mistura de engenharia elétrica com um pouco de computação e uma coisa que achei interessante era o curso ser descrito como alta demanda, faltava gente no mercado para trabalhar. Na hora que eu li isso pensei “é aqui que o dinheiro está estacionado, vou trabalhar aí”. Não sei dizer se tem mais oportunidade no exterior, mas não é o tipo de curso de graduação que você faz esperando que pode trabalhar em qualquer canto da Terra. Não é como trabalhar como chef de cozinha ou atendimento ao cliente, é um negócio que às vezes tu perde um emprego por perto pra arranjar um emprego a 500 km de distância, o que é um porém.

  • Como era seu dia a dia no curso? Saía muito? Estudava muito?

    Eu sempre namorei, inclusive foi com quem eu casei. Na época ela ficou em Criciúma, e como é um trajeto relativamente curto eu ia sempre, a cada uma ou duas semanas no máximo. Durante a semana eu diria que era uma pessoa bem focada em estudar. Nunca me considerei um gênio dentro do curso, porque os colegas que eu tive eram do tipo que não precisavam estudar muito para estar no topo da turma. Eu não tinha essa facilidade, mas ficava em casa, estudava bastante e saia eventualmente. Teve um ou outro semestre que acabei saindo de mais e tive que repetir uma ou outra matéria, mas acontece e eu sobrevivi (risos).

  • Como foi sua experiência no exterior?

    Para mim fez bastante diferença em alguns aspectos. Foi a primeira vez que sai para intercâmbio, para realmente explorar o mundo. É interessante ter no currículo que você fez uma experiência internacional, que às vezes impressiona só pelo fato de você ter a determinação de ir para fora. Faz diferença no desenvolvimento pessoal, pelo fato de morar em um ambiente estranho, diferente, e expande a tua própria visão de mundo.. É um ganho de maturidade legal. Além disso, as vantagens de trabalhar com gente diferente, em um processo diferente e tecnologias novas. Eu tive acesso a muitos trabalhos diferentes enquanto estava no estágio na Alemanha. O estágio que eu fiz era em uma área que eu não estava acostumado em trabalhar. Tive inclusive algumas complicações, pois eu fui para Alemanha pensando que iria chegar lá com um tema pronto, quando na verdade foi me dito para olhar o que faziam lá no laboratório e decidir um tema do PFC. Se eu soubesse que ia ser assim, já teria me preparado antes mesmo de ir para lá. Como não foi isso que aconteceu, eu passei de setembro a dezembro pulando os temas. Foi ao ponto do professor Augusto já estar me ameaçando a reprovar. Tive do meio de dezembro até o final de fevereiro para fazer tudo, quando finalmente consegui uma ideia com um colega de laboratório na Alemanha. Foi algo que nunca tinha feito antes, fiz um aplicativo para android, na época 2.0, e deu certo.

  • Você fez parte de alguma atividade extra-acadêmica, como CA, DCE, EJ, PET, NEO...? Em que função e o que te ajudou no mercado?

    De extra-acadêmicos fiz estágio como assistente de professor e também em laboratório com o professor Rabelo, por uns 2 anos. Foi através dele que consegui estágio pro meu PFC. Falei com ele, disse que se surgisse oportunidades de estágio fora do país eu estava interessado. Já imaginava que seria na Alemanha, pois sabia da parceria com um professor de lá. Ai alguém conversou com o professor parceiro e me indicaram para lá.

  • A pergunta que todos fazem, IAA importa?

    Falando um pouco da oportunidade que tive para vir para Noruega, não acredito que tenham avaliado meu desempenho em nota para isso. Acho que foi mais por conta das coisas que eu já tinha trabalhado e a recomendação dos meus colegas que já estavam aqui, para realmente ser uma pessoa de confiança que eles estavam trazendo para cá. Estamos falando de uma empresa bem comercial, que já se distancia bastante da área acadêmica em que o avaliador geralmente analisa mais a nota. Então depende da vontade da pessoa, se ela sabe que se identifica mais com a área acadêmica, foca nas notas boas.

  • Como foi sua trajetória após a faculdade? Quais oportunidades te levaram para Noruega?

    Eu tinha acabado de me formar, fiz meu PFC na Alemanha, e quando voltei ao Brasil comecei a procurar emprego inicialmente no sul do Brasil mesmo, mas naquela época (2011) eu estava procurando emprego e já não estava fácil para arranjar. Eu consegui uma ou duas propostas, mas o salário era irrisório e o emprego em si não me agradava tanto. Aí eu entrei em contato com um ex-colega da mesma turma e a empresa dele estava contratando gente do Brasil para trazer para cá, pois eles tinham planos de abrir um escritório no Rio de Janeiro e então queriam treinar a gente na Noruega por 2 anos e voltar pro Brasil. Por conta disso, eu consegui ser contratado. Primeiro porque eu estava querendo essa coisa de vir pra fora e segundo porque eu queria ficar 2 anos fora e voltar pro Brasil, que era o mesmo que a empresa queria. Bom, você reparou que eu ainda estou aqui, então os objetivos da empresa mudaram, o mercado brasileiro se revelou que não ia ser interessante para abrir um escritório de operações aí, e eu também comecei a querer ficar aqui na Noruega e então estou aqui, e gosto de morar aqui.

  • Como foi sua adaptação para ficar na Noruega? É muito diferente do que estamos acostumados?

    Não é um país que eu diria que é 100% fácil de se adaptar. Não é ruim de morar, mas tem alguns pontos em que é meio pesado. Primeiro ponto é o clima, mas pra dizer a verdade é frio sim mas dá para encarar. Só que são muitos meses de pouco sol e isso pega bastante, isso é bem pesado. Eu conheci gente que veio morar para cá no final do ano e não aguentou, pois dizia que é muito escuro e quem veio morar no verão dizia que era o melhor lugar da terra, porque era praticamente só sol. No verão é um clima gostoso, dias de frio batem 10 graus e dias quentes vinte e poucos graus, e o sol faz uma diferença enorme. Outro fator é como o norueguês é sociável, eles vivem muito em bolhas. O grupo do futebol, o grupo da dança, se você não está dentro de um grupo você não consegue se integrar à sociedade, é meio difícil. Esses dois fatores principalmente e claro, a língua. Você tem que falar inglês, mas às vezes as pessoas não querem falar inglês aqui, então a moradia aqui foi em vários momentos estressante. Eu já vim casado para cá e a minha esposa teve problemas para ficar aqui, ela insinuou de voltar ao Brasil várias vezes, pois não aguentava o estilo de vida daqui. A gente comprou um apartamento então nosso objetivo agora é de longo prazo, não temos um plano definido de voltar ao Brasil, minha esposa agora gosta muito de morar na Noruega. A gente ainda tem problemas de adaptação, por exemplo, ela não conseguiu voltar ao mercado de trabalho dela que é o design e está estudando para se adaptar ao mercado local. Eu não consigo imaginar a gente voltando em breve, porque mesmo que o mercado de trabalho brasileiro volte a ficar aquecido, o estilo de vida é diferente, e a gente se acostumou ao estilo de vida daqui. A gente se adaptou ao estilo do norueguês de ser muito na deles, não tem ninguém se metendo na tua vida e incomodando, e nós temos um grupo pequeno de brasileiros que moram aqui e se junta volta e meia pra matar a saudade do Brasil.

  • Você acha justo o piso salarial de um engenheiro quando ele sai da faculdade? Como foi sua saída da faculdade na questão salarial? Correspondeu suas expectativas?

    A questão de salário teve um diferença bem grande. Meu salário de entrada aqui, chutando baixo, é 5x maior que o que eu receberia no Brasil. A curva de ganho de salário aqui com a carreira é muito mais “flat’ que aí no Brasil, começo da carreira aqui é mais fácil. Não que os salários aqui sejam melhores que os do Brasil no tempo, mas o quanto se ganha aqui é muito bom. Mesmo o custo de vida sendo alto, é um país que vale a pena morar, pelo menos economicamente vale muito a pena.

  • Como está o mercado de trabalho na Noruega hoje? Quais as expectativas?

    Aqui na Noruega o mercado está voltando a ficar aquecido pelo menos na área de óleo e gás, mas eu não diria que está no momento que se esteja contratando bastantes pessoas, vai melhorar mais daqui pra frente. Teve uma queda bem grande depois da queda do preço do petróleo em 2014, foi um momento bem complicado, porque a Noruega é bem dependente desse mercado de óleo e gás, e é um país que está se diversificando, que criou mecanismos para não depender tanto do petróleo, mas agora é aquele momento que petróleo não está sendo mais o carro-chefe e o governo, por exemplo, está investindo em criar ambientes inovadores. Aqui na minha cidade tem um ambiente enorme para startups então é uma cidade excelente para quem está querendo arranjar emprego pelo menos na área de controle, sistemas de informação, inteligência artificial, é um ambiente muito bom. Dentro da Europa, eu não sei te informar, é um momento que não é um “boom” gigante que existe na Europa, mas a economia está estável. No Brasil eu não saberia dizer.

  • Muitos entrevistados seguiram para a área de mestrado e doutorado, você vê isso como uma necessidade na área que está hoje ou o curso em si já ofereceu grande parte do ferramental que precisava?

    Eu diria que o curso da automação é um curso muito bom para comparar com alguém que tenha um mestrado aqui na Europa. O formato da maior parte dos cursos aqui na Europa é que os mestrandos passam 5 anos estudando e então defendem uma tese, que é o que a gente faz aí no curso, então eu não me vejo menos qualificado que alguém que tem um mestrado aqui por exemplo.

    • Qual área mais te interessava durante a graduação?

      Eu me interessava bastante por robótica, mas por conta de ter me engajado logo cedo com estágios e laboratórios, acabei não me envolvendo muito. Fui convidado para entrar no Robota, mas por uma questão de respeito as outras coisas que estava fazendo, acabei não aceitando.

    • Quais matérias achou mais complicado na faculdade?

      Sinais foi particularmente difícil para mim. Lembro que foi em uma época bem sobrecarregada na faculdade, com problemas pessoais também. Tive um professor particularmente ruim em uma das físicas, acabei reprovando, mas na segunda vez que fiz a matéria me dei muito bem. Não me identifiquei tanto com as matérias da área de controle. Isso foi algo bem determinante para mim para seguir na área de software, porque eu sabia que era onde me sentia melhor. Identifiquei isso ao longo das matérias mesmo, as vezes com dificuldades ou falta de vontade de ir mais a fundo no conteúdo.

    • Você viu apoio do DAS (professores) aos alunos ao longo do curso nos momentos de buscar bolsas, estágios, informações sobre o mercado?

      Pelo menos no meu caso tive apoio sim. Consegui estágio com o professor Rabelo, de forma bem direta e conversando com ele mesmo. Lembro de casos de outros colegas meus que procuravam estágios logo no começo da graduação e conseguiram também. Diria que sim, não lembro de alguém dizendo que queria trabalhar com o professor e não conseguir essa oportunidade. O mais importante é identificar que professor pode se conectar melhor com o que você quer fazer e perguntar se ele pode ajudar. No pior dos casos você continua no mesmo pé. Não sintam-se constrangidos em falar com professores, pois eles são pontos-chave para se achar na carreira já na faculdade.

    • Muitos alunos dizem que o curso dá uma visão ampla, mas superficial de muitas áreas do conhecimento. Você concorda com isso? Acha isso positivo ou negativo?

      O trabalho que eu tenho hoje mistura todas essas partes, tanto controle na parte de testes, e para isso temos que saber como funciona a área, como conhecimento de programação, elétrica.. Por isso para mim foi muito favorável. Não acho que seja superficial, mas talvez na época no Brasil não era necessário pessoal com essa capacitação. Você precisa de um mercado de ponta para colocar esses profissionais.

    • Existe algo que se arrependa na época de graduando?

      Ter participado do Robota talvez, mas eu não diria que me arrependo. Eu acho que eu teria entrado na carreira melhor se eu tivesse treinado minhas “soft skills”, por exemplo, contato com pessoas, networking e também saber um pouco mais sobre ferramentas, usar algumas ferramentas mais utilizadas no mercado. Por exemplo, eu trabalho muito com programação, e é muito usado controle de versão com Git ou SVN, esse tipo de coisa que eu não usei durante a minha graduação. Eu não sei se deveria ser tratado como um curso complementar, mas alguma coisa a ser incorporada em cursos já existentes para expor o aluno a isso. É aquele tipo de coisa que não precisa algo separado para ensinar até porque o ganho direto não é tão grande, mas vai agregando valores. É só uma questão de organizar os cursos de forma a distribuir gradativamente esse conhecimento a mais. Além disso, ter esse acesso a pessoas já graduadas, como o Alumni está fazendo agora sabe. Eu acho interessante, pois eu não tive muita visão de gente trabalhando no mercado. A gente tinha acesso aos professores, mas eles têm uma visão acadêmica da carreira.

    • O que você sentiu falta de matéria no currículo?

      Eu acho que a grade em si eu não mudaria não, no máximo pegar esse uso de tecnologias de alguma maneira, por exemplo, a pessoa que está fazendo uma matéria de programação começar a fazer trabalho de controle de versão. Não necessariamente precise de uma matéria a mais sabe.

    • Que recado/recomendações você passaria para um calouro que está entrando na universidade agora?

      Foca em não ficar só estudando. Façam estágios, experiências extracurriculares, trabalhem de alguma forma, de preferência que agregue algum valor no curso que você está fazendo, mesmo que isso implique diminuir um pouco a velocidade do curso. Por exemplo, se precisar se formar um pouco depois, isso já vai te permitir sair da faculdade com alguma coisa no currículo que não seja só nota, porque sair só com nota no currículo da faculdade é horrível. Tentem conversar com pessoas que já trabalham que saíram dessa mesma faculdade para entender como que é o mercado de trabalho, o que cada pessoa está fazendo, é bom ver o que acha interessante trabalhar se é na área de sistemas de controle ou de controle de processo para ter um foco já desde o começo do que eu quero fazer. Para quem quer essa experiência fora do Brasil, corram atrás do inglês e de uma terceira língua. O inglês é bom, tudo bem, mas não impressiona mais tanto para alguém que quer sair do país. Quer trabalhar na Alemanha? Estude alemão. Quer trabalhar na França? Estude francês, até pra saber se vai gostar mesmo. Não adianta tu querer ir pra uma terra que não gosta da língua. E trabalhem de alguma forma suas “soft skills”, não seja o cara que é bom em cálculo, em programar e não consegue levar uma reunião, entrar em contato com um cliente, porque isso é muito bem visto por quem está contratando,e é muito útil para quando vai trabalhar. Isso também é algo que não vai ser posto como uma matéria secundária, porque não seria uma coisa que pode ser bem ensinada. E algo que vale muito a pena é ir atrás de laboratórios, estágios, grupos tipo Robota por exemplo..

    Mensagem Final aos estudantes

    Eu diria para cada estudante que está meio desanimado no curso parar para pensar se tem alguma coisa no curso que a pessoa gosta, o quão menos ela estiver gostando do que estiver sendo dado no curso, mais o indicativo de que ela deveria estar procurando outra curso, um que envolva mais o que ela gosta.